{"id":27823,"date":"2011-10-11T00:00:00","date_gmt":"2011-10-11T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.zecadirceu.com.br\/o-ze-dirceu-realmente-existente-por-emir-sader\/"},"modified":"2011-10-11T00:00:00","modified_gmt":"2011-10-11T03:00:00","slug":"o-ze-dirceu-realmente-existente-por-emir-sader","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/o-ze-dirceu-realmente-existente-por-emir-sader\/","title":{"rendered":"O Z\u00e9 Dirceu realmente existente, por Emir Sader"},"content":{"rendered":"<p>A guerra fria deixou a boca da direita torta. Se acostumou &agrave; diaboliza&ccedil;&atilde;o de advers&aacute;rios, para tentar passar como agente do bem. Afinal o discurso dos EUA foi constru&iacute;do &ndash; e seria imposs&iacute;vel sem esse mecanismo &ndash; na diaboliza&ccedil;&atilde;o de Stalin, Fidel, Hugo Ch&aacute;vez, Saddam Hussein, Ahmadinejad.<\/p>\n<p>A direita local seguiu os mesmos passos: Get&uacute;lio era seu grande diabo. Populista, ditatorial, corrupto, criptocomunista etc. eram os ep&iacute;tetos. O mais vetusto dos jornal&otilde;es paulista cunhou a express&atilde;o: petebo-castro-comunista para caracterizar o moderado governo de Jo&atilde;o Goulart.<\/p>\n<p>Nos tempos de Lula, a direita brasileira ficou desconcertada. Seu xod&oacute;, o homem mais bem preparado para dirigir o Brasil &ndash; e talvez o mundo &ndash; tinha fracassado, sa&iacute;a do governo enxotado pelo povo e seus eventuais sucessores perderam tr&ecirc;s elei&ccedil;&otilde;es seguidas, enquanto ele se consagrava como o pol&iacute;tico de maior rejei&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s &ndash; rejeitado at&eacute; por seu partido na &uacute;ltima campanha eleitoral.<\/p>\n<p>Impossibilitada de exaltar suas proezas, a direita se dedicou &agrave; diaboliza&ccedil;&atilde;o dos advers&aacute;rios: os fantasmas de Lula e do PT foram alvos privilegiados, como os que os tinham desalojado do governo e amea&ccedil;am prolongar seus mandatos por longo tempo. Haveria que cortar o mal pela raiz.<\/p>\n<p>Se Carlos Lacerda, seu corvo queridinho de outros tempos, tinha dito de JK que n&atilde;o poderia ser candidato, se fosse n&atilde;o poderia ganhar, se ganhasse n&atilde;o poderia tomar posse, a direita renovada nas siglas, mas n&atilde;o em seu arsenal, reiterou as mesmas afirma&ccedil;&otilde;es sobre Lula e o PT.<\/p>\n<p>Essa direita de DNA golpista armou o mais bem-sucedido projeto de marketing com o &ldquo;mensal&atilde;o&rdquo;, que chegou a incutir na mente de muita gente que pol&iacute;ticos entravam todos os meses no Pal&aacute;cio do Planalto munidos de uma mala, entravam em salas cont&iacute;guas &agrave; do presidente da Rep&uacute;blica e sa&iacute;am com malas cheias de dinheiro. Uma imagem que at&eacute; hoje n&atilde;o encontrou confirma&ccedil;&atilde;o na realidade, mas o que conta n&atilde;o &eacute; o que aconteceu, mas a narrativa e a imagina&ccedil;&atilde;o que provocou, acionada pelo impressionismo midi&aacute;tico. O que conta n&atilde;o &eacute; o fato, mas a vers&atilde;o &ndash; na ditadura da m&iacute;dia brasileira.<\/p>\n<p>N&atilde;o conseguiram derrubar Lula, com medo da capacidade de mobiliza&ccedil;&atilde;o popular dele, trataram de fazer com que o governo sangrasse, sem recursos para suas pol&iacute;ticas econ&ocirc;micas, mas fracassaram. Sua sanha voltou-se contra quem representava, por sua trajet&oacute;ria e lideran&ccedil;a pol&iacute;tica, o PT: Jos&eacute; Dirceu. Seu &oacute;dio de classe tomou o PT como seu nome diz: o Partido dos Trabalhadores. Na sua &acirc;nsia de sangue, um dos seus mais consp&iacute;cuos representantes &ndash; governador bi&ocirc;nico do mais sangrento ditador brasileiro &ndash; confessou publicamente o que as elites dizem em privado: queriam ficar livres &ldquo;dessa ra&ccedil;a&rdquo; por trinta anos. Tentavam realizar o que outro pr&oacute;cer da ditadura tinha dito: &ldquo;Um dia o PT tem de ganhar, fracassar, e a&iacute; deixar a gente dirigir com calma este pa&iacute;s&rdquo;.<\/p>\n<p>Jos&eacute; Dirceu pagou a encarna&ccedil;&atilde;o do PT que sua trajet&oacute;ria representa. O &oacute;dio de classe se abateu sobre ele, como vingan&ccedil;a contra o PT, pelo que esse partido os fazia sofrer. Como todo processo de diaboliza&ccedil;&atilde;o, tiveram de reconstruir uma imagem do diabo conforme suas necessidades midi&aacute;ticas. Jos&eacute; Dirceu n&atilde;o era o l&iacute;der estudantil da luta contra a ditadura, n&atilde;o era o preso salvo da pris&atilde;o pela troca pelo embaixador norte-americano, n&atilde;o era o militante clandestino que viveu anos disfar&ccedil;ado para enfrentar o regime que eles ajudaram a se instaurar e apoiaram, n&atilde;o era o grande dirigente que liderou a constru&ccedil;&atilde;o do PT como partido nacional.<\/p>\n<p>Era um diab&oacute;lico articulador do assalto ao Estado por parte de sindicalistas, burocratas partid&aacute;rios, sedentos de apropriar-se das empresas estatais, dos recursos do Or&ccedil;amento, de cargos e prebendas governamentais. Era o modelo acabado da criminaliza&ccedil;&atilde;o do Estado, bandeira maior do neoliberalismo. Foi esse Jos&eacute; Dirceu que eles condenaram, cassando seu mandato em nome da moralidade da Tia Zulmira &ndash; t&atilde;o bem retratada pelo maior cronista da ditadura e da direita, Stanislaw Ponte Preta.<\/p>\n<p>Para recompor a imagem real de dirigente pol&iacute;tico de Jos&eacute; Dirceu, leiam seu livro de artigos. Tempos de Plan&iacute;cie recolhe textos seus sobre temas t&atilde;o diversos, como reforma pol&iacute;tica, comunica&ccedil;&atilde;o e m&iacute;dia, pol&iacute;ticas econ&ocirc;micas, o Brasil no mundo, o papel de um partido como o PT e a fun&ccedil;&atilde;o da esquerda hoje no Brasil, entre tantos outros. Pode-se discordar ou n&atilde;o, mas uma atitude pol&iacute;tica, democr&aacute;tica, pluralista requer o tratamento de um dirigente pol&iacute;tico como defensor de ideias e da sua pr&aacute;tica concreta, e n&atilde;o sua diaboliza&ccedil;&atilde;o, pobre instrumento de disputa com que a direita brasileira se contentou e tem sido fragorosamente derrotada. Ao contr&aacute;rio do que desejavam, o &ldquo;mensal&atilde;o&rdquo; se voltou contra a direita, que acreditou que controlava a opini&atilde;o do povo brasileiro e tem sido continua v&iacute;tima dessa ilus&atilde;o at&eacute; hoje. Aquela vit&oacute;ria de Pirro preparou todas as suas derrotas posteriores.<\/p>\n<p>No livro Jos&eacute; Dirceu expressa com clareza as posi&ccedil;&otilde;es que hoje caracterizam a esquerda realmente existente, essa que soube construir um bloco hegem&ocirc;nico de for&ccedil;as que busca, nas condi&ccedil;&otilde;es concretas da pesada heran&ccedil;a neoliberal, superar esse modelo mercantilizado.<\/p>\n<p>A leitura dos artigos permite acompanhar mais concretamente, em cada conjuntura, os dilemas da esquerda e as alternativas que t&ecirc;m diante de si, que no essencial s&atilde;o as mesmas de hoje: ruptura com a hegemonia do capital financeiro, implementa&ccedil;&atilde;o plena de um modelo de desenvolvimento com distribui&ccedil;&atilde;o de renda &ndash; como reafirma Jos&eacute; Dirceu no correr das p&aacute;ginas.<\/p>\n<p>Mas &eacute; mais f&aacute;cil diaboliz&aacute;-lo do que discutir suas ideias e propostas. Como n&atilde;o podem combater o dirigente de esquerda realmente existente, tentaram destruir o espantalho que constru&iacute;ram. O livro apresenta o Jos&eacute; Dirceu de corpo inteiro, como militante da esquerda, anal&iacute;tico e propositivo. Ler e debater suas ideias &eacute; estar no centro da agenda e das alternativas da esquerda brasileira. No Planalto e na plan&iacute;cie.<\/p>\n<p>(*) Emir Sader &eacute; soci&oacute;logo e cientista pol&iacute;tico, professor da UERJ<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A guerra fria deixou a boca da direita torta. Se acostumou \u00e0 diaboliza\u00e7\u00e3o de advers\u00e1rios, para tentar passar como agente do bem. 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