{"id":29114,"date":"2011-08-01T00:00:00","date_gmt":"2011-08-01T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.zecadirceu.com.br\/conta-de-campanha-por-leandro-fortes\/"},"modified":"2011-08-01T00:00:00","modified_gmt":"2011-08-01T03:00:00","slug":"conta-de-campanha-por-leandro-fortes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/conta-de-campanha-por-leandro-fortes\/","title":{"rendered":"Conta de campanha, por Leandro Fortes"},"content":{"rendered":"<p>As v&eacute;speras de encabe&ccedil;ar a lista para a Procuradoria-Geral, Gurgel liberou 210 milh&otilde;es de reais em benef&iacute;cios a colegas<\/p>\n<p>Escolha dos procura&shy;dores-gerais da Rep&uacute;&shy;blica est&aacute; condiciona&shy;da, desde 2003, ao pri&shy;meiro colocado de uma lista tr&iacute;plice eleita pe&shy;los pares do Minist&eacute;&shy;rio P&uacute;blico. Cerca de mil profissionais de&shy;finem, a cada dois anos, quem ir&aacute; ocupar O cargo m&aacute;ximo da carreira. H&aacute; dois me&shy;ses, a presidenta Dilma Rousseff manteve Roberto Gurgel, o mais votado.<\/p>\n<p>Gurgel, contudo, parece n&atilde;o ter con&shy;tado apenas com a admira&ccedil;&atilde;u profis&shy;sional de seus pares para se manter no cargo. Nos meses de dezembro de 2010 e abril de 2011, justamente no periodo de mobiliza&ccedil;&atilde;o eleitoral interna, o che&shy;fe da PGR autorizou o pagamento, em duas parcelas, de cerca de 210 milh&otilde;es de reais a cerca de mil procuradores da Rep&uacute;blica, entre ativos e inativos. O di&shy;nheiro diz respeito a uma decis&atilde;o ad&shy;ministrativa do Supremo Tribunal Fe&shy;deral, de 1999, da lavra do ent&atilde;o minis&shy;tro Nelson Jobim. O ato agregou o be&shy;nef&iacute;cio de aux&iacute;lio-moradia &agrave; chama&shy;da Parcela Aut&ocirc;noma de Equival&ecirc;ncia (PAE), criada em 1992, tamb&eacute;m pelas m&atilde;os de Jobim, para equilibrar os sal&aacute;&shy;rios do Judici&aacute;rio e do Legislativo.<\/p>\n<p>O benef&iacute;cio de aux&iacute;lio-moradia n&atilde;o ha&shy;via sido computado no c&aacute;lculo inicial da PAE, mas acabou inclu&iacute;do por conta de uma a&ccedil;&atilde;o impetrada no STF por associa&shy;&ccedil;&otilde;es de classe de ju&iacute;zes, sob o argumento de que dele usufru&iacute;am os deputados fede&shy;rais. Assim, o Minist&eacute;rio P&uacute;blico se viu na obriga&ccedil;&atilde;o de incluir em seus or&ccedil;amentos federal e estaduais pagamentos retroati&shy;vos referentes ao pe&shy;r&iacute;odo entre setembro de 1994 e dezembro de 1997. O tempo foi defi&shy;nido a partir das cir&shy;cunst&acirc;ncias da lei: o pedido somente poderia retroagir a se&shy;tembro de 1994, como consequ&ecirc;ncia l&oacute;gica do tempo de prescri&ccedil;&atilde;o (cinco anos) das a&ccedil;&otilde;es contra a Fazenda P&uacute;&shy;blica. E dezembro de 1997 passou a ser o limite porque, a partir de janeiro de 1998, o benef&iacute;cio foi revertido em abo&shy;no vari&aacute;vel nos sal&aacute;rios de promotores e procuradores, Brasil afora.<\/p>\n<p>O Minist&eacute;rio P&uacute;blico entrou nessa his&shy;t&oacute;ria por ter sido agraciado pela PAE em 1992, mas sem levar em conta um detalhe legal importante: promotores e procura&shy;dores, por determina&ccedil;&atilde;o da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal de 1988 e, mais tarde, por conta de uma resolu&ccedil;&atilde;o do Conselho Nacional do Minist&eacute;rio P&uacute;blico (CNMP), s&atilde;o obri&shy;gados a morar no local onde trabalham. Logo, aceitaram um benef&iacute;cio irregular.<\/p>\n<p>O fato &eacute; que justamente quando esta&shy;va em campanha de reelei&ccedil;&atilde;o ao cargo, Gurgel come&ccedil;ou a liberar o dinheiro. A primeira parcela, de aproximadamente 60 milh&otilde;es de reais, foi paga em dezem&shy;bro de 2010: cerca de 60 mil a 90 mil reais para cada procurador em servi&ccedil;o entre 1994 e 1997, a depender do tempo de cada um no per&iacute;odo. A segunda parcela, de 150 milh&otilde;es de reais, veio no m&ecirc;s da escolha, mar&ccedil;o passado. No dia 9 de agosto, tanto esse pagamento quanto outras irregula&shy;ridades detectadas na rotina do Minist&eacute;&shy;rio P&uacute;blico ser&atilde;o contestados no CNMP pelo advogado Luiz Moreira, conselheiro indicado pela C&acirc;mara dos Deputados.<\/p>\n<p>Entre os expedientes analisados por Moreira est&aacute; o aux&iacute;lio-alimenta&ccedil;&atilde;o de 630 reais mensais recebidos pelos pro&shy;curadores, proibido pela Emenda Cons&shy;titucional19, de 1998, que impede qual&shy;quer benef&iacute;cio aos integrantes do MP, al&eacute;mdo sal&aacute;rio. Ainda assim, para ga&shy;rantir boas refei&ccedil;&otilde;es aos procuradores, Gurgel referendou, em agosto de 2010, uma portaria de 1996, assinada pelo ex-procurador-geral Geraldo Brindei&shy;ro. Tamb&eacute;m ser&aacute; contestada a instala&shy;&ccedil;&atilde;o da Associa&ccedil;&atilde;o Nacional dos Procu&shy;radores da Rep&uacute;blica (ANPR) na sede da PGR, em Bras&iacute;lia. &quot;Uma entidade privada n&atilde;o pode ficar localizada num pr&eacute;dio p&uacute;blico&quot;, argumenta Moreira. O presidente da ANPR, Alexandre Cama&shy;nho, explica que a associa&ccedil;&atilde;o ocupa as salas gra&ccedil;as a um termo de cess&atilde;o, n&atilde;o paga aluguel, mas arca com todas as de&shy;mais despesas de infraestrutura.<\/p>\n<p>&Eacute; justamente no quesito moradia que a vida de parte dos integrantes do Minist&eacute;rio P&uacute;blico poder&aacute; se com&shy;plicar. Al&eacute;m da norma constitucional, a Resolu&ccedil;&atilde;o nO 26 do CNMP trata da obriga&ccedil;&atilde;o de promotores e procurado&shy;res, em todo o Brasil, morarem nos mu&shy;nic&iacute;pios onde trabalham. A resolu&ccedil;&atilde;o, baixada pelo CNPM em 17 de dezem&shy;bro de 2007, &eacute; uma das mais importan&shy;tes medidas do conselho, criado dois anos antes para exercer o controle ex&shy;terno sobre a categoria. Ainda assim, &eacute; uma regra burlada, em muitos casos.<\/p>\n<p>Pela Resolu&ccedil;&atilde;o 26, apenas o procurador&shy; geral da Rep&uacute;blica pode autorizar os inte&shy;grantes do Minist&eacute;rio P&uacute;blico a trabalhar fora do local de domic&iacute;lio, mesmo assim em situa&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas. Entre elas, quando houver precariedade absoluta de habita&ccedil;&atilde;o na comarca destinada a promo&shy;tores e procuradores, ou quando a segu&shy;ran&ccedil;a do agente do MP estiver comprometida, sobretudo por conta de amea&ccedil;as de morte. Um levantamento feito por Moreia demonstra que uma parcela consi&shy;der&aacute;vel do Minist&eacute;rio P&uacute;blico, sobretudo em inst&acirc;ncias mais avan&ccedil;adas da Rep&uacute;&shy;blica, n&atilde;o d&aacute; bola para a regra. &quot;Viver no lugar onde trabalha &eacute; uma obriga&ccedil;&atilde;o constitucional para o Minist&eacute;rio P&uacute;blico, sem brechas. E um procurador n&atilde;o pode afrontar a Constitui&ccedil;&atilde;o.&quot;<\/p>\n<p>Mas confrontam, mesmo no topo da carreira, como &eacute; o caso de alguns dos 62 . subprocuradores da Rep&uacute;blica lotados no edif&iacute;cio-sede da PGR em Bras&iacute;lia. De acor&shy;do com o levantamento de Moreira, o sub&shy;procurador Juarez Tavares, por exemplo, passa a maior parte do tempo no Rio de Janeiro, onde leciona na universidade es&shy;tadual, a Uerj. Embora, nesse caso, o subprocurador arque com as pr&oacute;prias despe&shy;sas, ainda assim est&aacute; fora da lei. Al&eacute;m de desrespeitar a Constitui&ccedil;&atilde;o e a Resolu&ccedil;&atilde;o 26, Tavares passa por cima de outra reso&shy;lu&ccedil;&atilde;o do CNMP, de junho deste ano, com regras sobre a atividade no magist&eacute;rio. Pela nova resolu&ccedil;&atilde;o. apresentada pe&shy;la conselheira Ta&Iacute;s Ferraz, a doc&ecirc;ncia s&oacute; pode ser exercida no munic&iacute;pio de lota&shy;&ccedil;&atilde;o do promotor ou procurador. Ou se ja, no caso de Tavares, em Bras&iacute;lia. Pode haver uma autoriza&ccedil;&atilde;o especial para au&shy;las fora do local de lota&ccedil;&atilde;o, mas somente quando se tratar de institui&ccedil;&atilde;o de ensino &quot;situada em comarca pr&oacute;xima ou em hi&shy;p&oacute;teses excepcionais&quot;. O Rio fica a 1.174 quil&ocirc;metros de Bras&iacute;lia e, at&eacute; onde se sa&shy;be, dar aula na capital carioca est&aacute; longe de ser uma &quot;hip&oacute;tese excepcional&quot;.<\/p>\n<p>Em Bras&iacute;lia h&aacute; quatro anos, Tavares ga&shy;rante que mora na capital, embora na casa de um amigo, no Lago Sul. Diz manter um apartamento no Rio porque a mulher, ad&shy;vogada, n&atilde;o p&ocirc;de se transferir para o Dis&shy;trito Federal. Ele garante que s&oacute; d&aacute; aulas &agrave;s sextas na Uerj, e que isso n&atilde;o signif&iacute;ca aus&ecirc;ncia do trabalho. &quot;Os subprocurado&shy;res n&atilde;o t&ecirc;m hor&aacute;rios, trabalham por tare&shy;fas.&quot; Tamb&eacute;m nega descumprir as resolu&shy;&ccedil;&otilde;es porque, segundo ele, os subprocura&shy;dores, embora oficiem nos tribunais su&shy;periores de Bras&iacute;lia, n&atilde;o se restringem a comarcas, mas ao &quot;plano nacional&quot;.<\/p>\n<p>Na verdade, esse tipo de expediente est&aacute; t&atilde;o banalizado que at&eacute; o secret&aacute;rio&shy;geral do CNMP, o procurador-regional Jos&eacute; Ad&eacute;rcio Leite Sampaio, est&aacute; na mira do conselho. Lotado em Bras&iacute;lia, ele tem pouco tempo para viver na capital federal. Nas quartas-feiras, diz o levantamento fei&shy;to por Moreira, d&aacute; aula em uma faculdade privada da cidade, o Uniceub. Nas quintas e sextas, leciona em duas faculdades de Belo Horizonte, a Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica (PUC-MG) e a Dom Helder.<\/p>\n<p>Outro procurador-regional em Bras&Iacute;&shy;lia, Jos&eacute; Jairo Gomes, aparece no relat&oacute;&shy;rio do CNMP como professor exemplar, mas longe do TocaI do trabalho. De acordo com o levantamento, Gomes d&aacute; aulas &agrave;s segundas, ter&ccedil;as, quintas e sextas em Be&shy;lo Horizonte, na Universidade Federal de Minas Gerais. Como s&oacute; tem as quartas li&shy;vres para trabalhar em Bras&iacute;lia, ainda n&atilde;o se sabe qual a frequ&ecirc;ncia dele ao trabalho. O mesmo ocorre com Eug&ecirc;nio Pacelli de Oliveira, tamb&eacute;m procurador em Bras&iacute;&shy;lia, mas residente em Belo Horizonte.<\/p>\n<p>Corregedor nacional do MPcommanda&shy;to at&eacute; o dia 9 de agosto, o procurador San&shy;dro Neis garante que tem tentado corri&shy;gir as distor&ccedil;&otilde;es. Segul1do ele, 110S &uacute;ltimos dois anos, a corregedoria realizou a&ccedil;&otilde;es de fiscaliza&ccedil;&atilde;o em seis estados: Piau&iacute;, Amazonas, Par&aacute;, Alagoas, Para&iacute;ba e S&atilde;o Paulo. Curiosamente, nada foi feito em rela&ccedil;&atilde;o a Bras&iacute;lia, onde ficam a PGR, as procurado&shy;rias dos tribunais superiores e autarquias, o CNMP e a pr&oacute;pria corregedoria.<\/p>\n<p>&quot;Existem muitas distor&ccedil;&otilde;es, mas te&shy;mos de lembrar que a maioria dos co&shy;legas trabalha na absoluta legalida&shy;de&quot;, explica Camanho, da ANPR. Essas distor&ccedil;&otilde;es, garante, s&atilde;o fruto da atua&shy;&ccedil;&atilde;o de alguns integrantes do Minist&eacute;&shy;rio P&uacute;blico que t&ecirc;m no magist&eacute;rio uma fonte de renda extra. Segundo ele, em alguns casos, esses ganhos podem che&shy;gar a 30 mil reais por m&ecirc;s, a mais.<\/p>\n<p>A assessoria de imprensa da PGR con&shy;firmou os dep&oacute;sitos das parcelas da PAE, mas n&atilde;o revelou os valores exatos. Informou, ainda, que os pagamentos v&ecirc;m sen&shy;do efetuados desde 2008, e ainda h&aacute; par&shy;celas a serem pagas aos procuradores. So&shy;bre o procurador-regional Gomes, a as&shy;sessoria garante que o procurador Pacelli mora em Bras&iacute;lia e est&aacute; licenciado da Fa&shy;culdade Milton Campos justamente por ter se mudado da capital federal.<\/p>\n<p>Como n&atilde;o h&aacute; cadastro ou transpa&shy;r&ecirc;ncia sobre esses dados, e os endere&ccedil;os completos n&atilde;o foram fornecidos pela PGR, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel saber se as in&shy;forma&ccedil;&otilde;es dizem respeito a resid&ecirc;n&shy;cias fixas ou eventuais. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As v\u00e9speras de encabe\u00e7ar a lista para a Procuradoria-Geral, Gurgel liberou 210 milh\u00f5es de reais em benef\u00edcios a colegas<\/p>\n<p>Escolha dos procura\u00addores-gerais da Rep\u00fa\u00adblica est\u00e1 condiciona\u00adda, desde 2003, ao pri\u00admeiro colocado de uma lista tr\u00edplice eleita pe\u00adlos pares do Minist\u00e9\u00adrio P\u00fablico. 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