{"id":31446,"date":"2021-11-14T00:00:00","date_gmt":"2021-11-14T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.zecadirceu.com.br\/alckmin-e-aecio-temem-debandada-de-tucanos-do-interior-para-o-psd-informa-monica-bergamo\/"},"modified":"2024-12-10T20:01:41","modified_gmt":"2024-12-10T23:01:41","slug":"alckmin-e-aecio-temem-debandada-de-tucanos-do-interior-para-o-psd-informa-monica-bergamo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/alckmin-e-aecio-temem-debandada-de-tucanos-do-interior-para-o-psd-informa-monica-bergamo\/","title":{"rendered":"Agricultores transformam deserto em floresta no semi\u00e1rido"},"content":{"rendered":"<p>Uma mancha esverdeada se destaca na paisagem ondulada dos arredores de Po&ccedil;&otilde;es, pequeno munic&iacute;pio no semi&aacute;rido baiano.<\/p>\n<p>Ali, a profus&atilde;o de cactos, suculentas e &aacute;rvores da caatinga contrasta com a pastagem degradada e os solos nus do entorno.<\/p>\n<p>O respons&aacute;vel pelo &quot;o&aacute;sis&quot; &eacute; o engenheiro aposentado Nelson Ara&uacute;jo Filho, de 66 anos.<\/p>\n<p>&quot;Quando comecei aqui, o solo era compactado e n&atilde;o produzia nada&quot;, ele diz &agrave; BBC News Brasil.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/zecadirceu.com.br\/arquivos\/ckEditor\/files\/1636541814618ba576dc15a_1636541814_3x2_md.jpg\" style=\"height:512px; width:768px\" \/><\/p>\n<p>Sentado na sombra de um umbuzeiro, Ara&uacute;jo conta que por muitos anos aquela &aacute;rea, que pertence a seu pai, abrigou ro&ccedil;as de milho e aipim. Depois, virou pasto para gado.<\/p>\n<p>Mas os anos de uso intensivo esgotaram o solo e o deixaram em vias de virar deserto &mdash;fen&ocirc;meno que atinge cerca de 13% das terras do semi&aacute;rido brasileiro, segundo o Laborat&oacute;rio de An&aacute;lise e Processamento de Imagens de Sat&eacute;lites da Universidade Federal de Alagoas.<\/p>\n<p>Ara&uacute;jo come&ccedil;ou a reverter o processo h&aacute; tr&ecirc;s anos com a implanta&ccedil;&atilde;o de um sistema agroflorestal em 1,8 hectare, &aacute;rea equivalente a dois campos de futebol.<\/p>\n<p>O m&eacute;todo, que tem sido adotado em v&aacute;rias regi&otilde;es brasileiras e do mundo, se espelha no funcionamento dos ecossistemas originais de cada regi&atilde;o.<\/p>\n<p>No in&iacute;cio, Ara&uacute;jo plantou esp&eacute;cies da caatinga que sobrevivem mesmo em solos degradados, como a palma forrageira e o avel&oacute;s. Depois, passou a podar a vegeta&ccedil;&atilde;o com frequ&ecirc;ncia, usando todo o material cortado para cobrir e adubar o solo.<\/p>\n<p>Com a melhora das condi&ccedil;&otilde;es, esp&eacute;cies mais exigentes, como &aacute;rvores frut&iacute;feras e de grande porte, j&aacute; come&ccedil;am a pedir passagem. A abund&acirc;ncia de flores e frutos atrai aves e abelhas; e animais silvestres que h&aacute; muito n&atilde;o eram vistos, como veados, voltaram a circular pela regi&atilde;o.<\/p>\n<p>Em mais alguns anos, Ara&uacute;jo espera que seu sistema se assemelhe a uma &aacute;rea intocada da caatinga, com plantas de todas as alturas e alta variedade de esp&eacute;cies, de onde possa tirar mel, frutas e alimento para rebanhos o ano todo.<\/p>\n<p>E tudo isso sem usar agrot&oacute;xicos, adubos qu&iacute;micos ou uma s&oacute; gota de &aacute;gua com irriga&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&quot;N&atilde;o falta &aacute;gua na caatinga&quot;, diz o agricultor, referindo-se ao orvalho que banha a vegeta&ccedil;&atilde;o todas as noites e que o deixa com a roupa molhada ao visitar a agrofloresta pela manh&atilde;.<\/p>\n<p>Ele afirma que a &aacute;gua do sereno &eacute; suficiente para &quot;manter o sistema funcionando&quot;.<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/zecadirceu.com.br\/arquivos\/ckEditor\/files\/1636542259618ba73377022_1636542259_3x2_md.jpg\" style=\"height:512px; width:768px\" \/><\/p>\n<p>&quot;A chuva, para mim, &eacute; um b&ocirc;nus&quot;, diz, questionando a no&ccedil;&atilde;o de que, no semi&aacute;rido, toda planta&ccedil;&atilde;o precisa de irriga&ccedil;&atilde;o ou de ver&otilde;es chuvosos para prosperar.<\/p>\n<p>T&eacute;cnicas como as usadas por Ara&uacute;jo t&ecirc;m atra&iacute;do holofotes num momento em que l&iacute;deres globais discutem como frear as&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/mudanca-climatica\/\">mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas<\/a>&nbsp;&mdash;objetivo da Confer&ecirc;ncia das Partes (<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/cop26\/\">COP-26<\/a>) que ocorre neste m&ecirc;s em Glasgow, na Esc&oacute;cia.<\/p>\n<p>Para climatologistas, sistemas agroflorestais s&atilde;o ferramentas tanto para a adapta&ccedil;&atilde;o &agrave;s mudan&ccedil;as quanto para a redu&ccedil;&atilde;o do ritmo das transforma&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Isso porque a diversidade dos sistemas deixa os agricultores menos vulner&aacute;veis a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ambiente\/2021\/08\/crise-do-clima-gera-prejuizo-no-campo-com-morte-de-animais-e-perda-de-safras.shtml\">extremos clim&aacute;ticos<\/a>, ao mesmo tempo em que as agroflorestas ampliam a absor&ccedil;&atilde;o de carbono na atmosfera.<\/p>\n<p>E, segundo os especialistas, o semi&aacute;rido brasileiro j&aacute; tem sido uma das&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ambiente\/2021\/08\/mudanca-do-clima-acelera-criacao-de-deserto-do-tamanho-da-inglaterra-no-nordeste.shtml\">regi&otilde;es mais afetadas pela mudan&ccedil;a do clima&nbsp;<\/a>no mundo.<\/p>\n<p>Em seu &uacute;ltimo relat&oacute;rio, divulgado em agosto, o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ambiente\/2021\/08\/crise-climatica-ja-agrava-secas-tempestades-e-temperaturas-extremas-diz-ipcc.shtml\">IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudan&ccedil;as Clim&aacute;ticas<\/a>) afirmou que o semi&aacute;rido tem enfrentado secas mais intensas e temperaturas mais altas, condi&ccedil;&otilde;es que tendem a acelerar a desertifica&ccedil;&atilde;o de seus solos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/zecadirceu.com.br\/arquivos\/ckEditor\/files\/1636542676618ba8d41bb61_1636542676_2x3_md.jpg\" style=\"height:768px; width:512px\" \/><\/p>\n<p>Da&iacute; a urg&ecirc;ncia em substituir uma agricultura que fragiliza os solos por outra capaz de restaur&aacute;-los.<\/p>\n<p>Em seu relat&oacute;rio de 2019, o IPCC j&aacute; havia dito que &quot;sistemas agroflorestais podem contribuir com a melhora da produtividade de alimentos ao mesmo tempo em que ampliam a conserva&ccedil;&atilde;o da biodiversidade, o equil&iacute;brio ecol&oacute;gico e a restaura&ccedil;&atilde;o sob condi&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas em muta&ccedil;&atilde;o&quot;.<\/p>\n<p>Para a agr&ocirc;noma Eunice Maia de Andrade, professora da Universidade Federal do Cear&aacute;, sistemas agroflorestais s&atilde;o capazes de recuperar uma boa parcela dos solos do semi&aacute;rido.<\/p>\n<p>Especialista em conserva&ccedil;&atilde;o de solo e &aacute;gua no semi&aacute;rido, com doutorado em Recursos Naturais Renov&aacute;veis pela Universidade do Arizona (EUA), Andrade afirma que esses sistemas facilitam a infiltra&ccedil;&atilde;o da &aacute;gua e reduzem seu escoamento superficial, o que protege a microbiologia do solo e ajuda a reter nutrientes.<\/p>\n<p>Mas ela afirma que a implanta&ccedil;&atilde;o do sistema seria &quot;muito dif&iacute;cil&quot; em algumas partes do semi&aacute;rido, como em regi&otilde;es onde o solo &eacute; muito raso e rochoso, ou em &aacute;reas onde chova menos de 500 mil&iacute;metros ao ano.<\/p>\n<p>As partes mais secas do semi&aacute;rido brasileiro recebem cerca de 250 mm de chuva ao ano, um ter&ccedil;o do &iacute;ndice verificado nas partes mais &uacute;midas da regi&atilde;o.<\/p>\n<p>Em Po&ccedil;&otilde;es, onde Nelson Ara&uacute;jo Filho implantou seu sistema agroflorestal, o &iacute;ndice m&eacute;dio de chuvas &eacute; de 624 mm\/ano, segundo o portal Weather Spark.<\/p>\n<p>Para a professora Eunice Maia de Andrade, o combate &agrave; desertifica&ccedil;&atilde;o exige &quot;um conjunto de a&ccedil;&otilde;es e t&eacute;cnicas distintas&quot;, que considerem o n&iacute;vel de chuvas e as aptid&otilde;es de cada local.<\/p>\n<p>Nos &uacute;ltimos anos, v&aacute;rios coletivos e movimentos sociais t&ecirc;m realizado cursos e viv&ecirc;ncias no semi&aacute;rido para estimular a ado&ccedil;&atilde;o de sistemas agroflorestais ou agroecol&oacute;gicos.<\/p>\n<p>Os dois conceitos s&atilde;o semelhantes e se op&otilde;em &agrave; chamada&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/seminariosfolha\/2018\/11\/revolucao-verde-de-1950-agora-tem-o-efeito-de-degradar-o-solo.shtml\">Revolu&ccedil;&atilde;o Verde<\/a>, conjunto de t&eacute;cnicas agr&iacute;colas que se disseminaram pelo mundo a partir dos anos 1930 e se baseiam no uso intensivo de fertilizantes, agrot&oacute;xicos e mecaniza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>J&aacute; a agroecologia e os sistemas agroflorestais buscam conciliar a produ&ccedil;&atilde;o de alimentos com a restaura&ccedil;&atilde;o ambiental. Al&eacute;m disso, valorizam a autonomia dos agricultores e o uso dos recursos que j&aacute; est&atilde;o dispon&iacute;veis no local.<\/p>\n<p>Uma das organiza&ccedil;&otilde;es que t&ecirc;m difundido as pr&aacute;ticas no semi&aacute;rido &eacute; Centro de Assessoria e Apoio a Trabalhadores e Institui&ccedil;&otilde;es N&atilde;o-Governamentais Alternativas (Caatinga).<\/p>\n<p>Um dos membros do grupo, Vilmar Luiz Lermen, recebe frequentemente em seu s&iacute;tio em Exu, Pernambuco, agricultores de v&aacute;rios Estados interessados em aprender os m&eacute;todos e visitar uma agrofloresta com 15 anos de idade.<\/p>\n<p>No semi&aacute;rido, por&eacute;m, assim como em outras partes do pa&iacute;s, h&aacute; obst&aacute;culos &agrave; penetra&ccedil;&atilde;o dessas ideias e relut&acirc;ncia em abandonar certas pr&aacute;ticas tradicionais.<\/p>\n<p>O pr&oacute;prio Nelson Ara&uacute;jo Filho enfrentou resist&ecirc;ncias quando come&ccedil;ou a implantar sua agrofloresta em Po&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Alguns vizinhos e parentes protestaram, afirmando que a grande presen&ccedil;a de palma forrageira (um tipo de cacto) na planta&ccedil;&atilde;o desvalorizaria a &aacute;rea.<\/p>\n<p>Isso porque essa esp&eacute;cie &eacute; bastante usada como alimento para cabras, cuja cria&ccedil;&atilde;o &eacute; associada &agrave; pobreza na regi&atilde;o.<\/p>\n<p>Os descontentes defendiam que, em vez de palma, ele plantasse capim para bois, j&aacute; que a pecu&aacute;ria bovina, ao contr&aacute;rio, &eacute; uma atividade valorizada.<\/p>\n<p>Agricultores que implantaram sistemas agroflorestais em outros pontos do semi&aacute;rido lidam com questionamentos semelhantes.<\/p>\n<p>Antonio Gomides Fran&ccedil;a, que h&aacute; um ano e meio cultiva uma agrofloresta no Crato, interior do Cear&aacute;, diz que muitos vizinhos relutam adotar seus m&eacute;todos por n&atilde;o saber como lidar com a vegeta&ccedil;&atilde;o da caatinga nas &aacute;reas onde os sistemas s&atilde;o implantados.<\/p>\n<p>Em geral, essa vegeta&ccedil;&atilde;o &eacute; formada por &aacute;rvores duras e espinhentas que sobrevivem em solos degradados, como a jurema, a unha de gato e o mameleiro.<\/p>\n<p>Quando uma agrofloresta &eacute; plantada, &eacute; preciso podar ou derrubar essas &aacute;rvores para dar lugar a outras esp&eacute;cies que ajudem a recuperar o solo e ampliem a diversidade do sistema.<\/p>\n<p>&quot;Mas o agricultor, quando vai derrubar essa vegeta&ccedil;&atilde;o espinhenta, n&atilde;o sabe como organizar o material, ent&atilde;o ele derruba e taca fogo&quot;, diz Fran&ccedil;a.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/zecadirceu.com.br\/arquivos\/ckEditor\/files\/1636543323618bab5bd9300_1636543323_3x2_md.jpg\" style=\"height:512px; width:768px\" \/><\/p>\n<p>O problema &eacute; que a queimada se contrap&otilde;e radicalmente aos conceitos agroecol&oacute;gicos, pois deixa o solo exposto &agrave; eros&atilde;o e mata microorganismos essenciais para a vida vegetal &mdash;al&eacute;m de gerar&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ambiente\/2021\/10\/brasil-aumenta-95-emissoes-de-gases-estufa-em-2020-apesar-da-pandemia.shtml\">emiss&otilde;es de gases causadores do efeito estufa<\/a>.<\/p>\n<p>Para Fran&ccedil;a, no entanto, com t&eacute;cnicas e equipamentos simples, &eacute; perfeitamente poss&iacute;vel abrir m&atilde;o do fogo no semi&aacute;rido, usando as plantas espinhentas para adubar e proteger o solo.<\/p>\n<p>Outra vantagem do sistema em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; agricultura convencional, diz ele, &eacute; a diminui&ccedil;&atilde;o dos riscos por conta da diversidade de esp&eacute;cies. Enquanto o agricultor convencional deposita todas as suas fichas em alguns poucos alimentos, podendo perder tudo se n&atilde;o chover no m&ecirc;s certo ou se surgir alguma praga, o agrofloresteiro maneja um sistema em que h&aacute; colheitas o ano todo.<\/p>\n<p>Nos pr&oacute;ximos meses, Gomides pretende implantar outra agrofloresta que ele quer transformar em um ponto de refer&ecirc;ncia no Cariri, no Cear&aacute;.<\/p>\n<p>Segundo ele, h&aacute; grande dificuldade na regi&atilde;o para encontrar mudas e sementes de plantas adequadas a agroflorestas.<\/p>\n<p>Por isso, Fran&ccedil;a quer criar um banco de matrizes dessas plantas para compartilh&aacute;-las com outros agricultores da regi&atilde;o. O passo seguinte, diz ele, ser&aacute; criar uma &quot;for&ccedil;a coletiva&quot; com moradores para implantar e manejar sistemas agroflorestais em s&eacute;rie.<\/p>\n<p>&quot;Voc&ecirc; chega com a estrutura, implanta, vai para a pr&oacute;xima &aacute;rea, at&eacute; criar um circuito de agrofloresta popular na regi&atilde;o.&quot;<\/p>\n<p>Hoje Gomides diz que falta apoio t&eacute;cnico e incentivo do governo para que agricultores migrem para o sistema.<\/p>\n<p>&quot;Aqui somos n&oacute;s por n&oacute;s mesmos, estamos cavando uma cacimba na unha&quot;, diz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>FONTE &#8211; Folha de S&atilde;o Paulo, 15 de outubro de 2021.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma mancha esverdeada se destaca na paisagem ondulada dos arredores de Po\u00e7\u00f5es, pequeno munic\u00edpio no semi\u00e1rido baiano. 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