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Consenso perigoso

É hora de enfrentar o fantasma da inflação, Mais importante do que os investimentos, está a necessidade da continuidade da redução de juros, impostos e principalmente a valorização do câmbio.

Amir Khair – O Estado de São Paulo.
 
Após inúmeros pacotes com estímulos ao setor produtivo para que ele se torne
mais competitivo e invista, os resultados segundo o IBGE foram de um fraco
crescimento de 0,6% neste terceiro trimestre em relação ao anterior.
Anualizado, esse crescimento seria de apenas 2,4%. O resultado surpreendeu o
Ministério da Fazenda, o Banco Central e a maioria dos analistas, que
projetavam um avanço ao redor de 1%.

Algumas análises atribuem essa diferença à metodologia inadequada do IBGE na
estimativa da contribuição do setor financeiro, cujo spread (diferença entre
os juros cobrados dos clientes e o custo de captação do banco) menor seria,
segundo o IBGE, a causa da contribuição negativa desse setor ao PIB. Ocorre
que houve no período forte expansão do crédito. Segundo Chico Lopes,
ex-presidente do Banco Central, o IBGE falhou ao não entender adequadamente
os efeitos da redução do spread bancário no cálculo do índice; se
considerado o ajuste, o PIB teria subido 1,2% em vez de 0,6%.

De qualquer forma, foi criada uma dúvida sobre a metodologia do IBGE. Já se
fala que o critério atual subestima a realidade dos investimentos e que,
oportunamente, será feita nova metodologia recalculando o PIB dos últimos
anos para reparar isso.

Enquanto não ficar claro o impacto da metodologia sobre o cálculo do PIB,
vale observar que neste ano foram feitas desonerações da quota patronal do
INSS, queda da Selic, melhora no câmbio e melhores condições oferecidas pelo
BNDES nos empréstimos às empresas.

Todos esses estímulos não foram suficientes para observar resultados
favoráveis nos indicadores do setor produtivo. Aí começam a surgir teorias
de todo gosto. Entre elas, com maior destaque, vale citar a defendida pelo
ministro da Fazenda de FHC, Pedro Malan, que, em artigo no Estado de domingo
passado, afirmou que há um quase consenso entre economistas de que a chave
para o nosso crescimento econômico sustentado é o aumento de nossa taxa de
investimento dos atuais 18%.

Algumas análises afirmam que o nível adequado para permitir crescimentos de
4% ao ano seria de 22% em vez de 18%. Antes esse consenso defendia a taxa de
25%.

Fato é que não existe evidência empírica para justificar 22% ou 25%. Na
década de 50, o País cresceu em média 7,4% por ano e a taxa de investimento
média nesse período foi de 16,4% (!). Na década de 1960, cresceu 6,2% ao ano
e a taxa foi de 18,2% (!) e, na década de 1980, cresceu parcos 1,7% ao ano e
a taxa foi de 21,8% (!). Portanto, não há base empírica para essa "tese".

Os defensores do investimento apontam para essa "solução" dos 22%, mas param
por aí. Não avançam na avaliação da composição do investimento nem dos
condicionantes do seu comportamento.

A primeira observação é que os investimentos respondem por apenas 20% do
crescimento do PIB, ficando 60% para o consumo das famílias e 20% para as
despesas dos governos federal, estadual e municipal.

Além de pesar pouco na composição do PIB, 80% do investimento é feito pelas
empresas e apenas 20%, pelo setor público.

Apostar todas as fichas no investimento das empresas pode não levar a nenhum
resultado, pois, em época de crise internacional, o empresário fica receoso
sobre o impacto dela em seus negócios e tende a não arriscar sua empresa.
Por outro lado, apostar todas as fichas no investimento público é
desconhecer suas dificuldades, marcadas pela lentidão e pelo alto custo
devido ao cipoal burocrático e ao baixo nível de controle e gestão.

Ao contrário do quase consenso de economistas, defendo que o investimento é
consequência, e não causa, do crescimento e que, para crescer, é necessária
a retirada das travas que inibem o consumo, onde a principal é a taxa de
juros bancária. Mas isso não basta. É necessária uma maior desvalorização
cambial para R$ 2,50, para que o aumento do consumo não vaze para o produto
importado. Aí surgem os guardiões da inflação, afirmando que desvalorizar o
real vai gerar inflação. Mas não foi o que ocorreu quando o câmbio foi
desvalorizado em 31% desde agosto do ano passado.

Enquanto a política econômica não se libertar do fantasma da inflação e não
corrigir juros bancários e câmbio, corre-se o risco de cair nos quase
consensos dos 22%.

Amir Khair é consultor e mestre em Finanças Públicas pela FGV.

 

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