{"id":29623,"date":"2011-07-13T00:00:00","date_gmt":"2011-07-13T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.zecadirceu.com.br\/o-papel-do-pt-e-da-oposicao-no-brasil-por-jose-dirceu\/"},"modified":"2011-07-13T00:00:00","modified_gmt":"2011-07-13T03:00:00","slug":"o-papel-do-pt-e-da-oposicao-no-brasil-por-jose-dirceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/o-papel-do-pt-e-da-oposicao-no-brasil-por-jose-dirceu\/","title":{"rendered":"O Papel do PT e da Oposi\u00e7\u00e3o no Brasil &#8211; por Jos\u00e9 Dirceu"},"content":{"rendered":"<p><strong>O Papel do PT e da Oposi&ccedil;&atilde;o no Brasil&nbsp;<\/p>\n<p>Jos&eacute; Dirceu<br \/>\n<\/strong><br \/>\n&quot;Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influ&ecirc;ncia sobre os &lsquo;movimentos sociais&rsquo; ou o &lsquo;pov&atilde;o&rsquo;, isto &eacute;, sobre as massas carentes e pouco informadas, falar&atilde;o sozinhos.&rdquo; Com este trecho, que integrou seu artigo sobre a crise das oposi&ccedil;&otilde;es na edi&ccedil;&atilde;o passada desta revista, o ex- -presidente Fernando Henrique Cardoso voltou a tentar encontrar um rumo para seu partido no debate pol&iacute;tico nacional. O par&aacute;grafo provocou fortes rea&ccedil;&otilde;es negativas de seus aliados. Sem d&uacute;vida, coloca-se em terreno f&eacute;rtil para uma reflex&atilde;o das oposi&ccedil;&otilde;es sobre seu pr&oacute;prio papel e comportamento desde que o PT chegou ao executivo federal e iniciou a sedimenta&ccedil;&atilde;o do projeto de transforma&ccedil;&atilde;o do Brasil em um pa&iacute;s que cresce gerando empregos e distribuindo renda. Mas, acima de tudo, ciente das car&ecirc;ncias program&aacute;ticas que assolam as oposi&ccedil;&otilde;es, FHC procura tra&ccedil;ar uma estrat&eacute;gia eleitoral, identificando nas classes m&eacute;dias brasileiras o estrato social capaz de permitir a organiza&ccedil;&atilde;o de um discurso de oposi&ccedil;&atilde;o com potencial de enfrentamento. H&aacute;, contudo, combust&iacute;vel para que n&oacute;s, do Partido dos Trabalhadores, fa&ccedil;amos igualmente uma reflex&atilde;o sobre o papel decisivo que desempenhamos ao longo de trinta anos e, a partir dessa compreens&atilde;o, delinear nossa atua&ccedil;&atilde;o no bojo da maior alian&ccedil;a pol&iacute;tico-partid&aacute;ria j&aacute; constru&iacute;da na hist&oacute;ria do nosso pa&iacute;s, de sustenta&ccedil;&atilde;o do governo da presidenta Dilma Rousseff. Trata-se, portanto, de recolocar em perspectiva alguns temas apresentados pelo ex-presidente FHC, reparando-os, para que possamos promover os ajustes finos necess&aacute;rios &agrave; nossa a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, que tem nos instrumentos de est&iacute;mulo do desenvolvimento sustent&aacute;vel com distribui&ccedil;&atilde;o de renda, gera&ccedil;&atilde;o de empregos e inclus&atilde;o social os trampolins para o soerguimento do Brasil que sonhamos e temos a possibilidade de realizar.<\/p>\n<p><strong>Sem programa <\/strong><\/p>\n<p>O artigo de Fernando Henrique Cardoso pode ser dividido em dois grandes blocos, ainda que suas ideias e senten&ccedil;as estejam misturadas e intercaladas entre si ao longo do texto: um bloco de genu&iacute;no reconhecimento das fragilidades program&aacute;ticas e de a&ccedil;&atilde;o que abateram, e seguem abatendo, as oposi&ccedil;&otilde;es nos &uacute;ltimos anos, avalia&ccedil;&atilde;o que merece ser reconhecida pela coragem; e um segundo grupo de senten&ccedil;as que visam a reestruturar o discurso oposicionista com afirma&ccedil;&otilde;es de efeito, sem amparo na realidade, imprecisas ou mesmo equivocadas, a respeito do que foi o governo Lula e do que tem sido a atua&ccedil;&atilde;o do PT na &uacute;ltima d&eacute;cada. &Eacute; preciso, portanto, reparar tais afirma&ccedil;&otilde;es, porque estas foram tecidas unicamente para atender aos interesses pol&iacute;ticos de criticar nosso projeto de Brasil. De todos os expoentes das oposi&ccedil;&otilde;es brasileiras, talvez n&atilde;o tenha havido ningu&eacute;m que tenha feito o que o ex-presidente FHC fez em seu artigo: tocar nas feridas abertas da car&ecirc;ncia de projeto de pa&iacute;s e da inexist&ecirc;ncia de alternativas a apresentar &agrave; na&ccedil;&atilde;o. Isso est&aacute; expl&iacute;cito em: &ldquo;Os oposicionistas para serem ouvidos precisam ter o que dizer&rdquo;. Ou ent&atilde;o: &ldquo;Na verdade, falta-nos estrat&eacute;gia. Estrat&eacute;gia n&atilde;o &eacute; plano de a&ccedil;&atilde;o: &eacute; o peso relativo que se d&aacute; &agrave;s quest&otilde;es desafiadoras do futuro somado &agrave; defini&ccedil;&atilde;o de como as abordaremos&rdquo;. Essas compreens&otilde;es permitem diagnosticar a dist&acirc;ncia que h&aacute; entre o que pretendem as oposi&ccedil;&otilde;es e o que de fato t&ecirc;m conseguido, que &eacute; o afastamento dos anseios pol&iacute;ticos da sociedade brasileira. Caso contr&aacute;rio, n&atilde;o teria o ex-presidente finalizado com o seguinte questionamento: &ldquo;as oposi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, por fim, se nada ou pouco tiverem a ver com as m&uacute;ltiplas demandas do cotidiano, como acumular&atilde;o for&ccedil;as para ganhar a sociedade?&rdquo;<\/p>\n<p><strong>Nova classe m&eacute;dia <\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; de hoje que as for&ccedil;as que se aliaram em torno do presidente Lula e, agora, de Dilma Rousseff, em apoio &agrave;s pol&iacute;ticas governamentais, t&ecirc;m identificado nas oposi&ccedil;&otilde;es a aus&ecirc;ncia de alternativas. Nesse sentido, as formula&ccedil;&otilde;es de FHC tentam reorganizar a maneira de agir, a partir do estabelecimento de um &ldquo;p&uacute;blico-alvo&rdquo;, por assim dizer, que &eacute; a chamada nova classe m&eacute;dia. Ou seja, o tucano produz, antes de qualquer coisa, uma an&aacute;lise e uma estrat&eacute;gia eleitoral, para fazer seu partido retornar ao governo federal. Essa tentativa parte da premissa de que faltam &agrave;s oposi&ccedil;&otilde;es um projeto e uma estrat&eacute;gia de a&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m do reconhecimento de que o Partido dos Trabalhadores &eacute; historicamente muito mais bem-sucedido no di&aacute;logo com as camadas mais populares da sociedade &ndash; nas palavras do ex-presidente tucano, &ldquo;as oposi&ccedil;&otilde;es se baseiam em partidos n&atilde;o propriamente mobilizadores de massas&rdquo;. Em suma, finalmente d&aacute;-se o bra&ccedil;o a torcer de que foi o governo Lula e do PT que se voltou para essas camadas menos favorecidas. Essa compreens&atilde;o &eacute; cristalina no pol&ecirc;mico par&aacute;grafo escrito por FHC e reproduzido no in&iacute;cio deste artigo. H&aacute;, de fato, intr&iacute;nseca rela&ccedil;&atilde;o e simbiose entre o Partido dos Trabalhadores e os movimentos sociais e os setores populares, de onde se origina grande parcela dos quadros do PT e para os quais tamb&eacute;m se voltam nosso projeto. No entanto, o mandato conferido pelas urnas ao PT n&atilde;o foi exercido exclusivamente com o objetivo de beneficiar os historicamente exclu&iacute;dos, mas obteve &ecirc;xito tamb&eacute;m em criar as condi&ccedil;&otilde;es para o atendimento de outros setores da sociedade, na medida de suas necessidades. Ao apostar na forma&ccedil;&atilde;o de um mercado interno robusto, o governo Lula mirou a colheita de frutos para todos, consubstanciada no chamado ciclo virtuoso de crescimento. Esse &eacute; igualmente o norte do governo Dilma, fazer do Brasil um &ldquo;pa&iacute;s de classe m&eacute;dia&rdquo;, como defendeu a presidenta em sua campanha eleitoral e no momento de sua posse. Nada mais sintonizado com esse objetivo do que intensificar, com a fixa&ccedil;&atilde;o de metas, as pol&iacute;ticas p&uacute;blicas de erradica&ccedil;&atilde;o da pobreza extrema. E o rec&eacute;m-lan&ccedil;ado programa Brasil sem Mis&eacute;ria vai ao encontro desse desafio de ser &ldquo;classe m&eacute;dia&rdquo;, porque permite atacar a desigualdade social e tamb&eacute;m robustecer o mercado interno. N&atilde;o ser&aacute; pouco, pois romper em doze anos as barreiras constru&iacute;das h&aacute; s&eacute;culos para separar as elites das classes populares se constituir&aacute; em um dos grandes marcos deste pa&iacute;s. Viabilizar a concretiza&ccedil;&atilde;o de tais pol&iacute;ticas permite que consigamos aprofundar todo um novo conjunto de medidas voltadas para esse grupo de &ldquo;classe m&eacute;dia&rdquo; (heterog&ecirc;neo, diga-se, e em expans&atilde;o gra&ccedil;as &agrave;s pol&iacute;ticas que implantamos quando governo) que FHC visualiza como a t&aacute;bua de salva&ccedil;&atilde;o do trabalho de reorganizar as oposi&ccedil;&otilde;es. Medidas que podemos chamar de &ldquo;segunda gera&ccedil;&atilde;o&rdquo;, ainda que muitas delas j&aacute; tenham feito parte das a&ccedil;&otilde;es do governo Lula, como priorizar as micro e pequenas empresas e a agricultura familiar na concess&atilde;o de cr&eacute;dito do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econ&ocirc;mico e Social) e do Pronaf (Programa Nacional de Agricultura Familiar). Nos &uacute;ltimos quatro anos, o volume de empr&eacute;stimos do BNDES para micro e pequenas empresas saltou de R$ 11 bilh&otilde;es (2006) para mais de R$ 45 bilh&otilde;es (2010) , enquanto que o Pronaf registrou crescimento de cerca de R$ 10 bilh&otilde;es na oferta de cr&eacute;dito &agrave; agricultura familiar entre os anos 1999\/2000 e 2008\/2009 (de R$ 3,28 bilh&otilde;es para R$ 13 bilh&otilde;es) . A agenda do pr&oacute;ximo governo est&aacute; repleta de propostas com esse perfil: do Plano Nacional de Banda Larga &agrave;s reformas pol&iacute;tica e tribut&aacute;ria (ambas ainda n&atilde;o aprovadas gra&ccedil;as aos obst&aacute;culos criados pelas oposi&ccedil;&otilde;es), passando por programas e medidas em educa&ccedil;&atilde;o, sa&uacute;de, tecnologia, gera&ccedil;&atilde;o de emprego e infraestrutura. Nesse sentido, &eacute; responsabilidade do governo Dilma e do pt atentarem para essa transforma&ccedil;&atilde;o da sociedade brasileira: se sua forma&ccedil;&atilde;o &eacute; cada vez mais &ldquo;classe m&eacute;dia&rdquo;, logo, o desafio &eacute; construir pol&iacute;ticas p&uacute;blicas para atender a esse p&uacute;blico, disputando-o na seara pol&iacute;tica com as oposi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p><strong>Clareando os fatos <\/strong><\/p>\n<p>Ocorre que o ex-presidente tamb&eacute;m reuniu em seu artigo uma s&eacute;rie de inverdades, sobre quest&otilde;es vitais para as chamadas classes m&eacute;dias velhas e novas, que t&ecirc;m inclusive se espalhado nos discursos das oposi&ccedil;&otilde;es desde a campanha presidencial de Jos&eacute; Serra e foram repetidas com frequ&ecirc;ncia na 10&ordf; Conven&ccedil;&atilde;o Nacional do PSDB de finais de maio. S&atilde;o acusa&ccedil;&otilde;es ao governo Lula e ao PT de loteamento da m&aacute;quina p&uacute;blica, aliadas ao discurso de maleabilidade ideol&oacute;gica, acrescidas de reivindica&ccedil;&otilde;es da autoria de avan&ccedil;os ocorridos na era Lula e temperadas com uma boa dose de cobran&ccedil;a daquilo que n&atilde;o fizeram quando estiveram &agrave; frente do governo. Um dos artif&iacute;cios do discurso tucano &eacute; repetir que as administra&ccedil;&otilde;es do PT se pautam pelo loteamento de cargos &ndash; a frase foi dita e explorada &agrave; exaust&atilde;o na campanha passada, com o benepl&aacute;cito da grande m&iacute;dia, que, de resto, tem lado e interesses no jogo pol&iacute;tico ora travado no Pa&iacute;s. Ocorre que nas hostes oposicionistas &eacute; costumeira a confus&atilde;o entre o que se constitui loteamento de fato e o desej&aacute;vel e necess&aacute;rio preenchimento de cargos de alto escal&atilde;o com crit&eacute;rios n&atilde;o somente t&eacute;cnicos, mas pol&iacute;ticos, haja vista a insuper&aacute;vel exig&ecirc;ncia de sinergia entre as diretrizes maiores de um governo e o trabalho de seus principais expoentes. Em suma, n&atilde;o se pode atrair para fun&ccedil;&otilde;es-chave na administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica pessoas alheias ou contr&aacute;rias ao rumo maior de um governo &ndash; o que seria, inclusive, estelionato eleitoral. Isso acontece em todas as democracias do mundo e n&atilde;o h&aacute; quem estranhe ou fa&ccedil;a acusa&ccedil;&otilde;es de loteamento de cargos. O que h&aacute; de se estranhar &eacute; a nomea&ccedil;&atilde;o de personagens que em nada guardam rela&ccedil;&atilde;o com as fun&ccedil;&otilde;es para as quais s&atilde;o indicadas, algo muito frequente nos governos estaduais do PSDB em S&atilde;o Paulo, por exemplo. A inten&ccedil;&atilde;o oculta das for&ccedil;as oposicionistas, em associa&ccedil;&atilde;o com a grande m&iacute;dia, &eacute; pregar nos governos do PT a pecha do clientelismo, para abrir canais de acesso midi&aacute;tico junto &agrave;s &ldquo;classes m&eacute;dias&rdquo; pela bandeira da &eacute;tica. Ora, uma simples consulta aos boletins de pessoal do Minist&eacute;rio do Planejamento permite identificar que as indica&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas para cargos de confian&ccedil;a no governo federal s&atilde;o minorit&aacute;rias. Sob o governo Lula, por exemplo, cerca de 70% dos cargos comissionados foram ocupados por servidores de carreira. H&aacute; igualmente uma profunda desinforma&ccedil;&atilde;o em supor que inexiste combina&ccedil;&atilde;o do crit&eacute;rio pol&iacute;tico com qualifica&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica; afinal, isso comprometeria o desempenho do governo e n&atilde;o se alcan&ccedil;ariam tantos resultados positivos como os que nossos governos apresentaram. Um outro engodo nas cr&iacute;ticas das oposi&ccedil;&otilde;es diz respeito &agrave;s concep&ccedil;&otilde;es sobre o papel do Estado e sua import&acirc;ncia para o desenvolvimento nacional. Sem d&uacute;vida, n&atilde;o prevalece do lado do PT e de seus governos a vis&atilde;o de reduzir o Estado ao m&iacute;nimo, com terceiriza&ccedil;&atilde;o de suas atividades, comprometendo as carreiras p&uacute;blicas, o planejamento e a gest&atilde;o das pol&iacute;ticas. Essa pr&aacute;tica integra os manuais neoliberais, foi largamente utilizada nas gest&otilde;es do PSDB e termina por responsabilizar o funcionalismo por uma op&ccedil;&atilde;o que &eacute; exclusivamente do governo. Nossa concep&ccedil;&atilde;o, implementada nos &uacute;ltimos oito anos, &eacute; a de que, para atingirmos em m&eacute;dio e longo prazos os objetivos centrais do projeto de pa&iacute;s escolhido pela sociedade brasileira, faz-se fundamental reorganizar as fun&ccedil;&otilde;es de Estado. Nesse sentido, as carreiras foram restabelecidas e a m&aacute;quina estatal ganhou corpo, permitindo que o Estado voltasse a formular, planejar, gerir e executar pol&iacute;ticas p&uacute;blicas.<\/p>\n<p><strong>Funcionalismo p&uacute;blico<\/strong><\/p>\n<p>Resgatamos, ao fim e ao cabo, a autoestima do funcion&aacute;rio p&uacute;blico, via realiza&ccedil;&atilde;o de concursos para novas vagas e tamb&eacute;m com a valoriza&ccedil;&atilde;o salarial. Assim, foi poss&iacute;vel fazer que a a&ccedil;&atilde;o estatal se ocupasse de concretizar um conjunto de medidas sociais conectadas aos objetivos de ampliar e distribuir renda e elevar significativamente o volume de empregos, bem como foi poss&iacute;vel, por meio do Estado, estimular a economia onde a iniciativa privada n&atilde;o atuaria, colhendo os frutos do fortalecimento da ind&uacute;stria, da dinamiza&ccedil;&atilde;o do com&eacute;rcio e da cria&ccedil;&atilde;o de recordes nas exporta&ccedil;&otilde;es &ndash; inclusive, neste 2011, de grande competi&ccedil;&atilde;o internacional. Foram as op&ccedil;&otilde;es de investir e ampliar a capacidade do Estado que levaram o Brasil a crescer com confian&ccedil;a em suas qualidades e em seu potencial. Evidente que h&aacute; o que avan&ccedil;ar nesse cap&iacute;tulo, e este &eacute; um dos desafios da presidenta Dilma Rousseff: ampliar a efici&ecirc;ncia na gest&atilde;o p&uacute;blica, compromisso assumido j&aacute; durante a campanha presidencial de 2010, e refor&ccedil;ado no in&iacute;cio do governo. Mas n&atilde;o se consegue desembara&ccedil;ar de uma hora para outra todos os n&oacute;s historicamente criados no interior da m&aacute;quina estatal, especialmente aqueles oriundos de concep&ccedil;&otilde;es flagrantemente antag&ocirc;nicas &agrave;s nossas, como as neoliberais da gest&atilde;o tucana. Ficamos quase quarenta anos sem projetos novos de desenvolvimento em diversos setores estrat&eacute;gicos do Pa&iacute;s. Por isso, soa absurda a cobran&ccedil;a por realiza&ccedil;&otilde;es em setores nos quais houve sucateamento do Estado durante os anos em que a oposi&ccedil;&atilde;o governou o Pa&iacute;s. Algo que ela faz sistematicamente, ilustrado no exemplo do questionamento a seguir do citado artigo de FHC: &ldquo;Onde est&aacute; a infraestrutura que ficou bloqueada em seus avan&ccedil;os pelo temor de apelar &agrave; participa&ccedil;&atilde;o da iniciativa privada nos portos, nos aeroportos, na gera&ccedil;&atilde;o de energia e assim por diante?&rdquo; A bem da verdade, o ex-presidente parece cobrar por suas pr&oacute;prias (in)a&ccedil;&otilde;es, que t&ecirc;m no in&eacute;dito, duradouro e prejudicial &ldquo;apag&atilde;o&rdquo; de gera&ccedil;&atilde;o de energia seu &aacute;pice &ndash; resultado de erros sist&ecirc;micos no setor energ&eacute;tico. Conv&eacute;m pontuar que os entraves em infraestrutura v&ecirc;m sendo desbloqueados desde o primeiro momento em que Lula e o PT chegaram ao executivo federal. Primeiramente, com o resgate no setor p&uacute;blico do planejamento de longo prazo, que permite com que o Pa&iacute;s caminhe estrategicamente para se colocar como ator relevante no cen&aacute;rio internacional, ao mesmo tempo em que se estrutura internamente, superando suas maiores mazelas, quais sejam, a vergonhosa disparidade socioecon&ocirc;mica e cultural e o baixo n&iacute;vel de crescimento &ndash; em grande parte, devido &agrave; difus&atilde;o como verdade inquebrant&aacute;vel da tese de que crescer acima de determinados &iacute;ndices provoca desequil&iacute;brios econ&ocirc;micos: portanto, o Pa&iacute;s e seus exclu&iacute;dos que esperem.<\/p>\n<p><strong>Infraestrutura <\/strong><\/p>\n<p>A resolu&ccedil;&atilde;o dos entraves de infraestrutura que a oposi&ccedil;&atilde;o nos cobra est&aacute; em pleno andamento, como h&aacute; de se diagnosticar, por exemplo, no lan&ccedil;amento, j&aacute; em 2003, do Plano de Revitaliza&ccedil;&atilde;o Ferrovi&aacute;ria. Mas o salto que precisamos dar em log&iacute;stica se estende para al&eacute;m: constru&ccedil;&atilde;o de novas hidrel&eacute;tricas, retomada da ferrovia Norte&ndash;Sul, a Transnordestina, a transposi&ccedil;&atilde;o do rio S&atilde;o Francisco e a reestrutura&ccedil;&atilde;o do setor naval s&atilde;o apenas algumas mostras da retomada de uma agenda de resolu&ccedil;&atilde;o de problemas. No setor energ&eacute;tico, hoje, fala-se em fontes limpas e nas possibilidades de combust&iacute;veis renov&aacute;veis, &aacute;rea em que o Brasil &eacute; refer&ecirc;ncia e projeta-se internacionalmente como grande pot&ecirc;ncia. Nos transportes, a partir do Plano Nacional de Log&iacute;stica e Transportes, de 2007, passamos a projetar investimentos at&eacute; 2023 &ndash; a previs&atilde;o &eacute; destinar R$ 290 bilh&otilde;es para a moderniza&ccedil;&atilde;o da malha de transportes de mercadorias e de passageiros. O que as oposi&ccedil;&otilde;es classificam como &ldquo;mecanismos de concess&atilde;o de benesses &agrave;s massas carentes&rdquo;, como escreveu FHC, s&atilde;o, na verdade, grandes programas de inclus&atilde;o de massas at&eacute; ent&atilde;o desatendidas pelo poder p&uacute;blico, como se denota no Bolsa Fam&iacute;lia, no Minha Casa, Minha Vida e no Luz para Todos. Passamos, portanto, a contar com um planejamento em infraestrutura para quinze e vinte anos e com planos de grande potencial transformador da vida das pessoas. Hoje, como h&aacute; d&eacute;cadas n&atilde;o se via, o Brasil tem um Plano de Acelera&ccedil;&atilde;o do Crescimento, que acertadamente envolve governos estaduais e municipais na exig&ecirc;ncia de elabora&ccedil;&atilde;o de projetos que permitam alocar recursos p&uacute;blicos para promover transforma&ccedil;&otilde;es log&iacute;sticas e sociais. Isso se chama governar um pa&iacute;s com participa&ccedil;&atilde;o de todos os n&iacute;veis da administra&ccedil;&atilde;o. Os pacs 1 e 2 deixar&atilde;o, em pouco mais de uma d&eacute;cada, um legado sem precedentes na nossa hist&oacute;ria, em &aacute;reas nas quais havia flagrante abandono e lentid&atilde;o por parte dos governos anteriores: saneamento, transporte p&uacute;blico, habita&ccedil;&atilde;o, energia, rodovias, portos, aeroportos, ferrovias, hidrovias, irriga&ccedil;&atilde;o e eclusas. Em quatro anos, foram investidos R$ 444 bilh&otilde;es, o correspondente a 82% dos investimentos previstos no pac 1. O restante dos R$ 541,8 bilh&otilde;es ser&atilde;o aplicados at&eacute; finais de 2011, sobrepondo-se ao R$ 1 trilh&atilde;o de investimentos previstos no pac 2, cujo foco &eacute; melhorar as condi&ccedil;&otilde;es de vida nas grandes cidades, a partir de a&ccedil;&otilde;es e obras de g&aacute;s, petr&oacute;leo (pr&eacute;-sal), habita&ccedil;&atilde;o, saneamento, &aacute;gua, energia e transportes . Todo esse conjunto de interven&ccedil;&otilde;es permite estimular os setores produtivos e colher benef&iacute;cios sociais para todos os brasileiros. A matura&ccedil;&atilde;o dos investimentos e das a&ccedil;&otilde;es governamentais ampliar&aacute; os canais de di&aacute;logo com as chamadas &ldquo;classes m&eacute;dias&rdquo;, e cabe a n&oacute;s difundir esses avan&ccedil;os para sensibiliz&aacute;-las.<\/p>\n<p><strong>Maior crise do capitalismo <\/strong><\/p>\n<p>O outro flanco de ataques vindo da oposi&ccedil;&atilde;o procura, em um duplo movimento, reivindicar a autoria de programas, a&ccedil;&otilde;es e os bons resultados obtidos no governo de Lula e do PT, ou desqualificar os &ecirc;xitos de nossa administra&ccedil;&atilde;o, computando-os ao mero cen&aacute;rio internacional positivo. Ali&aacute;s, diga-se, a responsabilidade pelos fracassos da gest&atilde;o tucana tamb&eacute;m &eacute; atribu&iacute;da por eles a um ambiente hostil na economia mundial, o que n&atilde;o se sustenta. A maior crise que o capitalismo j&aacute; enfrentou desde o long&iacute;nquo ano de 1929 acabou se transformando em um divisor de &aacute;guas e em um duro golpe nos sustent&aacute;culos desse discurso-padr&atilde;o. De um lado, a crise de 2008\/2009 desqualificou a tese de que houve pura e simples continuidade na pol&iacute;tica econ&ocirc;mica dos anos FHC; de outro, revelou que o tipo de enfrentamento da crise e de condu&ccedil;&atilde;o da economia sob Lula &eacute; inteiramente diverso do receitu&aacute;rio tucano. Note-se que as amarras deixadas pelo tucanato na economia foram sendo aos poucos desfeitas, como a redu&ccedil;&atilde;o da estratosf&eacute;rica taxa de juros, que embora ainda se mantenha elevada &eacute; praticamente duas vezes menor que a praticada nos anos de PSDB. O mesmo se d&aacute; quanto aos &iacute;ndices de crescimento econ&ocirc;mico ou, especialmente, na capacidade de gera&ccedil;&atilde;o de empregos formais sob o governo Lula e do PT &ndash; quinze milh&otilde;es em oito anos. As chamadas pol&iacute;ticas antic&iacute;clicas implementadas no enfrentamento da crise internacional tamb&eacute;m derrubam os argumentos de que houve continuidade na economia entre as duas gest&otilde;es, j&aacute; que os tucanos lidaram com as crises elevando juros, realizando cortes de gastos p&uacute;blicos e aumento de impostos, numa estrat&eacute;gia de inibir a produ&ccedil;&atilde;o e o consumo e ampliar a arrecada&ccedil;&atilde;o, mas com os efeitos nocivos da recess&atilde;o e do desemprego, enquanto que o governo Lula superou as dificuldades do cen&aacute;rio internacional cortando juros e injetando cr&eacute;dito na economia, para estimular a atividade produtiva, desonerando impostos de setores estrat&eacute;gicos e conclamando a sociedade a consumir para impedir um resfriamento da atividade econ&ocirc;mica. O Brasil ficou conhecido como o &uacute;ltimo a entrar e o primeiro a sair da crise de 2008\/2009, que clareou em definitivo as diferen&ccedil;as e diverg&ecirc;ncias entre os dois modelos de gest&atilde;o. Assim, querer argumentar, por exemplo, que o grau de excel&ecirc;ncia e o sucesso conquistados pela Petrobras no governo de Lula e do PT s&atilde;o &ldquo;efeitos positivos da quebra dos monop&oacute;lios&rdquo; sob a &eacute;gide de FHC e do PSDB &eacute; tentar impor a vers&atilde;o aos fatos. A Petrobras &eacute; atualmente uma empresa global porque nossa vis&atilde;o de Brasil passa por valorizar os patrim&ocirc;nios estatais e fazer deles instrumentos de transforma&ccedil;&atilde;o para melhorar a vida da popula&ccedil;&atilde;o. Foram anos seguidos de investimento p&uacute;blico, &agrave; revelia da ideia predominante, nos anos 1990, de enxugar o tamanho do Estado, que conduziu nossa gigante petrol&iacute;fera a alcan&ccedil;ar a autossufici&ecirc;ncia em petr&oacute;leo e a encontrar grandes reservas abaixo da camada de sal oce&acirc;nica &ndash; o pr&eacute;-sal. Hoje sabemos que o propalado &ldquo;choque de gest&atilde;o&rdquo; &eacute; sin&ocirc;nimo de diminui&ccedil;&atilde;o do Estado ao m&iacute;nimo que se possa gerir, algo substancialmente diverso da recupera&ccedil;&atilde;o, reorganiza&ccedil;&atilde;o, valoriza&ccedil;&atilde;o e utiliza&ccedil;&atilde;o do Estado para induzir, estimular e mediar o desenvolvimento de setores produtivos.<\/p>\n<p><strong>Paternidade de pol&iacute;ticas bem-sucedidas <\/strong><\/p>\n<p>Mas a tentativa tucana de reivindicar a paternidade das pol&iacute;ticas bem-sucedidas do governo Lula e do PT se espraia, por incr&iacute;vel que pare&ccedil;a, ao Bolsa Fam&iacute;lia &ndash; a despeito das seguidas cr&iacute;ticas que sempre teceram e de n&atilde;o haver programa mais identificado com Lula do que esse. No vocabul&aacute;rio tucano, o maior programa de inclus&atilde;o social que o Brasil j&aacute; teve conhecimento, capaz de atuar definitivamente para retirar mais de vinte milh&otilde;es de pessoas da linha da pobreza extrema, chama-se &ldquo;pol&iacute;tica compensat&oacute;ria&rdquo; e &eacute; a simples reuni&atilde;o de diversas &ldquo;compensa&ccedil;&otilde;es&rdquo; esparsas em uma s&oacute;. Mas n&atilde;o &eacute;. O Bolsa Fam&iacute;lia nasce mesmo no governo Lula, que amplia significativamente o volume de atendidos, reorganiza os cadastros antigos, aumenta o valor da bolsa, imp&otilde;e contrapartidas educacionais, envolve as comunidades locais na sua fiscaliza&ccedil;&atilde;o e execu&ccedil;&atilde;o, desburocratiza o acesso ao benef&iacute;cio e cria mecanismos de sa&iacute;da &ndash; como o programa Pr&oacute;ximo Passo, articulado com ensino t&eacute;cnico-profissional de benefici&aacute;rios do Bolsa Fam&iacute;lia. Os frutos de inje&ccedil;&atilde;o de renda circulante na base da pir&acirc;mide social s&atilde;o, por conseguinte, capazes de dinamizar tamb&eacute;m a economia de pequenos munic&iacute;pios e comunidades, at&eacute; ent&atilde;o distantes da economia formal, transformando-se em mais um vetor de forma&ccedil;&atilde;o de um mercado interno outrora incipiente e concentrado.<\/p>\n<p><strong>Dois modelos antag&ocirc;nicos <\/strong><\/p>\n<p>A dist&acirc;ncia existente entre os dois modelos de governar e as duas vis&otilde;es de Estado colocam, definitivamente, PT e PSDB em lados contr&aacute;rios . Isso se reflete tamb&eacute;m na capacidade de aperfei&ccedil;oamento do programa de governo e da a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica no cen&aacute;rio nacional. A efic&aacute;cia na execu&ccedil;&atilde;o de uma primeira etapa de transforma&ccedil;&otilde;es profundas no pa&iacute;s aproxima o Partido dos Trabalhadores de sua voca&ccedil;&atilde;o socialista, ao inv&eacute;s de afast&aacute;-lo dessa ideologia, como querem sustentar nossos advers&aacute;rios. Um olhar hist&oacute;rico das duas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, desprendido do cotidiano, mas apegado aos movimentos mais amplos, permite vislumbrarmos que o Pa&iacute;s progrediu com rapidez e consist&ecirc;ncia no caminho do nacional-desenvolvimentismo e do socialismo. Abandonou a influ&ecirc;ncia neoliberal e das antigas elites, que grassavam no governo do PSDB, e enveredou pela trilha do desenvolvimento sustent&aacute;vel com distribui&ccedil;&atilde;o de renda que nos levar&aacute; a ser a quinta economia do mundo em pouco mais de uma d&eacute;cada. E esse caminhar passa, necessariamente, pelo aprendizado que o PT acumulou antes e depois de ser governo. A acusa&ccedil;&atilde;o insustent&aacute;vel de que abandonamos nossa ideologia s&oacute; pode partir daqueles que, hoje, encontram-se &oacute;rf&atilde;os de um projeto alternativo a apresentar ao Pa&iacute;s e, por isso, sentem-se compelidos a acusar. Esse fr&aacute;gil dedo em riste se sustenta sobre uma compreens&atilde;o estanque da pol&iacute;tica, que ignora, ou se esqueceu, de que um governo democr&aacute;tico de coaliz&atilde;o tem na tens&atilde;o permanente seu verdadeiro estado da arte. Esse aprendizado o PT acumulou ao longo de toda sua hist&oacute;ria, sobrevivendo &agrave;s inumer&aacute;veis cr&iacute;ticas de abrigar correntes com diferentes formas de pensar, em exerc&iacute;cio frequente de democracia e conviv&ecirc;ncia com a discord&acirc;ncia, mas de unidade de a&ccedil;&atilde;o. Principalmente, um aprendizado acumulado na &ldquo;d&eacute;cada perdida&rdquo; de 1990, quando se viu diante da urg&ecirc;ncia em apresentar uma alternativa ao modelo em vigor, dominante na Am&eacute;rica do Sul, e que tinha nos ditames do &ldquo;Consenso de Washington&rdquo; a b&uacute;ssola do p&oacute;s-queda do Muro de Berlim. Cabia ao Partido dos Trabalhadores readequar seu projeto a essa nova realidade pol&iacute;tica, nacional e internacional. Soubemos manter viva a luta pelos ideais, que nos impulsionaram desde nossa funda&ccedil;&atilde;o, a partir da reafirma&ccedil;&atilde;o da import&acirc;ncia estrat&eacute;gica do Estado representante da sociedade na defesa de seus interesses coletivos. Seguidas vezes alertamos o Pa&iacute;s para os riscos de abra&ccedil;ar cegamente o receitu&aacute;rio que vinha de fora, especialmente porque dilapidava o patrim&ocirc;nio p&uacute;blico e, adiante, comprometia a capacidade dos setores p&uacute;blicos. Nessa jornada, mantivemos acesas as rela&ccedil;&otilde;es com os movimentos sociais, muitos dos quais ligados ao funcionalismo p&uacute;blico que j&aacute; sentia na pele as agruras do desmonte da m&aacute;quina estatal. Mas eram tamb&eacute;m part&iacute;cipes desse movimento de defesa do patrim&ocirc;nio p&uacute;blico, que foi ganhando for&ccedil;a paulatinamente, a CUT (Central &Uacute;nica dos Trabalhadores) e o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra).<\/p>\n<p><strong>Projeto tucano<\/strong><\/p>\n<p>O projeto tucano que vigia, contudo, era levado a cabo a partir da associa&ccedil;&atilde;o com as antigas elites dominantes, oriundas da Arena, depois Frente Liberal, renomeada como Partido da Frente Liberal e que, nos dias de hoje, se conhece pela alcunha de Democratas (DEM). Uma alian&ccedil;a de ineg&aacute;vel perfil de centro-direita, que tinha o PSDB como legenda principal, mas cujas pol&iacute;ticas se motivavam no receitu&aacute;rio neoliberal. &Eacute; certo dizer que, ao tentar capturar tais ide&aacute;rios, o PSDB acabou capturado por eles &ndash; e a tentativa do ex-presidente de delinear novos caminhos de a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica com foco nas &ldquo;classes m&eacute;dias&rdquo; constitui, por conseguinte, um esfor&ccedil;o de retirar as oposi&ccedil;&otilde;es dessa situa&ccedil;&atilde;o, para que busquem fronteiras mais ao centro. Havia, portanto, um leque nada desprez&iacute;vel de for&ccedil;as n&atilde;o representadas no governo tucano, fossem elas de matizes de esquerda, identificadas com o Partido dos Trabalhadores e outras legendas, ou fossem situadas mais ao centro do tabuleiro pol&iacute;tico nacional e que discordavam das escolhas dos governos tucanos &ndash; for&ccedil;as, em muitos casos, tamb&eacute;m de perfil &ldquo;classe m&eacute;dia&rdquo;. Os posicionamentos adotados pelo PT durante os anos FHC fizeram do nosso partido um polo aglutinador dessas for&ccedil;as, a partir de um projeto alternativo de Brasil, que refutava veementemente o programa neoliberal em curso. As malfadadas op&ccedil;&otilde;es tucanas redundaram na exposi&ccedil;&atilde;o das contradi&ccedil;&otilde;es do modelo importado, fazendo o PT chegar a 2002 mais robustecido para enfrentar, no processo eleitoral, a coaliz&atilde;o capitaneada pelo PSDB. A op&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica de ampliar a pol&iacute;tica de alian&ccedil;as para al&eacute;m das fronteiras antes delimitadas pelo partido levou ao nome do vice-presidente &ndash; e saudoso &ndash; Jos&eacute; Alencar. Empres&aacute;rio defensor de bandeiras desenvolvimentistas e de perfil nacionalista, com claras preocupa&ccedil;&otilde;es sociais, Alencar reunia as condi&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias para a associa&ccedil;&atilde;o entre os trabalhadores, de um lado, e as elites em ascens&atilde;o, de outro, numa uni&atilde;o cujos participantes n&atilde;o se viam representados nem pelo governo do PSDB, nem pelo modelo que ent&atilde;o pautava a administra&ccedil;&atilde;o federal. As previs&iacute;veis desconfian&ccedil;as da esquerda e de movimentos sociais em rela&ccedil;&atilde;o a essa alian&ccedil;a foram sendo dissolvidas, primeiro ao longo da campanha, quando nosso projeto de pa&iacute;s foi ganhando resson&acirc;ncia cada vez maior na sociedade, inclusive em setores historicamente refrat&aacute;rios ao PT e que hoje FHC tenta atrair novamente; e, depois, durante o primeiro mandato do presidente Lula, quando as armadilhas da &ldquo;heran&ccedil;a maldita&rdquo; foram sendo desmontadas e substitu&iacute;das pelos pilares do novo modelo que come&ccedil;amos a erigir. Evidente que o governo foi se desenrolando em cont&iacute;nuo processo de tens&atilde;o entre as for&ccedil;as que o sustentavam, numa disputa democr&aacute;tica pelo curso das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas. Nesse sentido, a experi&ecirc;ncia que o PT acumulou foi de incontest&aacute;vel valia para lidar com essas tens&otilde;es e organiz&aacute;-las, que de resto refletiam no interior do governo as pr&oacute;prias tens&otilde;es presentes na sociedade. Aos olhos das velhas elites, sempre apoiadas pelos grandes grupos de m&iacute;dia e acostumadas ao padr&atilde;o autorit&aacute;rio, a exist&ecirc;ncia de tens&otilde;es era um dist&uacute;rbio. No entanto, n&atilde;o sabiam que eram exatamente o oposto, a express&atilde;o saud&aacute;vel do jogo pol&iacute;tico.<\/p>\n<p><strong>O papel do PT<\/strong><\/p>\n<p>A cada contenda, portanto, o governo foi se fortalecendo e amadurecendo seu caminho rumo ao norte principal de nosso projeto, de orienta&ccedil;&atilde;o socialista. Mantivemos, nesse sentido, a brilhar o lume do compromisso hist&oacute;rico com um projeto coletivo de na&ccedil;&atilde;o, fundador do Partido dos Trabalhadores nos idos dos anos 1980. A matura&ccedil;&atilde;o de ser governo e a constru&ccedil;&atilde;o dos pilares do edif&iacute;cio no primeiro mandato presidencial de Lula e do PT abriram os caminhos para avan&ccedil;armos de forma mais acelerada nos campos pol&iacute;tico, econ&ocirc;mico, social e cultural. Isso n&atilde;o significa que as tens&otilde;es deixaram de existir; pelo contr&aacute;rio, a tend&ecirc;ncia &eacute; se intensificarem, porque o avan&ccedil;o democr&aacute;tico resulta, em um primeiro momento, em press&otilde;es ainda maiores vindas das for&ccedil;as conservadoras. Foi o que se viu no transcorrer da campanha &agrave; Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica que culminou com a elei&ccedil;&atilde;o da presidenta, Dilma Rousseff, como representante da continuidade desse projeto pol&iacute;tico. Engana-se tamb&eacute;m quem sup&otilde;e que a alian&ccedil;a com o PMDB, estrat&eacute;gica e imprescind&iacute;vel para a realiza&ccedil;&atilde;o das transforma&ccedil;&otilde;es que o Brasil precisa para se desenvolver como planejamos, seja um escudo a essas press&otilde;es. N&atilde;o raro haver&aacute; choques internos. Desde que n&atilde;o haja fissuras, e os dois partidos se mostram consensuais quanto a evitar esse risco, s&oacute; assim, com tens&otilde;es vivas, ser&aacute; poss&iacute;vel equilibrar as for&ccedil;as da mais ampla alian&ccedil;a pol&iacute;tico-partid&aacute;ria de que o Pa&iacute;s j&aacute; teve not&iacute;cia. &Eacute;, portanto, o compromisso primeiro e maior de transformar o pa&iacute;s em uma na&ccedil;&atilde;o justa, com igualdade de oportunidades e desenvolvida economicamente de forma sustent&aacute;vel que obriga a n&oacute;s, do PT, a travar, diuturnamente, batalhas &ndash; sobre os rumos do governo e dialogando permanentemente com todos os setores da sociedade &ndash; para que os nortes do Pa&iacute;s sejam cada vez mais &agrave; esquerda, logo, ideologicamente identificados com nossas origens. Paralelamente, nossa atua&ccedil;&atilde;o deve se pautar por levar &agrave;s chamadas &ldquo;classes m&eacute;dias&rdquo; essa compreens&atilde;o do que &eacute; o governo Dilma e do que foi o governo Lula, para que criemos v&iacute;nculos onde ainda n&atilde;o temos e fortale&ccedil;amos os j&aacute; existentes junto a essas camadas da sociedade. Deste modo, prevalece a concep&ccedil;&atilde;o de que governar &eacute; um exerc&iacute;cio de constru&ccedil;&atilde;o constante de maiorias formadas a partir da base da sociedade e que disputam a dire&ccedil;&atilde;o do governo, algo bem diverso de uma concep&ccedil;&atilde;o que compreende uma estranha democracia em que as diretrizes partem de cima para baixo. H&aacute; muitos e complexos desafios a nos aguardar neste oceano pelo qual navegamos. O papel do PT &eacute;, finalmente, atuar de forma decisiva para superar as tempestades que vir&atilde;o, mas principalmente balizando a dire&ccedil;&atilde;o do navio.<\/p>\n<p><strong>Jos&eacute; Dirceu, 65 anos, &eacute; advogado, ex-ministro da Casa Civil, membro do Diret&oacute;rio Nacional do PT&nbsp; <br \/>\n<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influ\u00eancia sobre os \u2018movimentos sociais\u2019 ou o \u2018pov\u00e3o\u2019, isto \u00e9, sobre as massas carentes e pouco informadas, falar\u00e3o sozinhos.\u201d Com este trecho, que integrou seu artigo sobre a crise das oposi\u00e7\u00f5es na edi\u00e7\u00e3o passada desta revista, o ex- -presidente Fernando Henrique Cardoso voltou a tentar encontrar um rumo para seu partido no debate pol\u00edtico nacional. <\/p>\n<p>O par\u00e1grafo provocou fortes rea\u00e7\u00f5es negativas de seus aliados. Sem d\u00favida, coloca-se em terreno f\u00e9rtil para uma reflex\u00e3o das oposi\u00e7\u00f5es sobre seu pr\u00f3prio papel e comportamento desde que o PT chegou ao executivo federal e iniciou a sedimenta\u00e7\u00e3o do projeto de transforma\u00e7\u00e3o do Brasil em um pa\u00eds que cresce gerando empregos e distribuindo renda. <\/p>\n<p>Trecho do artigo &#8220;O Papel do PT e da Oposi\u00e7\u00e3o no Brasil&#8221;, de Jos\u00e9 Dirceu. 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