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Leia o artigo “O ovo da serpente”, de Zé Dirceu

Ao que tudo indica, a decisão do Copom de elevar a taxa Selic não foi uma medida pontual, mas sim o tiro de largada de novo ciclo de alta dos juros, para forçar a inflação a retroceder dos atuais 5,9% a um valor mais próximo do centro da meta anual de 4,5%. A palavra "inflação" tem impacto devastador na memória do brasileiro e é com isso que jogam os agentes do mercado para sustentar a campanha de alta da Selic toda véspera de reunião do Copom. Mas a tentativa de controlar a inflação via Selic pode ser mais que um remédio amargo, pode ser uma escolha equivocada. trecho do artigo "O ovo da serpente", de Zé Dirceu, publicado no Brasil Econômico de 27 de janeiro de 2011. Leia a seguir a sua íntegra.

O ovo da serpente 

Zé Dirceu

Ao que tudo indica, a decisão do Copom de elevar a taxa Selic não foi uma medida pontual, mas sim o tiro de largada de novo ciclo de alta dos juros, para forçar a inflação a retroceder dos atuais 5,9% a um valor mais próximo do centro da meta anual de 4,5%.

A palavra "inflação" tem impacto devastador na memória do brasileiro e é com isso que jogam os agentes do mercado para sustentar a campanha de alta da Selic toda véspera de reunião do Copom. Mas a tentativa de controlar a inflação via Selic pode ser mais que um remédio amargo, pode ser uma escolha equivocada.

Tenho insistido haver uma distinção clara entre a inflação que experimentamos, que oscila para além da meta, e a inflação descontrolada – ocorrida nos anos 1980 e 1990, que resulta de desarranjos econômicos generalizados.

No caso atual, há forte componente sazonal, como a ampliação do preço dos produtos agrícolas devido a fenômenos climáticos.

Alguns sustentam que a alta internacional das commodities não é temporária, mas permanente.

De todo modo, uma Selic maior não terá impactos sobre essa variável. Ademais, parte das pressões inflacionárias vem do "crescimento" dos últimos 15 meses, fruto das acertadas políticas anticíclicas de combate à crise de 2009, que geraram empregos, injetaram crédito na economia e estimularam o consumo. Os indicadores apontam que essa demanda começa a se arrefecer.

Aliás, o próprio Banco Central, em um de seus relatórios, avaliou que manter os juros no patamar anterior não teria consequências graves nos próximos dois anos: com a taxa a 10,75% e o dólar estável em torno de R$ 1,70, a inflação alcançaria 5% ao fim de 2011 e 4,8% em 2012.

Ou seja, nem o próprio BC trabalha com um cenário de descontrole inflacionário, o que nos faz questionar a razão que levou o Copom a aumentar a Selic e sinalizar novos aumentos. Parece um contrassenso tomar medidas para evitar um problema que se avalia nem existir.

A alta dos juros se mostra desconectada da realidade. Não dialoga com recentes medidas para limitar o crédito de curto prazo e a ação sobre o mercado futuro.

Causa também arrepios o impacto assustador que cada ponto percentual da Selic representa na dívida pública: R$ 15 bilhões, mais do que todo o orçamento de um ano do Bolsa Família. Atrai ainda mais dólares especulativos, impactando negativamente no câmbio e criando obstáculos ao setor exportador.

Nos últimos anos, vimos o Brasil fortalecer e ampliar seu mercado interno, tornando-se, de fato, uma economia emergente.

O que nos cabe, agora, é fazer as mudanças estruturais para ampliar nossa produção e atender a esse mercado interno: reforma tributária; estímulo à indústria; desburocratização e desindexação da economia; avançar em inovação e tecnologia; e promover as profundas transformações de nossa rede de infraestrutura previstas nos PACs.

Em outras palavras, nosso caminho é crescer de forma sustentada. Elevar os juros, no entanto, cria obstáculos a esse objetivo. Estamos chocando o ovo da serpente.

José Dirceu é advogado, ex-ministro da Casa Civil e membro do Diretório Nacional do PT  – artigo publicado no Brasil Econômico de 27 de janeiro de 2011.

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