{"id":14193,"date":"2013-09-22T00:00:00","date_gmt":"2013-09-22T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.zecadirceu.com.br\/zeca-dirceu-entrega-equipamentos-para-produtores-de-leite-em-diamante-do-norte\/"},"modified":"2024-12-10T18:02:59","modified_gmt":"2024-12-10T21:02:59","slug":"zeca-dirceu-entrega-equipamentos-para-produtores-de-leite-em-diamante-do-norte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teste.bsb.br\/zeca\/zeca-dirceu-entrega-equipamentos-para-produtores-de-leite-em-diamante-do-norte\/","title":{"rendered":"Dirceu foi condenado sem provas, diz Ives Gandra"},"content":{"rendered":"<p><strong style=\"line-height:1.6em\">M&Ocirc;NICA BERGAMO<\/strong><\/p>\n<p><strong>COLUNISTA DA FOLHA<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O ex-ministro Jos&eacute; Dirceu foi condenado sem provas. A teoria do dom&iacute;nio do fato foi adotada de forma in&eacute;dita pelo STF (Supremo Tribunal Federal) para conden&aacute;-lo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sua ado&ccedil;&atilde;o traz uma inseguran&ccedil;a jur&iacute;dica &quot;monumental&quot;: a partir de agora, mesmo um inocente pode ser condenado com base apenas em presun&ccedil;&otilde;es e ind&iacute;cios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quem diz isso n&atilde;o &eacute; um petista fiel ao principal r&eacute;u do mensal&atilde;o. E sim o jurista Ives Gandra Martins, 78, que se situa no polo oposto do espectro pol&iacute;tico e divergiu &quot;sempre e muito&quot; de Dirceu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com 56 anos de advocacia e dezenas de livros publicados, inclusive em parceria com alguns ministros do STF, Gandra, professor em&eacute;rito da Universidade Mackenzie, da Escola de Comando e Estado-Maior do Ex&eacute;rcito e da Escola Superior de Guerra, diz que o julgamento do esc&acirc;ndalo do mensal&atilde;o tem dois lados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um deles &eacute; positivo: abre a expectativa de &quot;um novo pa&iacute;s&quot; em que pol&iacute;ticos corruptos seriam punidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O outro &eacute; ruim e perigoso pois a corte teria abandonado o princ&iacute;pio fundamental de que a d&uacute;vida deve sempre favorecer o r&eacute;u.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Folha &#8211; O senhor j&aacute; falou que o julgamento teve um lado bom e um lado ruim. Vamos come&ccedil;ar pelo primeiro.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ives Gandra Martins <\/strong>&#8211; O povo tem um desconforto enorme. Acha que todos os pol&iacute;ticos s&atilde;o corruptos e que a impunidade reina em todas as esferas de governo. O mensal&atilde;o como que abriu uma janela em um ambiente fechado para entrar o ar novo, em um novo pa&iacute;s em que haveria a puni&ccedil;&atilde;o dos que praticam crimes. Esse &eacute; o lado indiscutivelmente positivo. Do ponto de vista jur&iacute;dico, eu n&atilde;o aceito a teoria do dom&iacute;nio do fato.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Por qu&ecirc;?<\/strong><\/p>\n<p>Com ela, eu passo a trabalhar com ind&iacute;cios e presun&ccedil;&otilde;es. Eu n&atilde;o busco a verdade material. Voc&ecirc; tem pessoas que trabalham com voc&ecirc;. Uma delas comete um crime e o atribui a voc&ecirc;. E voc&ecirc; n&atilde;o sabe de nada. N&atilde;o h&aacute; nenhuma prova sen&atilde;o o depoimento dela &#8211; e basta um s&oacute; depoimento. Como voc&ecirc; &eacute; a chefe dela, pela teoria do dom&iacute;nio do fato, est&aacute; condenada, voc&ecirc; deveria saber. Todos os executivos brasileiros correm agora esse risco. &Eacute; uma inseguran&ccedil;a jur&iacute;dica monumental. Como um velho advogado, com 56 anos de advocacia, isso me preocupa. A teoria que sempre prevaleceu no Supremo foi a do &quot;in dubio pro reo&quot; &#91;a d&uacute;vida favorece o r&eacute;u].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Houve uma mudan&ccedil;a nesse julgamento?<\/strong><\/p>\n<p>O dom&iacute;nio do fato &eacute; novidade absoluta no Supremo. Nunca houve essa teoria. Foi inventada, tiraram de um autor alem&atilde;o, mas tamb&eacute;m na Alemanha ela n&atilde;o &eacute; aplicada. E foi com base nela que condenaram Jos&eacute; Dirceu como chefe de quadrilha &#91;do mensal&atilde;o]. Ali&aacute;s, pela teoria do dom&iacute;nio do fato, o maior benefici&aacute;rio era o presidente Lula, o que vale dizer que se trouxe a teoria pela metade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O dom&iacute;nio do fato e o &quot;in dubio pro reo&quot; s&atilde;o excludentes?<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; possibilidade de conviv&ecirc;ncia. Se eu tiver a prova material do crime, eu n&atilde;o preciso da teoria do dom&iacute;nio do fato &#91;para condenar].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E no caso do mensal&atilde;o?<\/strong><\/p>\n<p>Eu li todo o processo sobre o Jos&eacute; Dirceu, ele me mandou. N&oacute;s nos conhecemos desde os tempos em que debat&iacute;amos no programa do Ferreira Netto na TV &#91;na d&eacute;cada de 1980]. Eu me dou bem com o Z&eacute;, apesar de termos divergido sempre e muito. N&atilde;o h&aacute; provas contra ele. Nos embargos infringentes, o Dirceu dificilmente vai ser condenado pelo crime de quadrilha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O &quot;in dubio pro reo&quot; n&atilde;o serviu historicamente para justificar a impunidade?<\/strong><\/p>\n<p>Facilita a impunidade se voc&ecirc; n&atilde;o conseguir provar, indiscutivelmente. O Minist&eacute;rio P&uacute;blico e a pol&iacute;cia t&ecirc;m que ter solidez na acusa&ccedil;&atilde;o. &Eacute; mais dif&iacute;cil. Mas eles t&ecirc;m instrumentos para isso. Agora, num regime democr&aacute;tico, evita muitas injusti&ccedil;as diante do poder. A Constitui&ccedil;&atilde;o assegura a ampla defesa -ampla &eacute; adjetivo de uma densidade impressionante. Todos pensam que o processo penal &eacute; a defesa da sociedade. N&atilde;o. Ele objetiva fundamentalmente a defesa do acusado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E a sociedade?<\/strong><\/p>\n<p>A sociedade j&aacute; est&aacute; se defendendo tendo todo o seu aparelho para condenar. O que n&oacute;s temos que ter no processo democr&aacute;tico &eacute; o direito do acusado de se defender. Ou a sociedade faria justi&ccedil;a pelas pr&oacute;prias m&atilde;os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Discutiu-se muito nos &uacute;ltimos dias sobre o clamor popular e a press&atilde;o da m&iacute;dia sobre o STF. O que pensa disso?<\/strong><\/p>\n<p>O ministro Marco Aur&eacute;lio &#91;Mello] deu a entender, no voto dele &#91;contra os embargos infringentes], que houve essa press&atilde;o. Mas o pr&oacute;prio Marco Aur&eacute;lio nunca deu aten&ccedil;&atilde;o &agrave; m&iacute;dia. O &#91;ministro] Gilmar Mendes nunca deu aten&ccedil;&atilde;o &agrave; m&iacute;dia, sempre votou como quis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eles est&atilde;o preocupados, na verdade, com a rea&ccedil;&atilde;o da sociedade. Nesse caso se discute pela primeira vez no Brasil, em profundidade, se os pol&iacute;ticos desonestos devem ou n&atilde;o ser punidos. O fato de ter juntado 40 r&eacute;us e se transformado num caso pol&iacute;tico tornou o julgamento paradigm&aacute;tico: vamos ou n&atilde;o entrar em uma nova era? E o Supremo sentiu o peso da decis&atilde;o. Tudo isso influenciou para a ado&ccedil;&atilde;o da teoria do dom&iacute;nio do fato.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Algum ministro pode ter votado pressionado?<\/strong><\/p>\n<p>Normalmente, eles n&atilde;o deveriam. Eu n&atilde;o saberia dizer. Teria que perguntar a cada um. &Eacute; poss&iacute;vel. Eu diria que indiscutivelmente, gra&ccedil;as &agrave; televis&atilde;o, o Supremo foi colocado numa posi&ccedil;&atilde;o de muitas vezes representar tudo o que a sociedade quer ou o que ela n&atilde;o quer. Eles est&atilde;o na verdade &eacute; na berlinda. A televis&atilde;o p&otilde;e o Supremo na berlinda. Mas eu creio que cada um deles decidiu de acordo com as suas convic&ccedil;&otilde;es pessoais, em que pode ter entrado inclusive convic&ccedil;&otilde;es tamb&eacute;m de natureza pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Foi um julgamento pol&iacute;tico?<\/strong><\/p>\n<p>Pode ter alguma conota&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. Ali&aacute;s o Marco Aur&eacute;lio deu bem essa conota&ccedil;&atilde;o. E o Gilmar tamb&eacute;m. Disse que esse &eacute; um caso que abala a estrutura da pol&iacute;tica. Os tribunais do mundo inteiro s&atilde;o cortes pol&iacute;ticas tamb&eacute;m, no sentido de manter a estabilidade das institui&ccedil;&otilde;es. A fun&ccedil;&atilde;o da Suprema Corte &eacute; menos fazer justi&ccedil;a e mais dar essa estabilidade. Todos os ministros t&ecirc;m suas posi&ccedil;&otilde;es, pol&iacute;ticas inclusive.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Isso conta na hora em que eles v&atilde;o julgar?<\/strong><\/p>\n<p>Conta. Como nos EUA conta. Mas, na pr&aacute;tica, os ministros est&atilde;o sempre acobertados pelo direito. S&atilde;o todos grandes juristas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como o senhor v&ecirc; a atua&ccedil;&atilde;o do ministro Ricardo Lewandowski, relator do caso?<\/strong><\/p>\n<p>Ele ficou exatamente no direito e foi sacrificado por isso na popula&ccedil;&atilde;o. Mas foi mantendo a postura, com tranquilidade e integridade. Na comunidade jur&iacute;dica, continua bem visto, como um homem com a coragem de ter enfrentado tudo sozinho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E Joaquim Barbosa?<\/strong><\/p>\n<p>&Eacute; extremamente culto. No tribunal, &eacute; duro e &agrave;s vezes indelicado com os colegas. At&eacute; o governo Lula, os ministros tinham debates duros, mas extremamente respeitosos. Agora, n&atilde;o. Mudou um pouco o estilo. Houve uma mudan&ccedil;a de perfil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Em que sentido?<\/strong><\/p>\n<p>Sempre houve, em outros governos, um intervalo de tr&ecirc;s a quatro anos entre a nomea&ccedil;&atilde;o dos ministros. Os novos se adaptavam &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o do Supremo. Na era Lula, nove se aposentaram e foram substitu&iacute;dos. A mudan&ccedil;a foi r&aacute;pida. O Supremo tinha uma tradi&ccedil;&atilde;o que era seguida. Agora, s&atilde;o 11 unidades decidindo individualmente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E que tradi&ccedil;&atilde;o foi quebrada?<\/strong><\/p>\n<p>A tradi&ccedil;&atilde;o, por exemplo, de nunca invadir as compet&ecirc;ncias &#91;de outro poder] n&atilde;o existe mais. O STF virou um legislador ativo. Pelo artigo 49, inciso 11, da Constitui&ccedil;&atilde;o, Congresso pode anular decis&otilde;es do Supremo. E, se houver um conflito entre os poderes, o Congresso pode chamar as For&ccedil;as Armadas. &Eacute; um risco que tem que ser evitado. Pela tradi&ccedil;&atilde;o, num julgamento como o do mensal&atilde;o, eles julgariam em fun&ccedil;&atilde;o do &quot;in dubio pro reo&quot;. Pode ser que reflua e que o Supremo volte a ser como era antigamente. &Eacute; poss&iacute;vel que, para outros &#91;julgamentos], voltem a adotar a teoria do &quot;in dubio pro reo&quot;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Por que o senhor acha isso?<\/strong><\/p>\n<p>Porque a teoria do dom&iacute;nio do fato traz inseguran&ccedil;a para todo mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: Folha de S&atilde;o Paulo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista muito interessante na Folha do grande jurista Ives Gandra Martins, mostrando que a teoria do dom\u00ednio do fato traz inseguran\u00e7a para toda a sociedade. 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