{"id":28244,"date":"2011-09-19T00:00:00","date_gmt":"2011-09-19T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.zecadirceu.com.br\/a-verdade-doa-a-quem-doer-por-zeca-dirceu-2\/"},"modified":"2011-09-19T00:00:00","modified_gmt":"2011-09-19T03:00:00","slug":"a-verdade-doa-a-quem-doer-por-zeca-dirceu-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/a-verdade-doa-a-quem-doer-por-zeca-dirceu-2\/","title":{"rendered":"A verdade, doa a quem doer (Por Zeca Dirceu)"},"content":{"rendered":"<p>&ldquo;O que despoja a v&iacute;tima &eacute; o sil&ecirc;ncio&rdquo; &ndash; Jon Sobrino, sacerdote e te&oacute;logo espanhol<\/p>\n<p>&nbsp;Nos pr&oacute;ximos dias, a C&acirc;mara dos Deputados deve votar o projeto de lei que cria a Comiss&atilde;o Nacional da Verdade. Enviado pelo ent&atilde;o presidente Luiz In&aacute;cio Lula da Silva, em 2010, o projeto prev&ecirc; a apura&ccedil;&atilde;o das viola&ccedil;&otilde;es aos direitos humanos no per&iacute;odo compreendido entre 1946 e 1988 &ndash; hiato entre as duas &uacute;ltimas Constitui&ccedil;&otilde;es do Pa&iacute;s. A estrat&eacute;gia &eacute; aprovar, tanto na C&acirc;mara como no Senado, em regime de urg&ecirc;ncia urgent&iacute;ssima, ou seja, sem discutir nas Comiss&otilde;es Parlamentares. A discuss&atilde;o do tema mostra que o Brasil evoluiu &ndash; e muito &ndash; nos &uacute;ltimos anos. E com ele, suas resolu&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>O tema &eacute; delicado. Envolve um per&iacute;odo da vida nacional, principalmente entre 1964 e 1979, quando foi promulgada a Lei da Anistia, em que o pa&iacute;s viveu submerso numa ditadura militar que se caracterizou pela aus&ecirc;ncia de democracia, pela supress&atilde;o dos direitos constitucionais, da censura, persegui&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e repress&atilde;o aos que eram contr&aacute;rios ao regime. A democracia plena s&oacute; ressurgiu em 1985, com a ru&iacute;na da ditadura.<\/p>\n<p>Seu efeito mais imediato foi a elabora&ccedil;&atilde;o de uma nova Carta Magna em 1988. Apesar dos avan&ccedil;os democr&aacute;ticos, algumas cicatrizes deixaram estampadas as marcas de uma a&ccedil;&atilde;o desumana e cruel: a tortura, a morte e o desaparecimento de centenas de brasileiros. Ainda hoje n&atilde;o se sabe o n&uacute;mero exato dessas v&iacute;timas, mas certamente somam-se as centenas.<\/p>\n<p>A Comiss&atilde;o da Verdade busca apenas reparar esses erros. N&atilde;o h&aacute; qualquer sentido de vingan&ccedil;a, de arb&iacute;trio ou de ca&ccedil;a &agrave;s bruxas. Ali&aacute;s, se assim fosse, estar&iacute;amos cometendo o mesmo erro &agrave;s avessas. Mas as fam&iacute;lias e principalmente as v&iacute;timas do arb&iacute;trio merecem respeito. Segundo a psicanalista Maria Rita Kehl, &ldquo;o ressentimento n&atilde;o abate aqueles que foram derrotados na luta e no enfrentamento com o opressor, e sim os que recuaram sem lutar e perdoaram sem exigir repara&ccedil;&atilde;o&rdquo;. &Eacute; justamente isso que a Comiss&atilde;o se prop&otilde;e a fazer a partir de agora.<\/p>\n<p>A experi&ecirc;ncia brasileira n&atilde;o &eacute; nenhuma novidade. Um dos exemplos cl&aacute;ssicos deu-se na &Aacute;frica do Sul ap&oacute;s a queda do apartheid &ndash; o regime de segrega&ccedil;&atilde;o racial que vigorou entre 1948 e 1988 e foi definitivamente enterrado com a elei&ccedil;&atilde;o de Nelson Mandela. A &uacute;nica alternativa para restabelecer a verdade era conhecer os fatos e ouvir dos pr&oacute;prios part&iacute;cipes suas vers&otilde;es. Na Alemanha, ap&oacute;s a queda do Muro de Berlim e a reunifica&ccedil;&atilde;o dos povos, tamb&eacute;m foi necess&aacute;rio reabrir os arquivos da pol&iacute;cia secreta.<\/p>\n<p>Por certo foram cometidos excessos de ambos os lados. No entanto, nada pode ser mais cruel e torturante diante de um trauma social que o sil&ecirc;ncio dos que se dizem vencedores. Restam os filhos mortos de pais vivos; os filhos vivos de pais que nunca se fizeram presentes. &Eacute; preciso que a verdade venha &agrave; tona para, quem sabe, amenizar o sofrimento dos que insistem em conhec&ecirc;-la.<\/p>\n<p>A responsabilidade do Congresso Nacional &eacute; da maior relev&acirc;ncia. Certamente haver&aacute; controv&eacute;rsias e grandes obst&aacute;culos at&eacute; a conclus&atilde;o dos resultados da Comiss&atilde;o, cuja fun&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; julgar, mas coordenar um processo que devolva &agrave;s fam&iacute;lias nada mais do que a verdade. Ou como diria o poeta Thiago de Mello, &ldquo;aos que n&atilde;o sabem conv&eacute;m contar; aos que se esquecem, conv&eacute;m lembrar&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Zeca Dirceu, 33 anos, &eacute; deputado federal pelo PT do Paran&aacute;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos pr\u00f3ximos dias, a C\u00e2mara dos Deputados deve votar o projeto de lei que cria a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade. 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