{"id":31136,"date":"2011-05-16T00:00:00","date_gmt":"2011-05-16T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.zecadirceu.com.br\/brasil-um-pais-doador\/"},"modified":"2011-05-16T00:00:00","modified_gmt":"2011-05-16T03:00:00","slug":"brasil-um-pais-doador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/brasil-um-pais-doador\/","title":{"rendered":"Brasil, um pa\u00eds doador."},"content":{"rendered":"<p>Em artigo publicado no <em>Le Monde Diplomatique Brasil, a jornalista <\/em>Amanda Rossi apresenta um cruzamento in&eacute;dito de dados sobre a pol&iacute;tica externa brasileira. O relat&oacute;rio mostra que o pa&iacute;s&nbsp; j&aacute; fornece mais do que recebe em ajuda internacional entre governos e ag&ecirc;ncias multilaterais. Conforme se expande a coopera&ccedil;&atilde;o brasileira, cresce tamb&eacute;m o seu poder econ&ocirc;mico e pol&iacute;tico no mundo. <strong>Leia a &iacute;ntegra do artigo.&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\npor Amanda Rossi<br \/>\n<\/strong>&nbsp;<br \/>\nEm busca de um lugar de destaque no cen&aacute;rio global, o Brasil est&aacute; se firmando como doador de recursos a pa&iacute;ses pobres. De acordo com cruzamento de dados in&eacute;dito realizado pelo Le Monde Diplomatique Brasil, o governo j&aacute; fornece mais ajuda internacional do que obt&eacute;m de pa&iacute;ses e ag&ecirc;ncias multilaterais, como a ONU. Entre 2005 e 2009, o Brasil recebeu US$ 1,48 bilh&atilde;o. No mesmo per&iacute;odo, doou US$ 1,88 bilh&atilde;o &ndash; uma diferen&ccedil;a de US$ 400 milh&otilde;es em rela&ccedil;&atilde;o ao que recebeu.<\/p>\n<p>Os valores ainda s&atilde;o pequenos, mas refletem o crescimento da economia brasileira e o desejo do pa&iacute;s de ter mais influ&ecirc;ncia nas decis&otilde;es mundiais. &ldquo;&Eacute; bastante conhecido que o Brasil tem ambi&ccedil;&otilde;es de ter assento permanente no Conselho de Seguran&ccedil;a da ONU. Todas essas apostas no sentido de apoiar mais s&atilde;o formas de mostrar que o pa&iacute;s est&aacute; &agrave; altura de ser visto como um l&iacute;der mundial do ponto de vista pol&iacute;tico&rdquo;, diz a pesquisadora L&iacute;dia Cabral, do centro de pesquisas brit&acirc;nico Overseas Development Institute.<br \/>\nDurante d&eacute;cadas, o Brasil foi basicamente receptor de ajuda internacional. Hoje tem um amplo programa de coopera&ccedil;&atilde;o internacional com pa&iacute;ses em desenvolvimento e parou de receber alguns fundos como, por exemplo, o Banco Mundial e o FMI &ndash; agora &eacute; o Brasil que envia dinheiro para essas duas institui&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Mas o Brasil ainda recebe muita ajuda de outros pa&iacute;ses e de ag&ecirc;ncias multilaterais e ocupa atualmente um papel intermedi&aacute;rio, em que tanto a vertente de receptor como a de doador s&atilde;o importantes. Esse papel &eacute; bem ilustrado pelo aumento significativo da coopera&ccedil;&atilde;o trilateral, realizada em conjunto com um pa&iacute;s do Hemisf&eacute;rio Norte com alguma outra na&ccedil;&atilde;o do Sul. O Brasil entra com assist&ecirc;ncia t&eacute;cnica e seus parceiros, com dinheiro. &Eacute; com recursos do Jap&atilde;o, por exemplo, que a Embrapa vai realizar um grande projeto para tornar produtiva a savana mo&ccedil;ambicana, parecida com o Cerrado brasileiro.<\/p>\n<p>O aumento da import&acirc;ncia do pa&iacute;s como fornecedor de recursos para fora &ldquo;&eacute; uma evolu&ccedil;&atilde;o natural do Brasil. &Agrave; medida que melhora a sua situa&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e social interna por meio de pol&iacute;ticas sociais mais efetivas, ele vai deixando de necessitar de ajuda externa. Por outro lado, passa a dispor de um excedente que pode ser usado em coopera&ccedil;&atilde;o com outros pa&iacute;ses em desenvolvimento, que est&atilde;o ainda em situa&ccedil;&atilde;o de maior car&ecirc;ncia&rdquo;, afirma o embaixador Piragibe Tarrag&ocirc;, respons&aacute;vel pelas rela&ccedil;&otilde;es entre o Brasil e a &Aacute;frica no governo Lula.<\/p>\n<p>Nos &uacute;ltimos anos, especialistas, pesquisadores e diplomatas j&aacute; vinham apontando para a tend&ecirc;ncia de o pa&iacute;s reduzir seu peso como receptor de ajuda internacional e acentuar seu papel de fornecedor, mas n&atilde;o havia at&eacute; ent&atilde;o uma compara&ccedil;&atilde;o entre os volumes recebidos e fornecidos em ajuda internacional que pudesse confirmar ou negar essa tend&ecirc;ncia.<br \/>\nA diplomacia brasileira n&atilde;o gosta de ver o Brasil como um doador, nem de chamar sua assist&ecirc;ncia de ajuda internacional. O principal motivo &eacute; que o pa&iacute;s quer se distanciar o m&aacute;ximo poss&iacute;vel (inclusive em teoria e conceito) do modelo tradicional de ajuda internacional prestada pelas na&ccedil;&otilde;es doadoras do Hemisf&eacute;rio Norte.<\/p>\n<p>&ldquo;O doador tradicional com muita frequ&ecirc;ncia traz embutidas condicionalidades. E o Brasil presta coopera&ccedil;&atilde;o para quem deseja coopera&ccedil;&atilde;o sob demanda. Cedemos conhecimento sem nenhuma condicionalidade. Por isso, a ideia de parceria para o desenvolvimento &eacute; mais justa, mais precisa &#91;do que a de doa&ccedil;&atilde;o de ajuda internacional]&rdquo;, diz o ministro Olyntho Vieira, segundo secret&aacute;rio do Brasil na FAO (Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para Agricultura e Alimenta&ccedil;&atilde;o). &ldquo;O Brasil acaba sendo percebido de forma diferente dos doadores. Tenho muito medo da ideia de que um dia &#91;os doadores] possam nos dizer: agora voc&ecirc;s est&atilde;o do lado de c&aacute;.&rdquo;<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n<strong>CRUZAMENTO DE DADOS<br \/>\n<\/strong><br \/>\nO crit&eacute;rio chamado Assist&ecirc;ncia Oficial para o Desenvolvimento (AOD), da Organiza&ccedil;&atilde;o de Coopera&ccedil;&atilde;o e Desenvolvimento Econ&ocirc;mico (OCDE), &eacute; o mais usado no mundo para medir fluxos de ajuda internacional entre pa&iacute;ses e entre eles e ag&ecirc;ncias multilaterais. De acordo com esse crit&eacute;rio, os Estados Unidos s&atilde;o os maiores doadores do mundo, fornecendo US$ 28 bilh&otilde;es em 2009, seguidos por Fran&ccedil;a e Alemanha, que doaram cerca de US$ 12 bilh&otilde;es cada no mesmo ano.<\/p>\n<p>O Brasil n&atilde;o faz parte do grupo de doadores da OCDE, que tem como meta a doa&ccedil;&atilde;o de 0,7% do PIB por ano para AOD e estabelece uma s&eacute;rie de condi&ccedil;&otilde;es para o envio do dinheiro. Por isso, a OCDE n&atilde;o computa o apoio do Brasil para o desenvolvimento de pa&iacute;ses pobres. Por outro lado, re&uacute;ne dados sobre a ajuda fornecida para o Brasil: US$ 1,48 bilh&atilde;o em AOD entre 2005 e 2009. &Eacute; a &uacute;nicafonte de informa&ccedil;&atilde;o dispon&iacute;vel sobre a ajuda recebida pelo Brasil, j&aacute; que o governo brasileiro ainda n&atilde;o disp&otilde;e de um balan&ccedil;o sobre o tema.<\/p>\n<p>J&aacute; a contribui&ccedil;&atilde;o internacional do Brasil foi computada pela primeira vez pelo Instituto de Pesquisa Econ&ocirc;mica Aplicada (Ipea) e divulgada em janeiro deste ano &ndash; antes n&atilde;o havia nenhum dado consolidado. O valor obtido foi de US$ 1,43 bilh&atilde;o, fornecido pelo Brasil entre 2005 e 2009. Ele n&atilde;o pode ser comparado com o valor da OCDE, porque o Ipea n&atilde;o trabalhou com a defini&ccedil;&atilde;o de AOD.<\/p>\n<p>H&aacute; tr&ecirc;s diferen&ccedil;as entre a AOD e a metodologia usada pelo IPEA, segundo Marcos Cintra, coordenador da pesquisa do Ipea. N&atilde;o entraram na conta do instituto brasileiro tr&ecirc;s vertentes de ajuda consideradas pela AOD: perd&atilde;o e renegocia&ccedil;&atilde;o de d&iacute;vida, projetos de coopera&ccedil;&atilde;o realizados por universidades p&uacute;blicas (federais e estaduais) e empr&eacute;stimos concessionais (com taxas de juros diferenciadas e percentual de doa&ccedil;&atilde;o).<\/p>\n<p>Para comparar o apoio fornecido pelo Brasil com a ajuda recebida de pa&iacute;ses e ag&ecirc;ncias multilaterais, o Le Monde Diplomatique Brasil procurou adequar as duas metodologias. Para isso, somou ao valor obtido pelo Ipea (US$ 1,43 bilh&atilde;o) o montante total que o Brasil forneceu em perd&atilde;o de d&iacute;vida no mesmo per&iacute;odo &ndash; de US$ 448 milh&otilde;es, segundo o Minist&eacute;rio da Fazenda. O valor obtido, de US$ 1,88 bilh&atilde;o, mostra que o Brasil forneceu mais do que recebeu em ajuda internacional entre 2005 e 2009. Esse valor &eacute; semelhante ao da AOD provida por Pol&ocirc;nia (US$ 1,6 bilh&atilde;o) e Luxemburgo (US$ 1,75 bilh&atilde;o).<\/p>\n<p>A diferen&ccedil;a entre a ajuda fornecida e a recebida pelo Brasil seria ainda maior se fossem levados em conta os valores gastos pelas universidades brasileiras, mas n&atilde;o existe nenhum balan&ccedil;o sobre o tema. Outro valor n&atilde;o considerado foi o dos empr&eacute;stimos concessionais fornecidos pelo Brasil. O BNDES fornece cr&eacute;ditos &agrave; exporta&ccedil;&atilde;o de bens e servi&ccedil;os nacionais, geralmente usados por construtoras brasileiras com atua&ccedil;&atilde;o na &Aacute;frica e Am&eacute;rica Latina para a realiza&ccedil;&atilde;o de obras de infraestruturas. De acordo com Marcos Cintra, o Tesouro Nacional faz opera&ccedil;&otilde;es de equaliza&ccedil;&atilde;o das taxas de juros de alguns dos cr&eacute;ditos de exporta&ccedil;&atilde;o do BNDES, configurando empr&eacute;stimo concessional. Mas n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel saber valores porque o &oacute;rg&atilde;o n&atilde;o informa o montante subsidiado.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisa do IPEA, a ajuda ao desenvolvimento prestada pelo Brasil aumentou 50% em termos reais, de 2005 a 2009. Os maiores gastos foram com contribui&ccedil;&otilde;es para organismos internacionais (76% do total) e bolsas de estudo para estrangeiros (10%). Assist&ecirc;ncia humanit&aacute;ria, prestada em casos de desastres naturais ou conflitos, foi a vertente de coopera&ccedil;&atilde;o que mais cresceu (aumento de 73 vezes).<\/p>\n<p>J&aacute; com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; ajuda recebida pelo Brasil em coopera&ccedil;&atilde;o bilateral entre pa&iacute;ses e ag&ecirc;ncias multilaterais, n&atilde;o se percebe uma tend&ecirc;ncia geral de queda, apesar de a ajuda dos Pa&iacute;ses Baixos ter sido encerrada em 2006 e da coopera&ccedil;&atilde;o bilateral do Canad&aacute;, ativa desde 1968, ter sido finalizada ainda em mar&ccedil;o deste ano. &ldquo;Durante as duas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, o Brasil avan&ccedil;ou muito no combate &agrave; pobreza e nos demais desafios de desenvolvimento&rdquo;, justifica o governo do Canad&aacute;.<\/p>\n<p>O n&uacute;mero total de projetos de coopera&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica com o Brasil tamb&eacute;m caiu de 171, em 2005, para os atuais 54, de acordo com a Ag&ecirc;ncia Brasileira de Coopera&ccedil;&atilde;o (ABC), &oacute;rg&atilde;o do Itamaraty. Por outro lado, o Jap&atilde;o e a Alemanha mant&ecirc;m grandes opera&ccedil;&otilde;es de ajuda ao Brasil, por exemplo, em projetos de preserva&ccedil;&atilde;o ambiental.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<strong>ESTILO BRASILEIRO<br \/>\n<\/strong><br \/>\nO foco brasileiro &eacute; ajudar os pa&iacute;ses do Sul a se desenvolverem, na chamada Coopera&ccedil;&atilde;o Sul-Sul, replicando experi&ecirc;ncias nacionais bem-sucedidas. Os princ&iacute;pios dessa coopera&ccedil;&atilde;o ainda est&atilde;o em constru&ccedil;&atilde;o, mas h&aacute; caracter&iacute;sticas gerais que est&atilde;o se estabelecendo na pr&aacute;tica, como n&atilde;o exigir condicionalidades nem intervir nos pa&iacute;ses ajudados &ndash; ao contr&aacute;rio da coopera&ccedil;&atilde;o dos pa&iacute;ses do Hemisf&eacute;rio Norte.<\/p>\n<p>O Brasil n&atilde;o tem como objetivo atingir resultados espec&iacute;ficos com os pa&iacute;ses em que ajuda, por exemplo, promover as metas da ONU para melhoria de &iacute;ndices sociais ou estimular o desenvolvimento econ&ocirc;mico. O objetivo brasileiro, por enquanto, est&aacute; na maneira de prestar ajuda. Ele &eacute; &ldquo;em primeiro lugar, atender a demandas que outros pa&iacute;ses tenham, mediante transfer&ecirc;ncia de solu&ccedil;&atilde;o (que encontramos para resolver nossos pr&oacute;prios problemas)&rdquo;, diz o ministro Marco Farani, diretor da ABC.<\/p>\n<p>A menina dos olhos da ajuda brasileira &eacute; a coopera&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica, que promove capacita&ccedil;&atilde;o e transfer&ecirc;ncia de conhecimentos em &aacute;reas em que o Brasil tem projetos bem-sucedidos, como agricultura tropical e combate &agrave; Aids. Apesar de representar uma pequena fatia da ajuda total provida pelo Brasil (R$ 252 milh&otilde;es, menos de 10% do total), &eacute; a vertente de coopera&ccedil;&atilde;o que mais recebe aten&ccedil;&atilde;o do governo brasileiro. &ldquo;Coopera&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica &eacute; a vertente mais importante de coopera&ccedil;&atilde;o que o Brasil realiza&rdquo;, diz Farani. &ldquo;Ela leva os conhecimentos e transfere ferramentas que v&atilde;o ser instrumentais para o desenvolvimento desses pa&iacute;ses. Ao mesmo tempo projeta o Brasil &#91;internacionalmente]&rdquo;.<\/p>\n<p>Apenas em 2010 foram conclu&iacute;dos quase 600 iniciativas de coopera&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica em 81 pa&iacute;ses do mundo. Somente na &Aacute;frica, 300 em 38 pa&iacute;ses, enquanto em 2002 havia apenas 21 projetos em seis pa&iacute;ses. &Aacute;frica e Am&eacute;rica Latina s&atilde;o os alvos principais da coopera&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica e receberam do Brasil US$ 40 milh&otilde;es e US$ 29 milh&otilde;es, respectivamente, entre 2003 e 2010. Os mais ajudados foram Mo&ccedil;ambique, Timor Leste, Guin&eacute; Bissau e Haiti.<\/p>\n<p>Os recursos para a coopera&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica aumentaram consideravelmente a partir do in&iacute;cio do governo Lula, em 2003. O or&ccedil;amento da ABC passou de R$ 4,5 milh&otilde;es, em 2003, para R$ 52 milh&otilde;es em 2011 &ndash; crescimento de dez vezes. Mas foi em 2008 que o Brasil deu seu passo mais ousado, iniciando projetos de grande escala, chamados de estruturantes. Os maiores parceiros do governo brasileiro na realiza&ccedil;&atilde;o desses grandes projetos s&atilde;o Embrapa, Funda&ccedil;&atilde;o Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Senai, institui&ccedil;&otilde;es que atuam justamente nas tr&ecirc;s &aacute;reas nas quais o Brasil mais desenvolve projetos de coopera&ccedil;&atilde;o: agricultura (22% dos projetos), sa&uacute;de (16%) e educa&ccedil;&atilde;o (12%).<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; uma prioridade pol&iacute;tica do Brasil para a realiza&ccedil;&atilde;o de projetos nessas &aacute;reas. H&aacute;, pelo contr&aacute;rio, uma maior demanda por eles. &ldquo;Cansei de ouvir por todo pa&iacute;s onde andava que queriam uma filial da Embrapa. Se fosse atender a todos os pedidos, hoje a Embrapa teria 150 filiais pelo mundo. A coopera&ccedil;&atilde;o brasileira em agricultura cresceu muito porque somos reconhecidos pelo que se fez nesta &aacute;rea no Brasil&rdquo;, diz Olyntho Vieira, que antes de ir para a FAO foi coordenador-geral da coopera&ccedil;&atilde;o brasileira em agricultura.<\/p>\n<p>A Embrapa tem hoje escrit&oacute;rio em Gana, na &Aacute;frica, e deve montar uma filial internacional no Panam&aacute;. Seu projeto mais audacioso &eacute; o Cotton 4, que transfere tecnologia brasileira na produ&ccedil;&atilde;o de algod&atilde;o para Mali, Benin, Chade e Burkina Faso, e pretende ampliar a gera&ccedil;&atilde;o de comida conjugada com a de algod&atilde;o. J&aacute; o Senai tem um grande centro de forma&ccedil;&atilde;o no Paraguai, que j&aacute; formou mais de dez mil trabalhadores, e tr&ecirc;s na &Aacute;frica (Angola, Cabo Verde e Guin&eacute; Bissau). Outros quatro est&atilde;o sendo instalados na Am&eacute;rica Latina e dois no continente africano.<\/p>\n<p>A Fiocruz est&aacute; envolvida em projeto de bancos de leite materno, sendo 12 na Am&eacute;rica Latina. Tamb&eacute;m &eacute; parceira do maior e mais ousado projeto de coopera&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica brasileiro: uma f&aacute;brica p&uacute;blica de medicamentos gen&eacute;ricos contra a Aids, em Mo&ccedil;ambique. O projeto, in&eacute;dito na hist&oacute;ria da coopera&ccedil;&atilde;o brasileira, surgiu em 2003 com a inten&ccedil;&atilde;o de transferir a experi&ecirc;ncia brasileira na produ&ccedil;&atilde;o desses medicamentos, criando capacidades locais. Os investimentos p&uacute;blicos brasileiros na f&aacute;brica, que come&ccedil;a a operar este ano, s&atilde;o de R$ 15 milh&otilde;es.<\/p>\n<p>O Brasil tamb&eacute;m teve iniciativas fracassadas. Em Mo&ccedil;ambique, por exemplo, tentou criar uma f&aacute;brica de bolas de futebol. Em tese era uma ideia simp&aacute;tica e bastante brasileira, mas n&atilde;o deu aten&ccedil;&atilde;o suficiente para as dificuldades como o acesso &agrave; mat&eacute;ria-prima e a energia para fazer a f&aacute;brica operar. Resultado: o projeto foi desativado.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<strong>INTERESSES ECON&Ocirc;MICOS<br \/>\n<\/strong><br \/>\nApesar de n&atilde;o fazer exig&ecirc;ncias econ&ocirc;micas em troca da sua coopera&ccedil;&atilde;o, o Brasil vem colhendo frutos econ&ocirc;micos do aumento das suas doa&ccedil;&otilde;es internacionais. Conforme o pa&iacute;s aumenta seu prest&iacute;gio junto &agrave;queles que ajuda, as empresas brasileiras elevam as exporta&ccedil;&otilde;es e realizam mais opera&ccedil;&otilde;es de internacionaliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Em viagem &agrave; Tanz&acirc;nia em 2010, o ex-presidente Lula pregou que &eacute; preciso &ldquo;viajar cada vez mais, batermos cada vez mais em portas diferentes, tentando vender os nossos produtos&rdquo;. E, de fato, o incremento das visitas diplom&aacute;ticas e da assinatura de projetos de coopera&ccedil;&atilde;o ajudaram o Brasil a vender mais. As exporta&ccedil;&otilde;es brasileiras para a &Aacute;frica mais que triplicaram nos anos Lula (2003-2010). J&aacute; a Am&eacute;rica Latina foi o maior destino das exporta&ccedil;&otilde;es brasileiras em 2008, adquirindo cerca de um quarto dos produtos exportados &ndash; US$ 50 bilh&otilde;es.<\/p>\n<p>A liga&ccedil;&atilde;o entre coopera&ccedil;&atilde;o e neg&oacute;cios pode n&atilde;o ser direta, mas &eacute; estreita. A mineradora brasileira Vale do Rio Doce, por exemplo, firmou contrato com o governo de Mo&ccedil;ambique para explorar carv&atilde;o naquela que pode ser a maior mina do mundo, em 2004, um ano depois do an&uacute;ncio do apoio brasileiro &agrave; constru&ccedil;&atilde;o da f&aacute;brica de medicamentos contra a Aids. A f&aacute;brica acentuou amizades entre Brasil e Mo&ccedil;ambique e, indiretamente, facilitou a penetra&ccedil;&atilde;o da Vale. Com investimento de US$ 1,6 bilh&atilde;o, a mina da Vale come&ccedil;ar&aacute; a produzir este ano, quando tamb&eacute;m come&ccedil;a a produzir a f&aacute;brica de antirretrovirais &ndash; gra&ccedil;as a uma doa&ccedil;&atilde;o de US$ 4,5 milh&otilde;es da pr&oacute;pria mineradora para a finaliza&ccedil;&atilde;o do projeto.<\/p>\n<p>&ldquo;A ajuda t&eacute;cnica nunca &eacute; a troco de nada, n&atilde;o &eacute; benevol&ecirc;ncia, n&atilde;o &eacute; boa vontade&rdquo;, alerta a pesquisadora Ana Saggioro, da PUC-Rio e do Instituto de Pol&iacute;ticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs). Se por um lado o Brasil fornece mais ajuda do que obt&eacute;m, por outro j&aacute; investe mais no exterior do que recebe em investimentos estrangeiros. &ldquo;O movimento de fortalecimento da Coopera&ccedil;&atilde;o Sul-Sul, de ascens&atilde;o do Brasil, envolve a expans&atilde;o do capital com sede no pa&iacute;s.&rdquo;<\/p>\n<p>Segundo a pesquisadora, o Brasil d&aacute; apoio pol&iacute;tico &agrave; expans&atilde;o das empresas brasileiras de forma n&atilde;o institucionalizada. Ela cita dois exemplos: a abertura de embaixadas no exterior, que favorece a disputa por espa&ccedil;o pelas empresas brasileiras e as visitas do ex-presidente Lula, sempre acompanhadas de miss&otilde;es empresariais. &ldquo;Quando Lula estava negociando o acordo nuclear no Ir&atilde;, o Brasil fazia acordos de coopera&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica na &aacute;rea de energia e 77 empresas brasileiras estavam no pa&iacute;s fazendo negocia&ccedil;&atilde;o de exporta&ccedil;&atilde;o, principalmente carne&rdquo;, conta Ana Saggioro.<\/p>\n<p>J&aacute; a consultora Melissa Andrade n&atilde;o v&ecirc; problema na expans&atilde;o das companhias nacionais. &ldquo;Nada impede que uma empresa brasileira que for se expandir contribua tamb&eacute;m para o desenvolvimento dos pa&iacute;ses com que o Brasil coopera&rdquo;, diz. Mas o Estado deve regular a atua&ccedil;&atilde;o da empresa no exterior: &ldquo;&Eacute; preciso fazer que a atua&ccedil;&atilde;o da empresa seja de interesse p&uacute;blico e que n&atilde;o seja meramente comercial, trazendo emprego de curto prazo e remetendo os lucros todos para o Brasil&rdquo;, acrescenta.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<br \/>\nCARA PR&Oacute;PRIA<br \/>\n<\/strong><br \/>\nO Brasil est&aacute; moldando uma cara pr&oacute;pria para sua coopera&ccedil;&atilde;o e se diferenciando de outros modelos j&aacute; existentes, principalmente dos de pa&iacute;ses doadores da OCDE. Chamados de doadores tradicionais, eles s&atilde;o focados em prover recursos financeiros (n&atilde;o coopera&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica) em troca do cumprimento de condi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e econ&ocirc;micas &ndash; muitos pa&iacute;ses foram inclusive obrigados a aderir ao FMI e ao Banco Mundial para come&ccedil;ar a receber a ajuda.<\/p>\n<p>O modelo da OCDE &eacute; altamente criticado por tornar os pa&iacute;ses receptores altamente dependentes da ajuda e das pol&iacute;ticas impostas pelos doadores. A Unctad, &oacute;rg&atilde;o de com&eacute;rcio da ONU, diz que apenas dois dos pa&iacute;ses menos desenvolvidos do mundo conseguiram melhorar significativamente desde o in&iacute;cio desse modelo de ajuda internacional.<br \/>\nMo&ccedil;ambique &ndash; que &eacute; o maior receptor de coopera&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica brasileira no mundo &ndash; tem quase metade do seu or&ccedil;amento de Estado custeado por um grupo de doadores tradicionais. <\/p>\n<p>Eles estabelecem anualmente uma lista de metas pol&iacute;ticas, sociais e econ&ocirc;micas que o pa&iacute;s precisa cumprir para receber a ajuda. Insatisfeitos com o decorrer das elei&ccedil;&otilde;es de 2009, esses doadores entraram em greve no ano seguinte, provocando um caos nas contas p&uacute;blicas, infla&ccedil;&atilde;o e aumento do custo de vida. Exatamente o oposto do estilo n&atilde;o intervencionista brasileiro.<\/p>\n<p>&ldquo;&Eacute; preciso virar a p&aacute;gina dos modelos impostos de fora &#91;&#8230;] O Brasil n&atilde;o tem a pretens&atilde;o de ditar modelos para ningu&eacute;m &ndash; sempre deseja aprender com a dignidade e a sabedoria dos povos irm&atilde;os&rdquo;, discursou o ex-presidente Lula no F&oacute;rum Social Mundial em Dacar, no Senegal, este ano. Seguindo o princ&iacute;pio do n&atilde;o intervencionismo, o Brasil continua a enviar miss&otilde;es diplom&aacute;ticas e comerciais para pa&iacute;ses cujos dirigentes s&atilde;o internacionalmente acusados de viola&ccedil;&atilde;o de direitos humanos, como a Guin&eacute; Equatorial, e se absteve na decis&atilde;o da Conselho de Seguran&ccedil;a da ONU que autorizou uma interven&ccedil;&atilde;o militar na L&iacute;bia, que vive desde fevereiro uma turbul&ecirc;ncia social contra o regime de Muammar Kadafi, no poder h&aacute; mais de quatro d&eacute;cadas.<\/p>\n<p>Com essas caracter&iacute;sticas, o Brasil estaria inaugurando um novo modelo de ajuda internacional? &ldquo;N&atilde;o sei se chamaria de novo modelo, porque n&atilde;o foi pensado como novo modelo&rdquo;, diz o embaixador Tarrag&ocirc;. Mas &ldquo;n&oacute;s temos uma maneira de fazer que n&atilde;o tenha as mesmas condicionalidades ou exig&ecirc;ncias. Porque a &ecirc;nfase n&atilde;o &eacute; na doa&ccedil;&atilde;o de recursos financeiros&rdquo;, mas na coopera&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica. Embora menos vistosa que a doa&ccedil;&atilde;o de dinheiro, a coopera&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica &eacute; &ldquo;mais eficiente&rdquo; porque &ldquo;os resultados s&atilde;o mais duradouros por meio da forma&ccedil;&atilde;o de pessoas que v&atilde;o ficar por gera&ccedil;&otilde;es inteiras pondo em pr&aacute;tica o que ter&atilde;o aprendido conosco&rdquo;.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<strong>POL&Iacute;TICA DE COOPERA&Ccedil;&Atilde;O<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA mudan&ccedil;a de perfil do Brasil &eacute; muito recente e ainda faltam diretrizes e agenda para a coopera&ccedil;&atilde;o brasileira. Mas a consolida&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s como doador e o aumento constante da ajuda que fornece tornam necess&aacute;rio que o governo passe a discutir os termos da sua coopera&ccedil;&atilde;o. Apesar de haver uma ideia geral de princ&iacute;pios, falta uma pol&iacute;tica de coopera&ccedil;&atilde;o internacional brasileira, que defina em primeiro lugar o que somos e o que queremos ser como um pa&iacute;s doador, al&eacute;m de simplesmente prestar coopera&ccedil;&atilde;o na pr&aacute;tica.<\/p>\n<p>&ldquo;O Brasil vai atuar da mesma forma que algumas pot&ecirc;ncias tradicionais?&rdquo;, questiona o ministro Bitencourt, da embaixada do Brasil em Mo&ccedil;ambique. Ou da mesma forma que a China? E como vai se dar a conjuga&ccedil;&atilde;o da coopera&ccedil;&atilde;o brasileira &ldquo;com nossos interesses econ&ocirc;micos&rdquo; de internacionaliza&ccedil;&atilde;o das empresas e disputa por mercados e mat&eacute;rias-primas? Como &ldquo;a transforma&ccedil;&atilde;o do bioetanol em &lsquo;commodity&rsquo; internacional&rdquo; vai surtir impactos na coopera&ccedil;&atilde;o? &ldquo;S&atilde;o perguntas como essas que acabar&atilde;o se colocando e cuja resposta permitir&aacute; definir a vis&atilde;o que queremos ter para nossa atua&ccedil;&atilde;o e para a coopera&ccedil;&atilde;o&rdquo;, diz Bitencourt.<\/p>\n<p>A pesquisadora Melissa Andrade concorda que chegou a hora de o pa&iacute;s discutir sua coopera&ccedil;&atilde;o. &ldquo;O Brasil nessa demanda que est&aacute; tendo de exportar know-how para o resto do mundo tem uma oportunidade excelente de olhar para si de forma muito cr&iacute;tica e ver o que a gente est&aacute; querendo dar para o resto do mundo&rdquo;, diz a pesquisadora. &ldquo;N&oacute;s, que fomos t&atilde;o cr&iacute;ticos durante tanto tempo em rela&ccedil;&atilde;o a importar uma s&eacute;rie de ideologias e programas que n&atilde;o tinham a ver com nossa realidade, at&eacute; que ponto vamos agora come&ccedil;ar a fazer a mesma coisa? Como vamos conseguir dialogar?&rdquo;.<\/p>\n<p>&ldquo;N&atilde;o existe uma resposta pronta ainda&rdquo;, continua Melissa Andrade. &ldquo;Estamos come&ccedil;ando a debater coopera&ccedil;&atilde;o internacional como pol&iacute;tica p&uacute;blica de forma mais s&eacute;ria agora. At&eacute; recentemente o Brasil recebia mais assist&ecirc;ncia do que oferecia. Por isso esse &eacute; um debate t&atilde;o importante. Temos que nos preparar para fazer uma coopera&ccedil;&atilde;o que seja de fato diferente, que n&atilde;o reproduza os mesmos modelos tanto t&eacute;cnicos quanto ideol&oacute;gicos da coopera&ccedil;&atilde;o que a gente tem no passado.&rdquo;<\/p>\n<p><strong>Amanda Rossi <br \/>\n<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em artigo publicado no Le Monde Diplomatique Brasil, a jornalista Amanda Rossi apresenta um cruzamento in\u00e9dito de dados sobre a pol\u00edtica externa brasileira. <\/p>\n<p>O relat\u00f3rio mostra que o pa\u00eds  j\u00e1 fornece mais do que recebe em ajuda internacional entre governos e ag\u00eancias multilaterais. Conforme se expande a coopera\u00e7\u00e3o brasileira, cresce tamb\u00e9m o seu poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico no mundo. Leia a \u00edntegra do artigo.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":31135,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[83,7540,2269],"class_list":["post-31136","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias-zeca-dirceu","tag-brasil","tag-doador","tag-pais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31136","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31136"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31136\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/wp-json\/wp\/v2\/media\/31135"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31136"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31136"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31136"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}