{"id":42250,"date":"2012-02-06T00:00:00","date_gmt":"2012-02-06T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.zecadirceu.com.br\/a-copomizacao-do-debate-do-sistema-bancario-2\/"},"modified":"2012-02-06T00:00:00","modified_gmt":"2012-02-06T02:00:00","slug":"a-copomizacao-do-debate-do-sistema-bancario-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/a-copomizacao-do-debate-do-sistema-bancario-2\/","title":{"rendered":"A &#8220;Copomiza\u00e7\u00e3o&#8221; do debate do sistema banc\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;Dois temas dominam o m&ecirc;s de fevereiro: Carnaval e o lucro dos bancos. O primeiro &eacute; uma unanimidade e o outro uma pol&ecirc;mica que se acirra a cada ano que passa. Com a publica&ccedil;&atilde;o dos balan&ccedil;os anuais, os resultados l&iacute;quidos, superiores a R$ 60 bilh&otilde;es em 2011, de um lado ser&atilde;o defendidos como consequ&ecirc;ncia de uma gest&atilde;o primorosa e de investimentos respons&aacute;veis e, de outro, atacados e classificados como exagerados e indecentes. &Eacute; um debate de surdos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><o:p><\/o:p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">A quest&atilde;o subjacente &eacute; a legitimidade dos lucros, que &eacute; a vis&atilde;o heterog&ecirc;nea que o p&uacute;blico tem deles e est&aacute; baseada em aspectos legais, &eacute;ticos, concorrenciais e culturais, sendo o ponto chave se sua contribui&ccedil;&atilde;o para a sociedade &eacute; compat&iacute;vel com as recompensas a seus acionistas e gestores. Um paralelo pode ser feito com a ind&uacute;stria do fumo, que gera empregos, impostos e divisas, mas, por outro lado, tem um custo social elevado por conta de seus efeitos danosos na sa&uacute;de p&uacute;blica. A intermedia&ccedil;&atilde;o de recursos no Brasil &eacute; abrangente e s&oacute;lida. Todavia, a oferta de cr&eacute;dito apresenta n&iacute;veis de instabilidade e inefici&ecirc;ncia incompat&iacute;veis com a sofistica&ccedil;&atilde;o dos bancos.<o:p><\/o:p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">As oscila&ccedil;&otilde;es nos juros cobrados e nos volumes ofertados s&atilde;o elevadas. Em 2011, observaram-se taxas m&eacute;dias de cr&eacute;dito que variaram mais de 20% e a composi&ccedil;&atilde;o entre linhas de recursos apresentou diferen&ccedil;as de composi&ccedil;&atilde;o altas. A inefici&ecirc;ncia no Brasil, medida pelas diferen&ccedil;a entre taxas de capta&ccedil;&atilde;o e aplica&ccedil;&atilde;o, em alguns casos, superou os 300%. De acordo com levantamento feito pelo F&oacute;rum Econ&ocirc;mico Mundial (Davos), &eacute; a segunda pior do mundo, s&oacute; o Zimb&aacute;bue tem margens de cr&eacute;dito maiores que as tupiniquins.<o:p><\/o:p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">As consequ&ecirc;ncias s&atilde;o palp&aacute;veis. A inadimpl&ecirc;ncia, mesmo com o recorde de desemprego baixo, &eacute; mais que o dobro da m&eacute;dia mundial. A demanda de cr&eacute;dito est&aacute; diminuindo, apesar dos avan&ccedil;os da bancariza&ccedil;&atilde;o. Ilustrando o ponto, pesquisa do IPEA mostra que o n&uacute;mero de fam&iacute;lias sem nenhuma d&iacute;vida aumentou e alcan&ccedil;a a 56%; a mesma sondagem relatou que 36% das endividadas n&atilde;o teria como saldar suas obriga&ccedil;&otilde;es. Levantamento do Sebrae apontou que 71% de pequenas e m&eacute;dias empresas n&atilde;o buscaram empr&eacute;stimos banc&aacute;rios. &Eacute; uma situa&ccedil;&atilde;o incompat&iacute;vel com a capacidade do sistema financeiro nacional em emprestar e melhorar o potencial de pessoas, de corpora&ccedil;&otilde;es e do pa&iacute;s.<o:p><\/o:p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">No governo Lula, houve alguns acertos pontuais como o cr&eacute;dito consignado e uma expans&atilde;o consider&aacute;vel, mas tamb&eacute;m retrocessos como as margens da conta garantida e as do cheque especial, que aumentaram 30% e quase 20%, respectivamente. Em 2011, manteve-se a tend&ecirc;ncia e continuaram deteriorando-se com altas de 8% e 14%, respectivamente. Apesar da sofistica&ccedil;&atilde;o, a rela&ccedil;&atilde;o cr&eacute;dito e Produto Interno Bruto (PIB) &eacute; parecida com a da Bol&iacute;via, e, se as proje&ccedil;&otilde;es estiverem corretas, s&oacute; alcan&ccedil;ar&aacute; o mesmo n&iacute;vel do Chile, que tem um sistema financeiro menos sofisticado que o brasileiro, em mais de uma d&eacute;cada. Os n&uacute;meros de expans&atilde;o do cr&eacute;dito, recentes e projetados, mostram recursos direcionados crescendo ao dobro da taxa real dos livres, gerando inquieta&ccedil;&otilde;es com rela&ccedil;&atilde;o ao futuro.<o:p><\/o:p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Nos debates sobre os lucros, &eacute; comum responsabilizar a cobi&ccedil;a dos bancos como causa das dificuldades. Mas os banqueiros brasileiros n&atilde;o s&atilde;o mais gananciosos que os de outros pa&iacute;ses e\/ou dos demais empres&aacute;rios. A mesma tem influ&ecirc;ncia em algumas situa&ccedil;&otilde;es muito espec&iacute;ficas, mas n&atilde;o &eacute; o que explica a falta de legitimidade dos lucros dos bancos. Supondo que todos eles decidissem reduzir as tarifas e taxas banc&aacute;rias cobradas em 15%, zerariam seus lucros, mas n&atilde;o resolveriam o imbr&oacute;glio. Ficariam sem recursos para investir e o sistema continuaria a ser ineficiente, com as segundas taxas de juros mais altas do planeta, instabilidade na oferta de recursos e uma expans&atilde;o de financiamentos distorcida.<o:p><\/o:p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">A origem dos problemas &eacute; outra: est&aacute; na &quot;Copomiza&ccedil;&atilde;o&quot; do debate banc&aacute;rio, que est&aacute; focado nas reuni&otilde;es do Copom que determinam a Selic (uma taxa interbanc&aacute;ria de um dia). As decis&otilde;es s&atilde;o tomadas em um processo em grande estilo com comunicados, atas e relat&oacute;rios que detalham seus fundamentos, boletins com as expectativas do mercado, modelos econom&eacute;tricos que d&atilde;o suporte, encontros regulares com economistas, uma equipe qualificada que analisa minuciosamente todos os fatores que influenciam e acompanhado extensivamente pela imprensa. &Eacute; uma taxa importante que deve baixar. Todavia, n&atilde;o &eacute; a &uacute;nica, nem &eacute; o que mais atrapalha o desenvolvimento do pa&iacute;s. O ponto &eacute; a pouca aten&ccedil;&atilde;o dada &agrave;s demais, que s&atilde;o administradas com medidas &#8211; leia-se improvisos, mais retalhos na colcha que &eacute; o quadro institucional financeiro.<o:p><\/o:p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">As distor&ccedil;&otilde;es no tratamento da quest&atilde;o dos juros s&atilde;o gritantes. Enquanto a taxa Selic, centro das aten&ccedil;&otilde;es, aumentou 0,25% em 2011 e foi manchete em cada altera&ccedil;&atilde;o, a de cr&eacute;dito pessoal (exclu&iacute;do o consignado) se elevou 11,40% (quarenta e cinco vezes mais!), e n&atilde;o foi not&iacute;cia. H&aacute; taxas m&eacute;dias para pessoa jur&iacute;dica que s&atilde;o mais de dez vezes maiores que a Selic. Para pessoa f&iacute;sica, mais de 15 e h&aacute; tamb&eacute;m financiamentos para o tomador final que est&atilde;o a mais de trinta. N&atilde;o h&aacute; diferen&ccedil;a material relevante para esses tomadores de financiamentos se a Selic est&aacute; a 9% ou 12%. Mesmo assim, a oferta de cr&eacute;dito continua sendo administrado com medidas, culpando-se os banqueiros e dando-se o foco das aten&ccedil;&otilde;es ao Copom, &quot;Copomizando&quot; ainda mais o debate.<o:p><\/o:p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Falta ao pa&iacute;s uma pol&iacute;tica banc&aacute;ria que trate do custo do cr&eacute;dito, da cunha tribut&aacute;ria, da transpar&ecirc;ncia, da prote&ccedil;&atilde;o ao consumidor banc&aacute;rio, do direcionamento de recursos, do desempenho dos bancos p&uacute;blicos, da estabilidade da oferta, dos compuls&oacute;rios, do processo de precifica&ccedil;&atilde;o, da concorr&ecirc;ncia, do financiamento de longo prazo, do microcr&eacute;dito, da bancariza&ccedil;&atilde;o, do uso da tecnologia, do &ocirc;nus regulat&oacute;rio, dos financiamentos de longo prazo, do papel de bancos menores, da liquidez, dos custos de observ&acirc;ncia, enfim, de todos os demais fatores e da taxa Selic. O setor n&atilde;o pode ficar ref&eacute;m do vaiv&eacute;m das circunst&acirc;ncias, o momento pede uma moderniza&ccedil;&atilde;o institucional.<o:p><\/o:p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Uma intermedia&ccedil;&atilde;o financeira eficiente e est&aacute;vel interessa ao pa&iacute;s. O cr&eacute;dito &eacute; a ponte entre o presente e o futuro e necessita de uma pol&iacute;tica consistente que alinhe interesses privados com sociais, que proporcione mais lucros e mais leg&iacute;timos para os bancos e mais desenvolvimento para o pa&iacute;s. N&atilde;o s&atilde;o objetivos incompat&iacute;veis, pelo contr&aacute;rio. &Eacute; poss&iacute;vel, h&aacute; uma janela de oportunidade e o governo quer fazer acontecer. Cumpra-se!<o:p><\/o:p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Roberto Luis Troster &eacute; consultor e doutor em economia pela USP e foi economista chefe da Febraban e da ABBC e professor da USP, Mackenzie e PUC-SP.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Autor(es): Roberto Luis Troster \/ Valor Econ&ocirc;mico &#8211; 01\/02\/2012<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois temas dominam o m\u00eas de fevereiro: Carnaval e o lucro dos bancos. O primeiro \u00e9 uma unanimidade e o outro uma pol\u00eamica que se acirra a cada ano que passa. 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