Cresci com o exemplo do meu pai de lutar pelo Brasil
O deputado Zeca Dirceu, 35 anos, não viveu o período da ditadura, não viu o Golpe de 64, mas cresceu no lar de um dos protagonistas da luta pela democratização do Brasil, o ex-deputado José Dirceu.
O deputado Zeca Dirceu (PT-PR), 35 anos, não viveu o período da ditadura, não viu o Golpe de 64, mas cresceu no lar de um dos protagonistas da luta pela democratização do Brasil, o ex-deputado José Dirceu (SP). Compreendeu muito cedo que o povo é capaz de ser o agente das suas próprias transformações, que era possível mudar o País, melhorar a vida das pessoas. E isso foi o seu combustível. “Eu, na verdade, cresci como um jovem que não viveu naquela época, mas que tinha todas as referências e perspectivas do que aconteceu. Talvez, até por isso, entrei prematuramente para a militância estudantil e política”.
Pelo seu DNA político, ele, que não sofreu as perseguições da ditadura, tem enfrentado patrulhamentos na sua vida pública, principalmente nas duas vezes em que foi prefeito de Cruzeiro do Oeste (PR). “Eu sabia que não poderia cometer nenhum pequeno erro porque ele se transformaria em um erro de repercussão nacional”.
Emocionado, Zeca Dirceu fala nesta entrevista da sua família, lembra seqüelas e traumas e destaca o exemplo do sucesso e as vitórias que vieram com a democratização do País. Otimista, mesmo acompanhando “uma nova história de perseguição” a seu pai, acredita que ele (José Dirceu) vai dar a volta por cima. “Meu pai sempre teve atitudes corretas que hoje são incompreendidas por uma parcela da população, pelo próprio Judiciário, como também foram incompreendidas as atitudes dele na época da ditadura. Ele foi preso, torturado, foi banido do País. Pagou um preço até mais caro naquele período, mas ele estava certo. Eu não tenho nenhuma dúvida de que o tempo vai fazer justiça ao meu pai”.
O que foi para o senhor a ditadura no Brasil?
Foi um período amargo que levou o Brasil a perder décadas de avanços sociais e de desenvolvimento. Um período em que muitas pessoas tiveram os seus direitos de liberdade e de expressão podadas. Levou tempo para o povo entender as vantagens da democracia. Eu nasci em 1978, sou uma pessoa que praticamente não viveu esse período obscuro. Agora eu estudei, li e tive a convivência com o meu pai que participou efetivamente da luta contra a ditadura, pela redemocratização do País. A história dele no período em que eu ainda não tinha nascido, no Paraná, em Cruzeiro do Oeste, na clandestinidade, na busca já pela retomada de discussão da organização do País, ficou no meu DNA. A minha mãe também me conta períodos da vida dela de estudante, de toda a repressão naquela época.l eu cresci como um jovem que não viveu naquela época, mas que tinha todas as referências do que aconteceu. Talvez, até por isso, prematuramente comecei a participar dos movimentos sociais e das organizações estudantis. Me tornei secretário municipal com 21 anos e prefeito com 25 anos e me elegi deputado federal com 32 anos.
Sua infância foi no pós-ditadura, que lembranças tem desse período, como era a convivência com seu pai?
Eu vou falar do sentimento que vejo na minha família. Tem dois opostos. Vou citar o exemplo da minha avó materna. Ela teve seqüelas, traumas daquele período em que ficou sem ter notícias do meu pai, talvez por mais de uma década. Muitas vezes ela imaginava que ele estava morto, desaparecido. E depois, mesmo com o fim da ditadura, com a anistia, ele continuava com medo. E tem o outro lado, ai eu falo por mim, por meus primos e minhas irmãs. Todos nós crescemos com o exemplo e o espírito de luta que ele demonstrou. Ele arriscou a vida, se desapegou da família para lutar pelo Brasil, pela democracia, para buscar o fim da ditadura.
O senhor enfrenta pressões, as pessoas o comparam com seu pai?
Eu sempre me senti muito patrulhado. Não chegou a ser ruim porque isso me fez cada vez ter mais cuidado com a maneira de conduzir as coisas. Eu sabia que não poderia cometer nenhum pequeno erro porque ele teria repercussão nacional. Eu fui prefeito por duas vezes e sempre tive esse zelo e cobrei da minha equipe. Deu certo, terminei os meus dois mandatos com minhas contas aprovadas, nunca respondi processo. Estou exercendo o meu primeiro mandato de deputado federal na mesma linha. Agora também tem o outro lado positivo. Meu pai tem a história que ele tem. Ter o envolvimento familiar que eu tenho sempre em pareceu uma credencial, embora eu nunca tenha usado disso. Sempre procurei escrever a minha história do meu jeito, com as minhas convicções. Mas acabou sendo uma referência. Tanto é que o meu nome foi mudando. Eu era o Zeca, depois passei ser o Zeca do PT e depois de 2003 as pessoas – eu nunca divulguei isso – foram me chamando de Zeca do Dirceu e, por fim, Zeca Dirceu
Como está sendo viver esse momento atual em que seu pai, de certa forma, está revivendo uma história de perseguição, de cassação e de prisão?
Com a mesma convicção com que ele (meu pai) lidou no período da ditadura. Com a mesma convicção que a minha família lidou. Que ele vai dar a volta por cima. Ele sempre teve atitudes corretas que hoje são incompreendidas por uma parcela da população, pelo próprio Judiciário, como foram incompreendidas na época da ditadura. Ele foi preso, torturado, banido do País. Pagou um preço até mais caro naquele período, mas ele estava certo. Eu não tenho nenhuma dúvida de que o tempo vai fazer justiça e ele vai, daqui a 5 ou 10 anos ser reconhecido por tudo que viveu e que está sofrendo.
O que é o seu pai para você?
É uma pessoa que eu amo e admiro. Hoje sofro junto com ele por tudo que está vivendo, mas confio na garra dele, na capacidade dele para se superar. Ele vai dar a volta por cima. Ele está preparado para qualquer dificuldade e eu sempre digo isso observando o que ele fez com a saúde dele, como se cuidou. Meu pai, talvez, estava programado para viver até os 85, 90 anos, como a minha avó, que tem 93. Mas ele se reprogramou para viver até os 100, 110. Então, se alguém acha que vai conseguir tirar ele da vida pública, do convívio com o País vai ter esperar ai uns 40 anos.
Revista Especial Golpe Militar de 1964
