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Mãos sujas de sangue

O Última Hora apoiava Getúlio, mas não abriu mão de apuro e respeito aos fatos. Isso afrontava a imprensa elitista na época, que se sentia no direito de conspirar contra governos legítimos. Pena, é assim até hoje.

Dia 2 de fevereiro de 1951.
 
Palácio Rio Negro, Petrópolis.
 
Primeira reunião do ministério de Getúlio Vargas, recém-eleito, na qual seriam anunciadas as diretrizes centrais do novo governo.
 
Só dois jornalistas presentes: um repórter da Agência Nacional e Samuel Wainer. Iniciava-se, com ferocidade, a conspiração do silêncio da grande imprensa contra Getúlio. O silêncio ensurdecedor foi o primeiro movimento, não o último.
 
Getúlio certamente percebeu.
 
Fim da reunião, Wainer é convidado a ficar e jantar com a família.
 
Terminado o jantar, é chamado por Getúlio à sala de despachos, vasto salão que o presidente usava para conversas reservadas. Falava sempre entre baforadas de charuto e caminhadas de um lado para outro. Iniciou a conversa com rememorações.
 
– Tu te lembras de uma frase que disseste no dia em que começamos a campanha?
 
– Não, presidente – respondeu Wainer.
Getúlio puxou-lhe pela memória:
 
– Era uma frase sobre jornalismo.
 
Wainer lembrou-se. Voava com o presidente do Rio de Janeiro para o Amazonas e lhe disse:
 
– Presidente, a imprensa pode não ajudar a ganhar, mas ajuda a perder.
 
Dissera mais:
 
– Perceba que sou o único jornalista destacado para cobrir sua campanha. Note que a do brigadeiro Eduardo Gomes mobiliza pequenas multidões de repórteres e fotógrafos. Toda a grande imprensa está contra sua candidatura.
 
– Não preciso da grande imprensa para ganhar – retrucou Getúlio na conversa a bordo do avião.
 
O presidente pensava em Franklin Roosevelt, que nunca tivera apoio dos jornais americanos e sempre vencera as eleições. Pensou e disse.
 
Wainer ponderou:
 
– Presidente, ao contrário do que ocorre em países como os Estados Unidos, no Brasil a imprensa tem um fortíssimo poder de manipulação sobre a opinião pública. Não é fácil enfrentá-la.
 
E completou com a frase que o presidente pretendia que ele lembrasse:
 
– A imprensa pode não ajudar a ganhar, mas ajuda a perder.
 
Getúlio, entre as baforadas de charuto e as passadas pelo salão, perguntou:
 
– Tu reparaste que hoje não veio ninguém cobrir a reunião?
 
– Claro que reparei. Hoje foi desencadeada a conspiração do silêncio.
 
E Wainer acrescentou, ainda:
 
– O senhor só vai aparecer nos jornais quando houver algo negativo a noticiar. Essa é uma tática normal da oposição, e a mais devastadora.
 
O presidente não parava de caminhar, e fumava seu charuto, e queria dizer alguma coisa conclusiva, e disse:
 
– Por que tu não fazes um jornal?
 
Wainer, perplexo, e feliz, reagiu:
 
– Presidente, isso é o maior sonho de um repórter como eu. Não seria difícil editar uma publicação que defendesse o pensamento de um governante como o senhor, que tem o perfil de um autêntico líder popular.
 
Getúlio foi taxativo:
 
– Então, faça.
 
Wainer perguntou:
 
– O senhor quer saber como faria?
 
– Não – Getúlio respondeu prontamente.
 
E acrescentou:
 
– Troque ideias com a Alzira e faça rápido.
 
– Em 45 dias, dou um jornal ao senhor – reagiu Wainer.
 
– Então, boa noite, Profeta.
 
– Boa noite, presidente.

Fonte: Artigo publicado por Emiliano José no Carta Maior
Foto: Internet

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