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Qual o papel social das cooperativas paranaenses?

Bela reportagem produzida pelo site de jornalismo participativo Megafone sobre o papel social das cooperativas agrícolas do Paraná. A matéria apresenta um panorama geral, em números, sobre os investimentos feitos pelas cooperativas e a ‘obrigatoriedade’ de ampliar-se o retorno e o apoio social dessas entidades com a diversificação de projetos no estado. Leiam reportagem na íntegra

As cooperativas agrícolas do Paraná retornaram mais de R$ 40 milhões em investimentos sociais, segundo o último balanço divulgado pela Ocepar em 2008. Os investimentos se concentraram principalmente em questões relacionadas ao meio ambiente.

Desse montante, mais de R$ 10 milhões foram aplicados em programas de reflorestamento ambiental; R$ 9 milhões no combate à poluição do ar; R$ 8 milhões em novas fontes de energia renovável; outros R$ 6 milhões na melhoria da qualidade da água e no tratamento de efluentes, entre outros investimentos.

Os investimentos aplicados à sociedade (pouco mais de R$ 40 milhões) parecem significativos, entretanto representam uma ínfima parte do capital de giro assegurado no mesmo ano pela safra agropecuária no Paraná. Naquele ano, 2008, as cooperativas faturaram R$ 22 bilhões. Os valores ainda cresceram em 2009 (R$ 25 bilhões) e em 2010, com novo recorde (28 bilhões). A meta para 2011 é elevar o lucro orbital para R$ 30 bilhões.

De todo faturamento e esse potencial de demanda de recursos, o que de fato retorna para a sociedade? Segundo dados da própria Ocepar, de 2001 a 2010, quase R$ 8 bilhões foram investidos pelas associadas nas áreas de tecnologia, infraestrutura e indústrias. Todos os investimentos, entretanto, atingiram especificamente a própria estruturação do grupo de cooperativas e não necessária ou diretamente à sociedade.

Investimentos – O retorno é confirmado pelo presidente da Ocepar, João Paulo Koslovski. Segundo ele, em 2011, será investido R$ 1,3 bilhão, 28,6% mais que em 2010, basicamente na industrialização.

Cerca de R$ 900 milhões serão destinados a projetos agroindustriais, o equivalente a 70% do total, e R$ 400 milhões serão usados para melhorar a estrutura de recebimento e armazenagem de grãos, na aquisição de veículos e equipamentos e em inovações tecnológicas.

Retorno social – Boa parte dos R$ 40 milhões de investimento social e ambiental não se originou das receitas obtidas pelos grupos cooperados. 

Os recursos, todavia, partiram de vários programas governamentais e de instituições financeiras nacionais. Em 2009, o retorno social assegurado pelas cooperativas também não saiu propriamente do bolso dos cooperados, mas, novamente, de programas, fundos constitucionais e instituições do estado.

Programas – Naquele ano, grande parte dos recursos, R$ 10 milhões, proveio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Os outros R$ 4 milhões advieram de programas de incentivo agrícola e social, como o Moderfrota, o Prodecoop e o Produsa, entre mais linhas de apoio financeiro.

O setor cooperativista tem cooptado, no entanto, partes quase insignificantes referentes aos contratos de financiamento promovidos pelo BNDES no Paraná. Para quantificar, em 2010, as empresas paranaenses, em todas as esferas, receberam R$ 9,5 bilhões em crédito, valor 43% superior aos R$ R$ 6,7 bilhões contraídos no período de janeiro a novembro de 2009.

"O balanço mostra que as empresas aproveitaram o cenário de retomada da economia e usaram as linhas do BNDES para voltar a investir", afirma Andrezza Oikawa Rocha, coordenadora de fomento da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep).

A maior parte das operações financeiras do banco, 21 mil, dirigiu-se aos setores de serviços e comércio. O segmento de infraestrutura teve 15 mil operações, seguido pela agropecuária, com 14 mil, e a indústria, com 10 mil.

Responsabilidade – As cooperativas paranaenses desempenham um papel fundamental e de extrema responsabilidade social. A análise é do sociólogo e professor da Unioeste José Afonso de Oliveira.

Segundo ele, hoje, as cooperativas geram cerca de 1,3 milhões de postos de ocupação. Em 2009, por exemplo, cita Oliveira, somente os investimentos com indicadores sociais das cooperativas paranaenses somaram R$ 3,2 bilhões, representando 12,8% da receita bruta daquele ano.

Parcerias –
Para o sociólogo, esses investimentos ainda devem estender-se, acompanhando a evolução do faturamento das cooperativas. As cooperativas agrupam 535 mil associados ao Sistema Ocepar, que reúne três sociedades distintas, sem fins lucrativos: Ocepar, Sescoop Paraná e Feccopar.

Por meio de uma estreita parceria, as entidades atuam na representação, desenvolvimento, capacitação e promoção social das cooperativas paranaenses.
Essa rede engloba 238 cooperativas que procuram organizar estruturas comuns para a compra e venda da produção, além de suprirem suas necessidades de consumo e crédito através de sociedades cooperativistas.

“Em algumas décadas, as cooperativas paranaenses expandiram as fronteiras agrícolas e passaram a desenvolver-se também no meio urbano, principalmente nas áreas da saúde, trabalho, serviços, crédito, consumo, educação e habitação”, analisou o sociólogo.

Projetos –
Por conta desse avanço, o professor Afonso acredita que as cooperativas precisam ampliar as ações de responsabilidade social no Paraná, como forma de retorno e agradecimento à população paranaense.

Um exemplo, diz ele, são os investimentos ambientais por meio de programas educativos, projetos de recuperação de mata ciliar, tratamento de efluentes, coleta seletiva de lixo e reflorestamento, entre outros. “O empenho em benefício do meio ambiente deve extrapolar a exigência da lei, com a intenção de melhorar a sustentabilidade nos setores de atuação das cooperativas”, avalia.

Para o sociólogo, a responsabilidade social das cooperativas precisa voltar-se ainda a projetos culturais, artísticos, de lazer, saúde e às questões assistenciais, bem como em novos projetos e tecnologias para melhorar os processos produtivos e agregar valor aos produtos e serviços dos cooperados. “É fundamental ampliar a responsabilidade das cooperativas para todas as áreas da sociedade paranaense”, conclui Afonso de Oliveira.

Desenvolvimento – O Paraná abriga a maior cooperativa agroindustrial do mundo, a Coamo. A empresa reúne 22,7 mil produtores rurais em todo o Estado. Somente, em 2010, a cooperativa faturou R$ 5 bilhões. Para efeito comparativo, a soma é maior que receita anual da prefeitura de Curitiba (R$ 4,66 bilhões) e superior às vendas da divisão brasileira da Bayer CropScience (R$ 3,8 bilhões).

Além disso, a cooperativa responde sozinha por 16% da safra paranaense e por 4% da nacional. Nas terras dos associados, o cultivo de soja, milho e trigo em quatro milhões de hectares geraram 5,5 milhões de toneladas de grãos.

Mundo – Com a venda de commodities nas bolsas de Chicago e Londres e a industrialização de grãos para o mercado interno, a cooperativa decolou do interior do Paraná para o mundo.

“Hoje, graças a expansão comercial, a cooperativa permite que o produtor venda a produção em qualquer época, aproveitando os preços”, disse o presidente e fundador da Coamo, José Aroldo Gallassini.

Mas a explosão financeira da cooperativa e do agronegócio pode trazer um custo elevado à sociedade e ao meio ambiente, em especial. O coordenador do MST, João Pedro Stedile, em artigo à Revista “Caros Amigos”, apontou alguns problemas como a concentração da maior parte do lucro nas mãos de grandes latifundiários e a expansão irrestrita da monocultura das lavouras. “O agronegócio se baseia na produção em grande escala, em lavouras de monocultivo, e as cooperativas são as promotoras desse desatino”, alertou.

Segundo ele, cerca de 80% das terras utilizadas pelo agronegócio se destinam a apenas quatro produtos: soja, milho, cana e pecuária bovina. E grande parte dessa produção vai para exportação.

Resultado – De acordo com um estudo divulgado pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), as cooperativas do país obtiveram um bom resultado nas exportações do primeiro semestre de 2010, que cresceram depois da retomada de parcerias comerciais e da recuperação dos preços das commodities no mercado internacional.

O faturamento das cooperativas ficou próximo dos US$ 2 bilhões nos primeiros seis meses deste ano. O setor sucroalcooleiro foi o que mais faturou: US$ 749 milhões. Em seguida vem o açúcar refinado, açúcar bruto e álcool etílico comUS$ 388 milhões, US$ 245 milhões e US$ 115 milhões respectivamente.

(www.megafone.inf.br – Pedro Lichtnow)

 

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