{"id":15728,"date":"2014-03-31T00:00:00","date_gmt":"2014-03-31T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.zecadirceu.com.br\/deputado-zeca-dirceu-garante-recursos-para-infraestrutura-em-iguatu\/"},"modified":"2024-12-10T17:54:37","modified_gmt":"2024-12-10T20:54:37","slug":"deputado-zeca-dirceu-garante-recursos-para-infraestrutura-em-iguatu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/deputado-zeca-dirceu-garante-recursos-para-infraestrutura-em-iguatu\/","title":{"rendered":"Filhos da resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Como Ulysses, tenho &oacute;dio e nojo da ditadura. Mas n&atilde;o carrego ressentimento. A inf&acirc;ncia incomum me proporcionou valores firmes.<br \/>\nEu estava prestes a completar oito anos de idade quando abracei meu pai pela primeira vez.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">At&eacute; ent&atilde;o, a ditadura nos havia mantido afastados. Meu pai ficou 11 meses sob tortura. Um tempo depois de sair da pris&atilde;o, teve de partir para o ex&iacute;lio, quando minha m&atilde;e j&aacute; estava gr&aacute;vida de mim.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Depois da anistia, ele p&ocirc;de voltar ao Brasil. Foi quando o vi chorar pela primeira vez.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">At&eacute; os tr&ecirc;s anos, n&atilde;o tive endere&ccedil;o permanente &#8211;para escapar da repress&atilde;o, minha m&atilde;e, que tamb&eacute;m militava em grupos de contesta&ccedil;&atilde;o &agrave; ditadura, mudava-se constantemente. Fui, como tantas outras, uma das crian&ccedil;as da resist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Muitos s&atilde;o os significados de ser filho de pais da resist&ecirc;ncia, separados pela ditadura. Em primeiro lugar, por for&ccedil;a das circunst&acirc;ncias, ganhei uma consci&ecirc;ncia pol&iacute;tica de maneira t&atilde;o precoce quanto natural. Desde muito cedo, tinham de me explicar o que era ditadura, o que era a luta pela democracia, para compreender a dist&acirc;ncia do meu pai.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Aos quatro anos de idade, minha av&oacute; paterna me ensinou a ler e a escrever para poder me comunicar com meu pai. Nas cartas e presentes que chegavam, vivi um pouco da sua vida no exterior. Soube que ele falava outra l&iacute;ngua, convivia com outra realidade e fui informado de que tinha ganhado uma madrasta americana, um irm&atilde;o e depois outro. Pude abra&ccedil;ar minha madrasta anos antes de poder abra&ccedil;ar meu pai e meus irm&atilde;os.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Nas cartas que enviava, dividi com ele minha inf&acirc;ncia no Butant&atilde;, o bom desempenho escolar, o fim dos 23 anos de fila do Corinthians no Campeonato Paulista de 1977 e as f&eacute;rias no litoral com minha m&atilde;e e meu padrasto. Sabia que essa separa&ccedil;&atilde;o entre pai e filho era consequ&ecirc;ncia de um regime ditatorial, que nos priva da liberdade, que persegue e mata quem tem ideias diferentes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Tamb&eacute;m vivi hist&oacute;rias engra&ccedil;adas. Nos comunic&aacute;vamos muitas vezes por fitas cassetes, que amigos levavam e traziam. Foi assim que ouvi pela primeira vez a voz dos meus irm&atilde;os e eles a minha.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Um dia, quando j&aacute; tinha mais de dez anos e meu pai tinha voltado para o Brasil, estava jogando bola no quintal da casa da minha av&oacute;, meu irm&atilde;o mais novo perguntou: &quot;&Ocirc;, Alexandre, como voc&ecirc; jogava futebol quando vivia naquela caixinha?&quot;. A caixinha era o gravador e, na inoc&ecirc;ncia de um garoto de quatro anos, era l&aacute; que o irm&atilde;o dele morava, porque era daquele alto falante que sa&iacute;a a sua voz.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Como outras crian&ccedil;as da resist&ecirc;ncia, tive o privil&eacute;gio de ter uma fam&iacute;lia muito ampla. Tenho incont&aacute;veis tios da resist&ecirc;ncia &#8211;aqueles solid&aacute;rios amigos e amigas da minha m&atilde;e e do meu pai. Eram pessoas que se arriscavam para levar e trazer essas cartas e fitas cassetes, sabedores do valor do di&aacute;logo entre um pai e seu filho, entre os irm&atilde;os, entre as fam&iacute;lias. Gente que nos acolhia com afeto, que nos protegia nas piores horas porque compartilhava o sentimento de viver perseguido, censurado, agredido. Sou grato a eles.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Como o doutor Ulysses Guimar&atilde;es, tamb&eacute;m tenho &oacute;dio e nojo da ditadura. Mas n&atilde;o carrego ressentimento. Conto essas hist&oacute;rias com leveza. Tive uma inf&acirc;ncia incomum, e ela me proporcionou valores firmes: acredito nos benef&iacute;cios do di&aacute;logo, na liberdade de imprensa e opini&atilde;o, na possibilidade das pessoas reverem suas posi&ccedil;&otilde;es, no valor dos partidos, na capacidade transformadora da sociedade civil.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Vivi a campanha da anistia, as Diretas-J&aacute; e fui &agrave;s ruas como l&iacute;der estudantil cara-pintada para tirar um presidente da Rep&uacute;blica do poder pela for&ccedil;a da democracia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Ao lutar pela democracia, meus pais ergueram biografias que os engrandecem. Tenho orgulho da vit&oacute;ria que eles ajudaram a construir.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Alexandre Padilha,42, &eacute; m&eacute;dico. Foi ministro Rela&ccedil;&otilde;es Institucionais (governo Lula) e ministro da Sa&uacute;de (governo Dilma Rousseff)<br \/>\nPublicado na Folha de S. Paulo em 27\/03\/2014<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como Ulysses, tenho \u00f3dio e nojo da ditadura. Mas n\u00e3o carrego ressentimento. A inf\u00e2ncia incomum me proporcionou valores firmes. 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