{"id":9695,"date":"2021-10-03T00:00:00","date_gmt":"2021-10-03T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.zecadirceu.com.br\/2021\/10\/03\/paulo-guedes-tem-offshore-ativa-em-paraiso-fiscal\/"},"modified":"2021-10-03T00:00:00","modified_gmt":"2021-10-03T03:00:00","slug":"paulo-guedes-tem-offshore-ativa-em-paraiso-fiscal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/paulo-guedes-tem-offshore-ativa-em-paraiso-fiscal\/","title":{"rendered":"Paulo Guedes tem offshore ativa em para\u00edso fiscal"},"content":{"rendered":"<p>O ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, t&ecirc;m empresas em para&iacute;sos fiscais e mantiveram os empreendimentos depois de terem entrado para o governo do presidente Jair Bolsonaro, no in&iacute;cio de 2019.<\/p>\n<p>Ambos dizem que as&nbsp;<em>offshores<\/em>&nbsp;est&atilde;o declaradas &agrave; Receita Federal.&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/codigos\/codi_conduta\/cod_conduta.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Normas do servi&ccedil;o p&uacute;blico<\/a>&nbsp;e da&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2011-2014\/2013\/lei\/l12813.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lei de Conflito de Interesses<\/a>&nbsp;indicam que os 2 mais importantes respons&aacute;veis pela economia brasileira podem ter desrespeitado os procedimentos demandados de altos funcion&aacute;rios do governo federal &ndash;o que eles negam.<\/p>\n<p>No caso de Campos Neto, como se ver&aacute; a seguir, h&aacute; sinais concretos de que o presidente do Banco Central respeitou as normas vigentes ao n&atilde;o ter feito investimentos depois de assumir o cargo. J&aacute; o ministro da Economia n&atilde;o quis declarar nada a respeito.<\/p>\n<p>Guedes mant&eacute;m sua&nbsp;<em>offshore<\/em>&nbsp;aberta. N&atilde;o respondeu de maneira direta se fez alguma movimenta&ccedil;&atilde;o, e, se fez, qual foi a natureza dessas opera&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Campos Neto fechou uma de suas companhias 15 meses depois de ter assumido o comando do BC. Questionado pelo&nbsp;<strong>Poder360,<\/strong>&nbsp;diz n&atilde;o ter feito nenhuma remessa de recursos nem investimentos com os recursos l&aacute; depositados. Em sua resposta ao&nbsp;<strong>Poder360<\/strong>, uma curiosidade: usa a express&atilde;o &ldquo;<em>empresas<\/em>&ldquo;, no plural. &Eacute; que ele mant&eacute;m mais&nbsp;<em>offshores<\/em>&nbsp;do que as encontradas e descritas nesta reportagem &ndash;tudo est&aacute; declarado &agrave; Receita Federal e foi tamb&eacute;m relatado ao Senado quando ele foi sabatinado para o cargo, no in&iacute;cio de 2019. H&aacute; uma declara&ccedil;&atilde;o expl&iacute;cita, por escrito (<a href=\"https:\/\/static.poder360.com.br\/2021\/10\/CamposNeto-documento-ao-Senado1jan2019.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&iacute;ntegra<\/a>) sobre se abster de fazer investimentos enquanto ocupar a presid&ecirc;ncia do Banco Central. Eis um trecho do documento:<\/p>\n<h1><strong>DECIS&Otilde;ES DO CMN<\/strong><\/h1>\n<p>Ao atuar em seus cargos no governo Bolsonaro, o ministro da Economia e o presidente do Banco Central foram respons&aacute;veis diretos por uma decis&atilde;o que alterou as regras para donos de&nbsp;<em>offshores<\/em>. Foi elevado o limite valor depositado no exterior que precisa, obrigatoriamente, ser declarado. Essa decis&atilde;o de Paulo Guedes e Campos Neto, tomada dentro do&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bcb.gov.br\/acessoinformacao\/cmn\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Conselho Monet&aacute;rio Nacional<\/a>, &eacute; apontada por especialistas como poss&iacute;vel conflito de interesses (embora existam nuances entre ambos).<\/p>\n<p>O CMN tem 3 integrantes:&nbsp;<strong>1)<\/strong>&nbsp;o ministro da Economia (presidente do Conselho),&nbsp;<strong>2)<\/strong>&nbsp;o presidente do Banco Central e&nbsp;<strong>3)<\/strong>&nbsp;o secret&aacute;rio Especial de Tesouro e Or&ccedil;amento do Minist&eacute;rio da Economia.<\/p>\n<p>Paulo Guedes tem o seu nome ligado &agrave;&nbsp;<em>offshore<\/em>&nbsp;Dreadnoughts International Group Limited (a palavra inglesa&nbsp;<em>&ldquo;dreadnought&rdquo;<\/em>&nbsp;&eacute; tanto um navio de guerra, um coura&ccedil;ado, como um capote grosso para o inverno rigoroso). Quando a empresa foi criada, em setembro de 2014, ele depositou US$ 8 milh&otilde;es. Depois, segundo registros obtidos pelo&nbsp;<strong>Poder360<\/strong>, a cifra foi elevada para US$ 9,5 milh&otilde;es at&eacute; agosto de 2015.<\/p>\n<p>No caso de Campos Neto, h&aacute; em seu nome duas empresas encontradas nos arquivos analisados por esta reportagem: Cor Assets S\/A e ROCN Limited, esta batizada com as iniciais do seu nome (Roberto de Oliveira Campos Neto). A Cor Assets foi criada em 2004 e teve um aporte inicial de US$ 1,09 milh&atilde;o.<\/p>\n<p>As empresas de Guedes e de Campos Neto est&atilde;o sediadas nas Ilhas Virgens Brit&acirc;nicas, um para&iacute;so fiscal que virou sin&ocirc;nimo de&nbsp;<em>offshore<\/em>. No mercado, &eacute; comum ouvir &ldquo;<em>fulano tem uma BVI<\/em>&rdquo;, numa refer&ecirc;ncia ao nome do territ&oacute;rio em ingl&ecirc;s (<em>British Virgin Islands<\/em>). As Ilhas Virgens Brit&acirc;nicas t&ecirc;m esse apelo porque ali n&atilde;o se cobra impostos de&nbsp;<em>offshores<\/em>.<\/p>\n<p>A&nbsp;<em>offshore<\/em>&nbsp;de Guedes est&aacute; em pleno funcionamento.<\/p>\n<p>A Cor Assets, de Campos Neto, foi encerrada h&aacute; pouco mais de 1 ano, em agosto de 2020. A ROCN deixou de existir em 2016. Campos Neto mant&eacute;m outras offshores, como revelou ao Senado (<a href=\"https:\/\/static.poder360.com.br\/2021\/10\/CamposNeto-documento-ao-Senado1jan2019.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">neste documento<\/a>), mas declarou que ao assumir o BC iria se abster de fazer investimentos e dep&oacute;sitos nessas empresas.<\/p>\n<h1><strong>INVESTIGA&Ccedil;&Atilde;O DO ICIJ<\/strong><\/h1>\n<p>Os dados dessas empresas s&atilde;o parte do acervo de mais de 11,9 milh&otilde;es de documentos obtidos pelo&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.icij.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ICIJ<\/a>&nbsp;(Cons&oacute;rcio Internacional de Jornalistas Investigativos, na sigla em ingl&ecirc;s), uma entidade sem fins lucrativos com base em Washington D.C., nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>O&nbsp;<strong>Poder360<\/strong>&nbsp;integra essa investiga&ccedil;&atilde;o internacional, chamada&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.poder360.com.br\/pandora-papers\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pandora Papers<\/a>, da qual participaram 615 jornalistas de 149 ve&iacute;culos em 117 pa&iacute;ses, entre os quais o jornal&nbsp;<em>The Washington Post<\/em>, a rede brit&acirc;nica&nbsp;<em>BBC<\/em>, a&nbsp;<em>Radio France<\/em>, o jornal alem&atilde;o&nbsp;<em>Die Zeit<\/em>&nbsp;e a TV japonesa&nbsp;<em>NHK<\/em>.<\/p>\n<p>&gt;&gt;&gt; Leia&nbsp;<a href=\"https:\/\/poder360.com.br\/pandora-papers\/leia-todos-os-textos-da-pandora-papers-publicados-pelo-poder360\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>&nbsp;todos os textos do Pandora Papers publicados pelo&nbsp;<strong>Poder360.<\/strong><\/p>\n<p>&Eacute; leg&iacute;timo ter uma&nbsp;<em>offshore<\/em>&nbsp;no Brasil, desde que ela seja declarada &agrave; Receita Federal e ao Banco Central, e o dinheiro tenha origem l&iacute;cita. Quem tem cargo p&uacute;blico, no entanto, est&aacute; sujeito a regras para impedir o autofavorecimento.<\/p>\n<h2><strong>POSS&Iacute;VEL INFRA&Ccedil;&Atilde;O<\/strong><\/h2>\n<p>Especialistas avaliam que ao menos duas regras podem ter sido desrespeitadas quando Guedes e Campos Neto decidiram manter as suas empresas abertas mesmo nos cargos mais altos da economia no pa&iacute;s: o&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/codigos\/codi_conduta\/cod_conduta.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">C&oacute;digo de Conduta da Alta Administra&ccedil;&atilde;o Federal<\/a>&nbsp;e a&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2011-2014\/2013\/lei\/l12813.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lei de Conflito de Interesses<\/a>.<\/p>\n<p>O artigo 5&deg; do C&oacute;digo de Conduta determina o seguinte em seu 1&ordm; par&aacute;grafo:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>&ldquo;&Eacute; vedado o investimento em bens cujo valor ou cota&ccedil;&atilde;o possa ser afetado por decis&atilde;o ou pol&iacute;tica governamental a respeito da qual a autoridade p&uacute;blica tenha informa&ccedil;&otilde;es privilegiadas, em raz&atilde;o do cargo ou fun&ccedil;&atilde;o, inclusive investimentos de renda vari&aacute;vel ou em commodities, contratos futuros e moedas para fim especulativo&rdquo;<\/em>.<\/p>\n<p>Eis o que diz a Lei de Conflito de Interesses em seu artigo 5&ordm;:<\/p>\n<p><em>&ldquo;Configura conflito de interesses no exerc&iacute;cio de cargo ou emprego no &acirc;mbito do Poder Executivo federal: (&hellip;) V &ndash; praticar ato em benef&iacute;cio de interesse de pessoa jur&iacute;dica de que participe o agente p&uacute;blico, seu c&ocirc;njuge, companheiro ou parentes, consangu&iacute;neos ou afins, em linha reta ou colateral, at&eacute; o terceiro grau, e que possa ser por ele beneficiada ou influir em seus atos de gest&atilde;o&rdquo;.&nbsp;<\/em><\/p>\n<p>Como o ministro da Economia e o presidente do BC s&atilde;o po&ccedil;os de informa&ccedil;&atilde;o privilegiada, Guedes e Campos Neto teriam 3 op&ccedil;&otilde;es para ter evitado o potencial conflito de interesses:<\/p>\n<p><strong>1)<\/strong>&nbsp;poderiam ter encerrado todas as suas empresas no exterior t&atilde;o logo&nbsp;<\/p>\n<p>assumiram seus cargos;<\/p>\n<p><strong>2)&nbsp;<\/strong>poderiam ter adotado um procedimento comum nessas situa&ccedil;&otilde;es: fazer uma declara&ccedil;&atilde;o oficial se afastando totalmente da gest&atilde;o das empresas, e conferindo poderes para uma terceira parte administrar os recursos sem interfer&ecirc;ncia do propriet&aacute;rio;<\/p>\n<p><strong>3)<\/strong>&nbsp;poderiam ter declarado publicamente que iriam se abster de fazer investimento no exterior por meio das offshores (que &eacute; exatamente o que fez o presidente do BC). Essa &eacute; a recomenda&ccedil;&atilde;o expressa no&nbsp;<a href=\"https:\/\/static.poder360.com.br\/2021\/10\/codigo_conduta_servidores_bcb.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">C&oacute;digo de Conduta dos Servidores do Banco Central<\/a>&nbsp;(&ldquo;<em>O servidor deve abster-se de efetuar aplica&ccedil;&otilde;es de recursos pr&oacute;prios ou de terceiros em opera&ccedil;&atilde;o de que tenha conhecimento em raz&atilde;o do cargo ou da fun&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica<\/em>&ldquo;).<\/p>\n<p>Campos Neto disse ao&nbsp;<strong>Poder360<\/strong>&nbsp;que desde a sua posse suas empresas ficaram parada, sem dep&oacute;sitos nem investimentos. Paulo Guedes declarou que deixou suas atividades privadas quando assumiu o minist&eacute;rio. Mas n&atilde;o fica claro exatamente qual foi a atividade de sua&nbsp;<em>offshore<\/em>&nbsp;nem como foi gerida depois de ele ter assumido o Minist&eacute;rio da Economia.<\/p>\n<p>&ldquo;<em>Desde que assumiu o cargo de ministro da Economia, Paulo Guedes se desvinculou de toda a sua atua&ccedil;&atilde;o no mercado privado, nos termos exigidos pela Comiss&atilde;o de &Eacute;tica P&uacute;blica, respeitando integralmente a legisla&ccedil;&atilde;o aplicada aos servidores p&uacute;blicos e ocupantes de cargos em comiss&atilde;o<\/em>&ldquo;, disse a assessoria de imprensa do ministro.<\/p>\n<p>Em sua resposta ao&nbsp;<strong>Poder360<\/strong>&nbsp;sobre seu empreendimento, Campos Neto disse que n&atilde;o fez investimentos na conta desde que assumiu o BC.<\/p>\n<p>&ldquo;<em>N&atilde;o houve nenhuma remessa de recursos &agrave;s empresas ap&oacute;s minha nomea&ccedil;&atilde;o para fun&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. Desde ent&atilde;o, por quest&otilde;es de&nbsp;<\/em><em>compliance, n&atilde;o participo da gest&atilde;o ou fa&ccedil;o investimentos com recursos das empresas<\/em>&rdquo;, disse Campos Neto ao&nbsp;<strong>Poder360<\/strong>, por meio de sua assessoria.<\/p>\n<p>Documentos oficiais das Ilhas Virgens Brit&acirc;nicas registram uma reuni&atilde;o em dezembro de 2018 (ou seja, 1 m&ecirc;s depois da indica&ccedil;&atilde;o &agrave; presid&ecirc;ncia do BC) na qual Campos Neto passou de diretor para diretor-presidente da Cor Assets.<\/p>\n<p>A reuni&atilde;o seguinte foi realizada em agosto de 2020, quando ele prop&ocirc;s a dissolu&ccedil;&atilde;o da empresa, mas j&aacute; havia estado por 15 meses na condi&ccedil;&atilde;o de presidente do Banco Central.<\/p>\n<p>As &ldquo;<em>reuni&otilde;es<\/em>&rdquo; mencionadas nesses documentos s&atilde;o, na realidade, decis&otilde;es tomadas pelo titular ou pelos acionistas e informadas ao agente, que repassa as mudan&ccedil;as formalmente &agrave;s autoridades. Tudo pode ter sido operado por meio remoto, por mensagens e e-mails.<\/p>\n<p>&ldquo;<em>A integralidade desse patrim&ocirc;nio, no pa&iacute;s e no exterior, est&aacute; declarada &agrave; CEP\/PR&nbsp;<\/em>&#91;<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/planalto\/pt-br\/assuntos\/etica-publica\/cep\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Comiss&atilde;o de &Eacute;tica P&uacute;blica da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica<\/a>]<em>, &agrave; Receita Federal e ao Banco Central, com recolhimento de toda a tributa&ccedil;&atilde;o devida e observ&acirc;ncia de todas as regras legais e comandos &eacute;ticos aplic&aacute;veis aos agentes p&uacute;blicos<\/em>&ldquo;, disse o Campos Neto em sua resposta.<\/p>\n<h2><strong>MUDARAM REGRAS DE&nbsp;<em>OFFSHORES<\/em><\/strong><\/h2>\n<p>Paulo Guedes e Roberto Campos Neto tomaram uma decis&atilde;o expressa em duas resolu&ccedil;&otilde;es do Conselho Monet&aacute;rio Nacional que alteraram regras aplicadas diretamente &agrave; propriedade de&nbsp;<em>offshores<\/em>&nbsp;de brasileiros. &Eacute; isso que causa controv&eacute;rsia entre especialistas e pode ser um aparente conflito de interesses, de acordo com os j&aacute; citados&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/codigos\/codi_conduta\/cod_conduta.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">C&oacute;digo de Conduta da Alta Administra&ccedil;&atilde;o Federal<\/a>&nbsp;e&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2011-2014\/2013\/lei\/l12813.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lei de Conflito de Interesses<\/a>.<\/p>\n<p>No dia 30 de julho de 2020, Campos Neto liderou a mudan&ccedil;a nas regras da declara&ccedil;&atilde;o de Capitais Brasileiros no Exterior (CBE), aprovadas com os votos de Paulo Guedes e Waldery Rodrigues, ent&atilde;o secret&aacute;rio da Fazenda, em reuni&atilde;o do Conselho Monet&aacute;rio Nacional. Os 3 comandam o CMN.<\/p>\n<p>As resolu&ccedil;&otilde;es&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bcb.gov.br\/estabilidadefinanceira\/exibenormativo?tipo=Resolu%C3%A7%C3%A3o%20CMN&amp;numero=4841\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">CMN 4.841<\/a>&nbsp;e&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.in.gov.br\/en\/web\/dou\/-\/resolucao-cmn-n-4.844-de-30-de-julho-de-2020-269961515\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">CMN 4.844<\/a>, propostas pelo BC, aumentaram de US$ 100.000 para US$ 1 milh&atilde;o o m&iacute;nimo a ser declarado anualmente por donos de offshores. As duas decis&otilde;es tamb&eacute;m desobrigaram contas de brasileiros com at&eacute; R$ 100.000 no exterior de serem declaradas &agrave; autarquia.<\/p>\n<p><strong>CMN 4.841<\/strong>&nbsp;&ndash;&nbsp;<em>&ldquo;Art. 2&ordm; &ndash; A declara&ccedil;&atilde;o de que trata o art. 1&ordm;, inclusive suas retifica&ccedil;&otilde;es, deve ser prestada anualmente, por meio eletr&ocirc;nico, na data-base de 31 de dezembro de cada ano, quando os bens e valores do declarante no exterior totalizarem, nessa data, quantia igual ou superior a US$ 1.000.000,00 (um milh&atilde;o de d&oacute;lares dos Estados Unidos da Am&eacute;rica), ou seu equivalente em outras moedas&rdquo;<\/em>.<\/p>\n<p><strong>CMN 4.844<\/strong>&nbsp;&ndash;&nbsp;<em>&ldquo;Art. 26 &ndash; A movimenta&ccedil;&atilde;o ocorrida em conta de dep&oacute;sito de pessoas f&iacute;sicas ou jur&iacute;dicas residentes, domiciliadas ou com sede no exterior, de valor igual ou superior a R$ 100.000,00 (cem mil reais), deve ser registrada no Sisbacen, na forma estabelecida pelo Banco Central do Brasil&rdquo;<\/em>.<\/p>\n<p>De acordo com a assessoria de imprensa do BC, as novas regras t&ecirc;m prop&oacute;sitos exclusivamente estat&iacute;sticos, por isso a resolu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o teria influenciado na situa&ccedil;&atilde;o direta de Campos Neto, que mantinha aproximadamente US$ 1 milh&atilde;o no exterior.<\/p>\n<p>A assessoria de imprensa de Guedes foi questionada se ele teria tido algum benef&iacute;cio com a edi&ccedil;&atilde;o dessas medidas, mas n&atilde;o respondeu.<\/p>\n<p>Quem se enquadra na regra e n&atilde;o declara seu dinheiro no exterior pode ser multado de R$ 2.500 a R$ 250.000.<\/p>\n<p>Apesar de os 2 terem mantido empresas fora do Brasil depois de assumirem seus cargos, as situa&ccedil;&otilde;es de Guedes e Campos Neto guardam nuances que as diferenciam. S&atilde;o as seguintes:<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Campos Neto &ndash; sem investimentos e uma&nbsp;<em>offshore<\/em><\/strong><strong>&nbsp;fechada<\/strong>: Campos Neto fechou uma de suas&nbsp;<em>offshores<\/em>&nbsp;antes de a norma aprovada pelo Conselho Monet&aacute;rio Nacional valer para ele na pr&aacute;tica: &eacute; que o presidente do BC teria de relatar o valor que mantinha no exterior em 31 de dezembro de 2020. Sua empresa foi encerrada 2 meses antes.<br \/>\n\tAl&eacute;m disso, Campos Neto declara que n&atilde;o fez nenhuma movimenta&ccedil;&atilde;o (dep&oacute;sitos nem investimentos) por meio da&nbsp;<em>offshore<\/em>&nbsp;enquanto esteve &agrave; frente do Banco Central, o que atenua o caso, at&eacute; porque trata-se de informa&ccedil;&atilde;o facilmente verific&aacute;vel;<\/li>\n<li><strong>Guedes &ndash;&nbsp;<em>offshore<\/em><\/strong><strong>&nbsp;aberta e n&atilde;o informa sobre movimenta&ccedil;&otilde;es<\/strong>:&nbsp;Guedes manteve a&nbsp;<em>offshore<\/em>&nbsp;aberta depois da entrada da norma em vigor. Em teoria, a nova regra pode ter sido aplicada diretamente ao seu empreendimento. N&atilde;o h&aacute; como saber o saldo atual dos investimentos do ministro da Economia nas Ilhas Virgens Brit&acirc;nicas, mas ele criou a empresa em setembro de 2014 com capital de US$ 8 milh&otilde;es. Depois de 4 dep&oacute;sitos, esse montante chegou a US$ 9,55 milh&otilde;es em 2015. Se esse valor tiver permanecido inalterado at&eacute; hoje, a cifra estaria acima do novo piso estabelecido (US$ 1 milh&atilde;o) para declara&ccedil;&atilde;o ao Banco Central. Nessa hip&oacute;tese, a decis&atilde;o do CMN foi in&oacute;cua para o czar da economia do governo de Jair Bolsonaro.<br \/>\n\tMas diferentemente de Campos Neto, o ministro manteve at&eacute; hoje a&nbsp;<em>offshore<\/em>&nbsp;aberta. Guedes n&atilde;o explica se ele, a filha ou a mulher fizeram opera&ccedil;&otilde;es no mercado nesse per&iacute;odo por meio da empresa no exterior. Se alguma eventual a&ccedil;&atilde;o tiver sido empreendida (compra e venda de a&ccedil;&otilde;es), esse cen&aacute;rio piora a situa&ccedil;&atilde;o do titular da Economia.<\/li>\n<\/ul>\n<h2><strong>REFORMA TRIBUT&Aacute;RIA<\/strong><\/h2>\n<p>H&aacute; algo mais a respeito das a&ccedil;&otilde;es de Paulo Guedes como ministro e sua&nbsp;<em>offshore<\/em>&nbsp;no Caribe.<\/p>\n<p>O titular da Economia tentou incluir a tributa&ccedil;&atilde;o das&nbsp;<em>offshores<\/em>&nbsp;na reforma tribut&aacute;ria. Hoje, o brasileiro que remete legalmente dinheiro para o exterior paga uma taxa no momento do envio. Depois, s&oacute; quando e se trouxer o dinheiro de volta e se for declarado ganho de capital. A ideia inicial da reforma proposta pelo governo era taxar anualmente os ganhos de quem mant&eacute;m recursos em outros pa&iacute;ses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A proposta foi abandonada por influ&ecirc;ncia de v&aacute;rios&nbsp;<em>lobbies<\/em>. Os bancos puxaram a fila e fizeram grande press&atilde;o. O ministro, por&eacute;m, contou outra vers&atilde;o em debate realizado em julho pela CNI (Confedera&ccedil;&atilde;o Nacional da Ind&uacute;stria).<\/p>\n<p>Segundo Guedes, as propostas para cobrar impostos dessas empresas eram muito complicadas e contrariavam o esp&iacute;rito que o governo buscava para a reforma, de simplificar a legisla&ccedil;&atilde;o: &ldquo;<em>Ah, &lsquo;porque tem que pegar as offshore&rsquo; e n&atilde;o sei qu&ecirc;. Come&ccedil;ou a complicar? Ou tira ou simplifica. Tira. Estamos seguindo essa regra<\/em>&rdquo;.<\/p>\n<p>Houve tamb&eacute;m press&atilde;o do setor de infraestrutura. Os cons&oacute;rcios que s&atilde;o formados para investir bilh&otilde;es de reais em concess&otilde;es de rodovias, aeroportos e outros servi&ccedil;os p&uacute;blicos sempre constituem uma&nbsp;<em>offshore<\/em>&nbsp;para aportar os recursos. Se houvesse taxa&ccedil;&atilde;o anual, os leil&otilde;es poderiam ficar menos atrativos.<\/p>\n<p>Os&nbsp;<em>lobbies<\/em>&nbsp;venceram e hoje a ideia j&aacute; est&aacute; esquecida.<\/p>\n<p>N&atilde;o foi propriamente a elimina&ccedil;&atilde;o de uma regra, pois a reforma tribut&aacute;ria nem sequer foi votada &ndash;est&aacute; em debate no Senado. Mas a decis&atilde;o acatada pela equipe econ&ocirc;mica ajudou os cerca de 60.000 brasileiros que mant&ecirc;m empresas em para&iacute;sos fiscais, inclusive Paulo Guedes. Esse grupo representa 0,03% da popula&ccedil;&atilde;o brasileira.<\/p>\n<p>O fato &eacute; que o Brasil permanecer&aacute; cobrando impostos de&nbsp;<em>offshores<\/em>&nbsp;s&oacute; em situa&ccedil;&otilde;es pontuais: quando h&aacute; distribui&ccedil;&atilde;o de lucros, empr&eacute;stimos ou repatria&ccedil;&atilde;o dos recursos. As al&iacute;quotas nesses casos variam de 15% a 27,5%. Esse procedimento &eacute; condenado pela&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.oecd.org\/latin-america\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">OCDE<\/a>&nbsp;(Organiza&ccedil;&atilde;o para a Coopera&ccedil;&atilde;o e Desenvolvimento Econ&ocirc;mico), clube de pa&iacute;ses ricos ao qual o governo Bolsonaro deseja aderir. A OCDE considera que &eacute; injusto ricos escaparem de impostos enquanto h&aacute; pobres que n&atilde;o s&atilde;o atendidos em suas necessidades b&aacute;sicas.<\/p>\n<h2><strong>OPINI&Atilde;O DE ESPECIALISTAS<\/strong><\/h2>\n<p>Como parte do processo de apura&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica, o&nbsp;<strong>Poder360<\/strong>&nbsp;pediu para ter acesso aos documentos que Campos Neto e Paulo Guedes relatam ter apresentado &agrave; CEP\/PR e aos extratos banc&aacute;rios, sob condi&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o publicar essas informa&ccedil;&otilde;es. Ambos se negaram a fornecer os dados.<\/p>\n<p>Especialistas em &eacute;tica e administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica enxergam problemas no fato de Guedes e Campos Neto n&atilde;o terem encerrado ou ao menos terem se afastado formalmente das empresas t&atilde;o logo assumiram os cargos que ocupam.<\/p>\n<p>O ex-ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Marco Aur&eacute;lio Mello diz que contas em para&iacute;sos fiscais n&atilde;o s&atilde;o compat&iacute;veis com o servi&ccedil;o p&uacute;blico. Isso ocorre, segundo o ex-ministro, porque os para&iacute;sos fiscais oferecem um grau de sigilo muito mais elevado do que outros pa&iacute;ses. Esse sigilo, de acordo com Mello, &eacute; uma afronta ao cargo p&uacute;blico, que exige publicidade.<\/p>\n<p><em>&ldquo;O homem p&uacute;blico &eacute; um livro aberto e a administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica pressup&otilde;e transpar&ecirc;ncia, norteando-a &agrave; moralidade. A conta em para&iacute;so fiscal &eacute; coberta pela reserva, por verdadeiro sigilo. Logo, nada justifica a titularidade por servidor p&uacute;blico&rdquo;<\/em>, disse o ex-ministro do Supremo ao&nbsp;<strong>Poder360<\/strong>.<\/p>\n<p>O advogado Sebasti&atilde;o Tojal, professor titular de direito p&uacute;blico da USP e um dos maiores especialistas em&nbsp;<em>compliance&nbsp;<\/em>do pa&iacute;s, afirma que a declara&ccedil;&atilde;o da&nbsp;<em>offshore<\/em>&nbsp;&agrave; CEP &eacute; irrelevante.<\/p>\n<p>&ldquo;<em>A eventual notifica&ccedil;&atilde;o &agrave; Comiss&atilde;o de &Eacute;tica&nbsp;<\/em>&#91;da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica]<em>&nbsp;de que o funcion&aacute;rio n&atilde;o movimentou a offshore n&atilde;o tem a menor import&acirc;ncia. A lei diz que ele n&atilde;o pode ter offshore. Se ele movimentou ou n&atilde;o, do ponto de vista da lei &eacute; irrelevante<\/em>&rdquo;, afirmou Tojal.<\/p>\n<p>O professor de direito p&uacute;blico diz que h&aacute; aparente viola&ccedil;&atilde;o do princ&iacute;pio da publicidade: &ldquo;<em>Al&eacute;m da infra&ccedil;&atilde;o ao c&oacute;digo de &eacute;tica, pode caracterizar um ato de improbidade. &Eacute; da ess&ecirc;ncia do funcionalismo que tudo seja p&uacute;blico. A opacidade de uma offshore &eacute; inadmiss&iacute;vel para esses cargos&rdquo;<\/em>.<\/p>\n<p>O advogado criminalista Celso Vilardi, professor da FGV Direito SP, v&ecirc; os 2 casos de forma diferente.&nbsp;<em>&ldquo;Se o funcion&aacute;rio p&uacute;blico n&atilde;o movimentou a empresa depois que assumiu o cargo, n&atilde;o vejo nenhum il&iacute;cito. Se a empresa ficou inativa, n&atilde;o vejo a menor possibilidade de esse funcion&aacute;rio ter cometido algum il&iacute;cito. Pode ter havido infra&ccedil;&atilde;o &eacute;tica&rdquo;<\/em>.<\/p>\n<p>Infra&ccedil;&atilde;o &eacute;tica &eacute; punida no Brasil com advert&ecirc;ncia ou penas administrativas. Por&eacute;m, ningu&eacute;m foi afastado do cargo por causa de viola&ccedil;&otilde;es &eacute;ticas.<\/p>\n<p>Vilardi pondera, no entanto, que, se houve movimenta&ccedil;&atilde;o na&nbsp;<em>offshore<\/em>, a situa&ccedil;&atilde;o muda completamente porque pode configurar crime, e n&atilde;o apenas uma infra&ccedil;&atilde;o administrativa.<\/p>\n<p>&ldquo;<em>Se ele movimentou a empresa, a&iacute; pode caracterizar informa&ccedil;&atilde;o privilegiada<\/em>&ldquo;. Esse crime &eacute; punido com pris&atilde;o de 1 a 5 anos e multa de at&eacute; 3 vezes o valor obtido com a pr&aacute;tica il&iacute;cita.<\/p>\n<h2><strong>PROCEDIMENTOS DE BLINDAGEM<\/strong><\/h2>\n<p>H&aacute; mecanismos para evitar os questionamentos que Guedes e Campos Neto sofrem agora.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, executivos ou pol&iacute;ticos que assumem cargos similares na administra&ccedil;&atilde;o s&atilde;o obrigados a colocar todos os recursos que t&ecirc;m em um fundo sobre o qual eles n&atilde;o t&ecirc;m interfer&ecirc;ncia, chamado de &ldquo;<em>blind trust<\/em>&rdquo; (truste cego). Quando deixam o governo, eles retomam o controle sobre esses recursos.<\/p>\n<p>O ex-presidente do Banco Central&nbsp;<a href=\"https:\/\/eleicoes.poder360.com.br\/candidato\/573275#2018\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Henrique Meirelles<\/a>, que tamb&eacute;m era dono de uma&nbsp;<em>offshore,&nbsp;<\/em>usou esse mecanismo quando assumiu a institui&ccedil;&atilde;o, em 2002. Ele criou um&nbsp;<em>trust&nbsp;<\/em>para gerir a sua fortuna. O nome de Meirelles apareceu na investiga&ccedil;&atilde;o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.poder360.com.br\/paradise-papers\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Paradise Papers<\/a>, do&nbsp;<strong>Poder360<\/strong>&nbsp;em conjunto com o ICIJ em 2017.<\/p>\n<p>Uma vez que o criador do&nbsp;<em>trust<\/em>&nbsp;entrega determinado patrim&ocirc;nio para o empreendimento, a regra para uso do bem no futuro ser&aacute; apenas a que estiver determinada na estrutura societ&aacute;ria inicial &ndash;n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel mais alterar. O&nbsp;<em>trustee<\/em>&nbsp;(administrador do&nbsp;<em>trust<\/em>) cumprir&aacute; a ordem de maneira irrevog&aacute;vel quando o contrato assim o determinar. Meirelles, que na &eacute;poca da reportagem era ministro da Fazenda, enviou ao&nbsp;<strong>Poder360<\/strong>&nbsp;c&oacute;pia de sua declara&ccedil;&atilde;o de Imposto de Renda para comprovar a licitude da opera&ccedil;&atilde;o. Para ler sobre o caso,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.poder360.com.br\/paradise-papers\/ministro-henrique-meirelles-usa-trust-em-paraiso-fiscal-para-gerir-heranca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">clique aqui<\/a>.<\/p>\n<p>O ex-ministro da Justi&ccedil;a Marcio Tomaz Bastos, que tinha mais de R$ 400 milh&otilde;es quando foi nomeado para o cargo pelo ent&atilde;o presidente Lula, usou a mesma estrutura para evitar conflito de interesses.<\/p>\n<p>O&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/codigos\/codi_conduta\/cod_conduta.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">C&oacute;digo de &Eacute;tica da Alta Administra&ccedil;&atilde;o Federal<\/a>, criado em 2000, n&atilde;o trata especificamente de&nbsp;<em>offshores<\/em>, mas fala que o funcion&aacute;rio p&uacute;blico n&atilde;o pode ter&nbsp;<em>&ldquo;bens cujo valor ou cota&ccedil;&atilde;o possa ser afetado por decis&atilde;o ou pol&iacute;tica governamental a respeito da qual a autoridade p&uacute;blica tenha informa&ccedil;&otilde;es privilegiadas, em raz&atilde;o do cargo ou fun&ccedil;&atilde;o&rdquo;<\/em>.<\/p>\n<p>No caso do&nbsp;<a href=\"https:\/\/static.poder360.com.br\/2021\/10\/codigo_conduta_servidores_bcb.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">C&oacute;digo de Conduta dos Servidores do BC<\/a>, h&aacute; uma op&ccedil;&atilde;o clara de apenas se abster de fazer investimentos, e manter empresas no exteiror ativas &ndash;o que fez Campos Neto.<\/p>\n<p>Como h&aacute; v&aacute;rias regras, abre-se espa&ccedil;o para v&aacute;rios entendimentos diferentes. Nesse v&aacute;cuo, tanto Meirelles quanto Bastos optaram por colocar seus investimentos em fundos cegos por iniciativa pr&oacute;pria. Isso evitou que fossem admoestados por causa dos empreendimentos. Campos Neto parece ter optado por uma sa&iacute;da legal e aprovada pelo Banco Central. Sobre Paulo Guedes, haver&aacute; d&uacute;vidas enquanto o ministro n&atilde;o esclarecer o que fez exatamente a respeito de movimentar recursos no exterior por meio da offshore na qual tem participa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<h2><strong>HIST&Oacute;RICO<\/strong><\/h2>\n<p>A hist&oacute;ria de Paulo Guedes e de Campos Neto com&nbsp;<em>offshores<\/em>&nbsp;tem alguns anos. O ministro registrou a Dreadnoughts em 2014. J&aacute; o presidente do BC, em 2004, quando era respons&aacute;vel pela &aacute;rea internacional de renda fixa no banco Santander, e passou a fazer parte da Cor Assets.<\/p>\n<p>Guedes &eacute; s&oacute;cio da sua mulher e da filha na conta da Dreadnoughts, aberta em setembro de 2014 no banco Credit Suisse, em Nova York, com capital inicial de US$ 8 milh&otilde;es.<\/p>\n<p>Essa &eacute; uma das caracter&iacute;sticas das&nbsp;<em>offshores<\/em>: as empresas ficam em para&iacute;sos fiscais, mas o dinheiro &eacute; depositado em outros pa&iacute;ses, como Su&iacute;&ccedil;a, Reino Unido ou Estados Unidos.<\/p>\n<p>A&nbsp;<em>offshore<\/em>&nbsp;de Campos Neto j&aacute; apareceu na investiga&ccedil;&atilde;o&nbsp;<a href=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/f2xeZ_rBLH9Yx8o26cYb5BHTJs4Ho3FGOnA1uPo3RuUP2lHRYiroTVnYX0jcqR2AxB1OntwY_JfIYX-s3WXiYdjuVIZ2112bhcevPohjemR-7F3B2-z73mEOS1VMpDm0BVIHWNLz=s0\"><em>Panama Papers<\/em><\/a>. Aberta em sociedade com sua mulher, a advogada Adriana Buccolo de Oliveira, a Cor Assets come&ccedil;ou com capital de US$ 10.000, depositados no Safra de Luxemburgo. Dois meses depois, ele aumentou os recursos dessa&nbsp;<em>offshore<\/em>&nbsp;para US$ 1,09 milh&atilde;o. O capital que faltava (US$ 1,08 milh&atilde;o) foi enviado do Brasil para Luxemburgo, de maneira legal.<\/p>\n<p>Campos Neto e sua mulher informaram ao escrit&oacute;rio Mossack Fonseca, que cuidou dessa&nbsp;<em>offshore<\/em>&nbsp;por um tempo, que o objetivo era receber &ldquo;<em>investimentos em ativos financeiros do Santander private bank<\/em>&rdquo;.<\/p>\n<p>Apesar de ser tudo legal, um funcion&aacute;rio do Mossack Fonseca em Luxemburgo enviou a seguinte mensagem para o seu colega no Panam&aacute; assim que a conta foi aberta no Safra: &ldquo;<em>N&oacute;s destruiremos os documentos e voc&ecirc; pode encerrar este caso<\/em>&rdquo;.<\/p>\n<p>Mais adiante, em 2007, Campos Neto criou outra&nbsp;<em>offshore<\/em>, a ROCN Limited &ndash;batizada com as iniciais do seu nome. Com ela, Campos Neto disse que pretendia investir de US$ 500.000 a US$ 1 milh&atilde;o por ano.<\/p>\n<p>Segundo o banqueiro, as empresas, usadas para investimentos pessoais, foram declaradas &agrave; Receita Federal.<\/p>\n<p>A ROCN foi encerrada em 2016. J&aacute; a Cor Assets s&oacute; teve o seu fim decretado em setembro de 2020.<\/p>\n<h2><strong>INTERESSE P&Uacute;BLICO<\/strong><\/h2>\n<p>Como est&aacute; registrado em diversos textos da s&eacute;rie Pandora Papers, ter uma empresa offshore ou conta banc&aacute;ria no exterior n&atilde;o &eacute; crime para brasileiros que declaram essas atividades &agrave; Receita Federal e ao Banco Central, conforme o caso.<\/p>\n<p>Se n&atilde;o &eacute; crime, por que divulgar informa&ccedil;&otilde;es de pessoas cujo empreendimento no exterior est&aacute; em conformidade com as regras brasileiras? A resposta a essa pergunta &eacute; simples: o&nbsp;<strong>Poder360<\/strong>&nbsp;e o ICIJ se guiam pelo princ&iacute;pio da relev&acirc;ncia jornal&iacute;stica e do interesse p&uacute;blico.<\/p>\n<p>Como se sabe, h&aacute; uma diferen&ccedil;a sobre como brasileiros devem registrar suas empresas.<\/p>\n<p>Para a imensa maioria dos cidad&atilde;os com neg&oacute;cios registrados dentro do Brasil, os dados s&atilde;o p&uacute;blicos. Basta ir a um cart&oacute;rio ou a uma Junta Comercial para saber quem s&atilde;o os donos de uma determinada empresa. J&aacute; no caso de quem tem uma offshore, ainda que declarada, a informa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; p&uacute;blica.<\/p>\n<p>Existem, portanto, 2 tipos de brasileiros empreendedores:&nbsp;<strong>1)<\/strong>&nbsp;os que t&ecirc;m suas empresas no pa&iacute;s e ficam expostos ao escrut&iacute;nio de qualquer outro cidad&atilde;o;&nbsp;<strong>2)<\/strong>&nbsp;os que t&ecirc;m condi&ccedil;&otilde;es de abrir o neg&oacute;cio fora do pa&iacute;s e, assim, proteger os dados por sigilo.<\/p>\n<p>Essas s&atilde;o as regras. Neste espa&ccedil;o n&atilde;o ser&aacute; analisado se s&atilde;o in&iacute;quas ou n&atilde;o. A lei &eacute; essa. Deve ser cumprida. Cabe ao Congresso, se desejar, aperfei&ccedil;oar as normas. Ao jornalismo resta a miss&atilde;o de relatar os fatos.<\/p>\n<p>&Eacute; fun&ccedil;&atilde;o, portanto, do jornalismo profissional descrever &agrave; sociedade o que se passa no pa&iacute;s. H&aacute; cidad&atilde;os que ocupam posi&ccedil;&atilde;o de destaque e que devem sempre ser submetidos a um escrut&iacute;nio maior. Encaixam-se nessa categoria, entre outras, as celebridades (que vivem de sua exposi&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica e muitas vezes recebem subs&iacute;dio estatal); as empresas de m&iacute;dia jornal&iacute;stica e os jornalistas (pois uma de suas fun&ccedil;&otilde;es &eacute; justamente a de investigar o que est&aacute; certo ou errado no cotidiano do pa&iacute;s); grandes empres&aacute;rios; quem faz doa&ccedil;&otilde;es para campanhas pol&iacute;ticas; funcion&aacute;rios p&uacute;blicos; pol&iacute;ticos em geral. E h&aacute; os casos ainda mais expl&iacute;citos: empreiteiros citados em grandes esc&acirc;ndalos, doleiros, bicheiros e traficantes.<\/p>\n<p>Todas as apura&ccedil;&otilde;es devem ser criteriosas e jamais expor algu&eacute;m de maneira indevida. Um grande empres&aacute;rio que opta por abrir uma offshore, declarada devidamente, tem todo o direito de proceder dessa forma. Mas a obriga&ccedil;&atilde;o do jornalismo profissional &eacute; averiguar tamb&eacute;m os grandes neg&oacute;cios e dizer como determinada empresa cuida de seus recursos &ndash;sempre ressalvando, quando for o caso, que tudo est&aacute; em conformidade com as leis vigentes.<\/p>\n<p>Muitos dos brasileiros citados na s&eacute;rie Pandora Papers responderam pr&oacute;-ativamente ao&nbsp;<strong>Poder360<\/strong>. Apresentaram comprovantes da legalidade de seus neg&oacute;cios no exterior. S&atilde;o cidad&atilde;os que contribuem para bem comum ao entender a fun&ccedil;&atilde;o do jornalismo profissional de escrutinar quem est&aacute; mais politicamente exposto na sociedade.<\/p>\n<p>A s&eacute;rie Pandora Papers &eacute; a 8&ordf; que o&nbsp;<strong>Poder360<\/strong>&nbsp;fez em parceria com o ICIJ (leia sobre as anteriores aqui). &Eacute; uma contribui&ccedil;&atilde;o do jornalismo profissional para oferecer mais transpar&ecirc;ncia &agrave; sociedade. Seguiu-se nesta reportagem e nas demais j&aacute; realizadas o princ&iacute;pio expresso na frase cunhada pelo juiz da Suprema Corte dos EUA Louis Brandeis (1856-1941), h&aacute; cerca de 1 s&eacute;culo sobre acesso a dados que t&ecirc;m interesse p&uacute;blico: &ldquo;<em>A luz do Sol &eacute; o melhor desinfetante<\/em>&rdquo;. O&nbsp;<strong>Poder360<\/strong>&nbsp;acredita que dessa forma preenche sua&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.poder360.com.br\/politica-editorial\/\">miss&atilde;o principal<\/a>&nbsp;como empresa de jornalismo:&nbsp;<em>&ldquo;Aperfei&ccedil;oar a democracia ao apurar a verdade dos fatos para informar e inspirar&rdquo;<\/em>.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Esta reportagem integra a s&eacute;rie<a href=\"https:\/\/www.poder360.com.br\/pandora-papers\/\">&nbsp;Pandora Papers<\/a>, do<a href=\"https:\/\/www.icij.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&nbsp;ICIJ<\/a>&nbsp;(Cons&oacute;rcio Internacional de Jornalistas Investigativos, na sigla em ingl&ecirc;s). Participaram da investiga&ccedil;&atilde;o 615 jornalistas de 149 ve&iacute;culos em 117 pa&iacute;ses.<\/p>\n<p>No Brasil, fazem parte da apura&ccedil;&atilde;o jornalistas do&nbsp;<strong>Poder360&nbsp;<\/strong>(<a href=\"https:\/\/www.poder360.com.br\/author\/fernando-rodrigues\/\">Fernando Rodrigues<\/a>,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.poder360.com.br\/author\/mario-cesar-carvalho\/\">Mario Cesar Carvalho<\/a>,<a href=\"https:\/\/www.poder360.com.br\/author\/guilherme-waltenberg\/\">&nbsp;Guilherme Waltenberg<\/a>,<a href=\"https:\/\/www.poder360.com.br\/author\/tiago-mali\/\">&nbsp;Tiago Mali<\/a>,<a href=\"https:\/\/www.poder360.com.br\/author\/nicolas-iory\/\">&nbsp;Nicolas Iory<\/a>,<a href=\"https:\/\/twitter.com\/marcelodamato\">&nbsp;Marcelo Damato<\/a>&nbsp;e<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunnokono\">&nbsp;Brunno Kono<\/a>); da revista&nbsp;<em>Piau&iacute;&nbsp;<\/em>(Jos&eacute; Roberto Toledo, Ana Clara Costa, Fernanda da Esc&oacute;ssia e Allan de Abreu); da&nbsp;<em>Ag&ecirc;ncia P&uacute;blica&nbsp;<\/em>(Anna Beatriz Anjos, Alice Maciel, Yolanda Pires, Raphaela Ribeiro, Ethel Rudnitzki e Natalia Viana); e do site&nbsp;<em>Metr&oacute;poles&nbsp;<\/em>(Guilherme Amado e Lucas Marchesini).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: Poder 360<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Empresa foi declarada \u00e0 Receita Federal, mas ministro n\u00e3o revela as movimenta\u00e7\u00f5es. Roberto Campos Neto tem offshore, s\u00f3 que n\u00e3o fez dep\u00f3sitos nem investimentos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9694,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-9695","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias-zeca-dirceu"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9695","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9695"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9695\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9694"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9695"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9695"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9695"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}