Doces memórias de Páscoas passadas
O Jornal Gazeta do Povo traz uma reportagem sobre o significado, doutrina e doces lembranças da Páscoa. Acompanhem. Como o Cristo que ressuscita, doces lembranças também ressurgem na Páscoa. Momentos especiais com a família, sabores, perfumes e mistérios das celebrações do passado costumam voltar à tona quando velhos rituais são postos em prática, desde o domingo de Ramos, no início da Semana Santa, até hoje, quando se festeja a ressurreição de Jesus.
O Jornal Gazeta do Povo traz uma reportagem sobre o significado, doutrina e doces lembranças da Páscoa. Acompanhem.
Como o Cristo que ressuscita, doces lembranças também ressurgem na Páscoa. Momentos especiais com a família, sabores, perfumes e mistérios das celebrações do passado costumam voltar à tona quando velhos rituais são postos em prática, desde o domingo de Ramos, no início da Semana Santa, até hoje, quando se festeja a ressurreição de Jesus.
Para Mário Betiato, professor de teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), não é por acaso que a Páscoa é repleta de cerimônias. “Se não houvesse a ressurreição, o Natal não teria importância e Jesus teria sido apenas mais um judeu nascido na Galiléia. Por isso a Páscoa é o dia litúrgico mais importante do calendário cristão.”
Vale lembrar que a palavra Páscoa é de origem hebraica – vem de pesach, que significa “passagem” –, e antes era empregada apenas pelos judeus. O termo se referia à libertação desse povo do domínio egípcio, graças a Moisés, que os guiou pelo Mar Vermelho.
Símbolo de mudança de um estado para outro, a Páscoa é um período que pode trazer reflexões até para quem não tem religião, sugere Mário Sanches, coordenador do curso de mestrado em Teologia da PUCPR. “O fenômeno religioso trata de algo humano, que pode assumir uma conotação mais abrangente. Afinal, a Páscoa expressa a ideia de uma superação constante, de uma luta contra elementos limitantes.” Assim como o povo judeu que passou de uma situação menos favorecida para outra melhor e Jesus, que passou da morte para a vida eterna, o homem comum também pode se dar conta de passagens marcantes em sua vida.
“Quantas pessoas passam por momentos de dor e depois saem transformadas? Isso também é uma experiência de Páscoa, que mostra como o sofrimento e certas situações não são definitivas. É possível passar por tudo isso de forma esperançosa”, afirma Sanches.
Tradição preservada
Para a família da professora Odessa Volochtchuk Fucci, 36 anos, Páscoa é sinônimo de tradição que se renova. Desde os 6 anos de idade ela já confeccionava as pêssankas, os ovos decorados típicos da cultura ucraniana e que são dados como presente durante a Páscoa. Hoje ela vê seus filhos Nicolas, 8 anos, e Guilherme, 2, seguirem o mesmo caminho. “O Guilherme pega os ovos e risca com canetinha, e o Nicolas agora entende que não dá pra fazer super-heróis nas pêssankas. É só desenho tradicional!”, diverte-se Odessa.
Ao ver os filhos, a professora relembra da sua infância. “Eu sempre estava com meus pais, em uma mesa cheia de ovos, fazendo pêssankas e preparando a cesta com alimentos para serem benzidos. Lembro também da minha avó Catarina, que nos deixava ajudar a fazer as kraschankas, ovos cozidos e coloridos que iam para a cesta.”
Ela explica que, na missa da Igreja Ortodoxa Ucraniana, realizada a partir da meia noite de sábado, todos os alimentos e pêssankas são abençoados. E na manhã de domingo, as famílias se reúnem para comer esses alimentos num grande café da manhã e se presentear com as pêssankas. Tais festividades podem coincidir com o calendário da Páscoa católica, ou podem variar, como neste ano, em que a Páscoa dos ortodoxos será realizada no próximo fim de semana. Com isso, muitas famílias, como a de Odessa, celebram duas vezes.
O marido dela, Paulo Fucci, 44, conta que incorporou os costumes pascoais da esposa, mesmo não tendo sangue ucraniano. “Sou descendente de italianos, alemães e portugueses, e na minha família não havia tanta celebração assim.”
Da sua infância, porém, Fucci lembra com alegria da busca pelos ovos de chocolate escondidos por sua mãe na manhã de domingo. “Na verdade eu e meus irmãos sabíamos onde ela os escondia, mas fingíamos o contrário!” E recorda ainda da malhação de judas no sábado: “O pessoal ficava preparando o boneco o ano todo! Era muito divertido”.
Pai coelho
Para fazer uma criança sonhar, não é preciso muito. Tanto que três pontas de dedos passadas no talco e encostadas no chão, formando pegadas de coelho, são provas definitivas de que um bichinho orelhudo e peludo passou pela casa, deixando ovos de chocolate. Tal lição foi aprendida pela professora aposentada Maria da Graça Stinglin, 64, que repassou o hábito para sua filha Marcele, 37, hoje mãe de Isadora, 12, e Mariana, 7.
Na base desse e de outros singelos costumes de Páscoa da família está o patriarca Leônidas Ferreira Stinglin, falecido em 2007. “Minha família tem uma origem humilde, mas meu pai sempre dava um jeito de fazer algo diferente na Páscoa. Ele confeccionava ovinhos do jeito dele e espalhava um monte de papel pela casa, como se o coelho tivesse feito a maior bagunça. Até os 96 anos, ele continuou com esse costume”, conta Maria da Graça.
Nesse domingo, é com muito gosto que ela prepara um frango assado para a mãe Cristina e toda a família, situação bastante propícia para evocar essas memórias ao redor da mesa. “Nessas horas bate uma saudade da infância, quando havia aquela coisa inocente de ser criança e ser paparicada.” Ao mesmo tempo, ela se recorda de uma indescritível sensação de mistério. “Lembro da vovó dizendo que Jesus havia morrido, e aquilo era muito pesado pra gente. Sem falar que a Páscoa sempre coincide com a chegada do frio, que nos deixa mais introspectivos”, opina.
Mensagem de fé
Há três décadas, enquanto muitos descansam e refletem sobre a ressurreição de Jesus durante a Páscoa, o ator Aparecido Izabel Massi, 55, trabalha intensamente, inclusive encarnando o próprio Jesus. Massi é o fundador do grupo teatral Lanteri, que apresenta anualmente espetáculos da Paixão de Cristo na Pedreira Paulo Leminski para um público médio de 20 mil pessoas. Ao refletir sobre as Páscoas da sua infância, vividas em Água dos Cágados, roça localizada no norte do Paraná, Massi lembra que desde pequeno já estava envolvido com as procissões da Semana Santa.
“Várias vezes eu ficava encarregado de ir na frente da procissão, carregando um crucifixo com um pano roxo em cima. Acho engraçado que, adulto, fui fazer a mesma coisa numa proporção diferente.”
Mas a Páscoa também lhe trazia sofrimento. Seus pais Adriano e Amélia seguiam à risca o preceito de jejuar e não trabalhar na sexta-feira. “Por um lado era bom, porque não fazíamos nada mesmo! Nem varrer a casa, até o meio-dia. O ruim é que eu ficava com fome e fugia para o pasto pra chupar laranja escondido. Eu também sentia uma solidão e uma tristeza imensa ao ouvir pelo rádio as narrações sobre a morte de Cristo.”
A partir do Sábado de Aleluia, porém, retornava a alegria e o trabalho. Seu pai matava bois e porcos e Massi ficava encarregado de distribuir carne para os vizinhos. “Todo mundo ajudava e íamos no córrego lavar a carne para fazer linguiça. Era um dia de muita festa, em que se tomava guaraná e se comia o manjar colorido que a mãe fazia. Pena que o doce não tinha gosto de nada!”, conta aos risos.
É com toda essa vivência que Massi entra em cena hoje na Pedreira, às 19 horas, novamente como Jesus no musical Sinfonia da Paz. Segundo o ator, é impossível não transferir parte da sua personalidade para o personagem, assim como o inverso também acontece. “Ter sido Jesus por tanto tempo me fez refletir e me cobrar mais. Com o tempo também fui fazendo certas cenas de um modo diferente. Se aos 30 anos eu falava ‘atire a primeira pedra, quem nunca pecou’ de uma forma agressiva, aos 40 eu dizia isso com menos ira, julgando menos os outros.”
Sabor de melancolia
Nascida em um Sábado de Aleluia, a professora de matemática Regina Holtz, 57, sente uma certa melancolia ao recordar das Páscoas da infância, passadas em Tatuí, interior de São Paulo. Desde o início da Quaresma, a rotina e o clima da cidade interiorana se alteravam. “As pessoas ficavam mais contidas, não se permitiam bailes, e nós crianças não podíamos cantar muito alto. Eu e minhas irmãs ficávamos muito impressionadas com tudo, especialmente com os santos cobertos com panos roxos a partir de Domingo de Ramos”, diz ela, que frequentava diversas procissões sob uma majestosa lua cheia.
Por outro lado, as iguarias típicas da Semana Santa eram um deleite para Regina. Seu avô Pedro Holtz encarnava um grande mestre-cuca no feriado. O cardápio especial começava na quarta-feira, quando ele preparava ovos recheados com sardinha. Quinta era dia de empada de camarão e, sexta, da bacalhoada. Sábado tinha frango e domingo era a vez do cabrito a caçador. “Era sempre a mesma comida! Lembro até hoje do cheiro do bacalhau, prato que, aliás, preparo até hoje na sexta-feira.”
Símbolos
Neste dia em que ovos e coelhos de chocolate são trocados, vale a pena lembrar os seus significados:
Coelho: eles não botam ovos, mas eram cultuados pelos povos pagãos, no início da primavera no hemisfério norte, como símbolos de fertilidade. “Os coelhos depois foram incorporados pelo cristianismo para representar a religião que renasce e se esparrama pelo mundo”, diz o professor de Teologia da PUCPR Mário Betiato.
Ovos: para os povos pagãos eram símbolos da vida. “Incorporado pelo cristianismo, o ovo de Páscoa também pode ser visto como o túmulo de Jesus, que se quebra e o libera para a vida eterna”, diz Betiato.
Pêssankas: ovos de galinha decorados pelos ucranianos, trazem símbolos que expressam felicitações. Flores e rastelinhos são votos de sorte no casamento, enquanto alces e cavalinhos, por exemplo, significam riqueza e boa saúde. Há quem acredite que as pêssankas são amuletos, capazes de absorver as energias ruins.
FRANCO CALDAS FUCHS /Gazeta do Povo
