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Temos um Pelé no banco de reservas, diz Gilberto Carvalho

A oposição não deve se "agitar" em caso de dificuldades na gestão Dilma Rousseff porque o governo tem um "Pelé na reserva". O recado é do paranaense Gilberto Carvalho, chefe de gabinete de Lula e agora ministro da Secretaria-Geral da Presidência. Em entrevista às repórteres Cátia Seabra e Natuza Nery, publicada na edição da Folha de S. Paulo desta segunda-feira, 3, Carvalho chorou várias vezes ao lembrar da relação com Lula. Leia a seguir a íntegra da entrevista.

Folha – Qual será seu maior desafio no ministério?
Gilberto Carvalho –
Administrar as tensões naturais das demandas dos movimentos sociais e o que o governo consegue atender. Exemplo: salário mínimo, reforma agrária e a questão indígena. As demandas do funcionalismo. Embora não seja a minha secretaria a responsável pela discussão, tem uma tensão.

Circula no governo a informação de que haverá um aumento para os ocupantes de cargos de confiança.
Há uma decisão já tomada de fazer um reajuste de DASs [sigla para designar cargos de confiança]. Não sei adiantar em que nível. Mas há uma ideia de fazer uma correção. O último reajuste foi há quatro anos.

Já passou pela presidente?
A decisão foi tomada pelo Planejamento. Mas não deu tempo de fazer no governo Lula. Caberá a Dilma fazer. O problema sempre é manter o salário num nível que não seja elevado em relação ao mercado, mas também não tão defasado que te impeça de ter quadros de qualidade.

Não é um sinal ruim dar aumento quando há necessidade de corte de despesas?
É o que ela [Dilma] chama de gasto inteligente. Se não há um funcionalismo minimamente motivado, se a pessoa tem a preocupação de o dinheiro não dar até o fim do mês, prejudica o desempenho profissional. Se fosse um reajuste desmedido, bom. Mas não é o que se está pretendendo. É correção da perda dos últimos quatro anos.

O temperamento de Dilma não impõe risco de isolamento dos movimentos sociais?
O que a gente perde em relação ao Lula com a Dilma é aquilo que chamaria de reação epidérmica aos movimentos, desse contato pelo carisma, pela história dele, pela facilidade com que captava os sinais. A gente perde.
Mas a Dilma tem essa sensibilidade. Quando me chamou, disse: "Sei que preciso dessa relação mais do que Lula precisou". Não é a área que me preocupa.

Qual é? É a política?
A política, na medida em que não temos o peso definidor da figura do Lula, a capacidade de sedução que ele exerceu. A Dilma não tem naturalmente essa relação. Vamos ter que construir.

O sr. disse, em entrevista, que, se houvesse dificuldades, o Lula poderia voltar. Levou bronca?
Falei a coisa mais óbvia. Acho que o governo da Dilma será de muita competência. Se Deus quiser, faremos um belíssimo governo e ela será reeleita. É evidente que, se não der certo, temos um curinga. Estou dizendo para a oposição: "Calma. Não se agitem demais. Temos uma carga pesada. Não brinca muito que a gente traz. É ter o Pelé no banco de reservas".

Que dificuldade pode existir?
Tenho até medo de falar e se tornar uma profecia ruim. Mas digamos que haja uma dificuldade na gestão, na economia, algum acidente, por exemplo, na economia do mundo.

O PMDB não está satisfeito com a perda de espaço. Falam que haverá troco.
Há importantes discussões a serem feitas no segundo e no terceiro escalões. O PMDB tem a grande chance histórica de mudar sua posição, de ser de fato um partido com unidade, e se converter numa verdadeira alternativa de poder. Aposto na soma desses fatores: mais participação do PMDB em outros escalões e o fato de que o partido tem uma chance de mudar de posição…

Mudar de imagem?
Mudar de imagem. De romper essa tradição de um partido regionalista e que não foi até hoje alternativa de poder efetivo.

Lula pode impor uma sombra à Dilma? Ele vai ser usado com moderação?
Lula vai ter um comportamento rigorosamente discreto. Não vai falar em público, não vai me usar para mandar recado. Não precisa disso. A relação deles é tão direta, tão próxima. Ontem quando ela me abraçou, disse: "Nossa, você viu como ele estava triste quando desceu a rampa? Vi nos olhos dele que ele estava triste".
Dilma e Lula chegaram a um ponto da relação que isso supera qualquer necessidade de intermediação. Lula não precisa de mim. Seria muita pretensão querer ser o espião do Lula no Planalto. Vou continuar tendo uma relação com o Lula… [chora].

Como foi para o sr. vê-lo descendo a rampa?
Difícil dizer. Tem uma coisa enorme de agradecimento a Deus e à vida por essa possibilidade de ter convivido com esse cara. Tem uma coisa de perda de cotidiano, de liberdade. Vou ficando velho e ficando chorão. Caramba. Não pensei que doía tanto. É isso, um tempo da minha vida que sei que terminou.

Há uma avaliação de que, em relação à ética, Dilma seria mais firme. O sr. concorda?
Acho uma bobagem. Lula sofreu muito com tudo isso, vocês não imaginam como ele sofreu com os problemas da nossa turma e de outros aliados. Se fosse isso ele não tinha tirado do governo tantas pessoas tão ligadas a ele.
A Polícia Federal o informava das operações antes de elas acontecerem.
Ele nunca ligou para o irmão para dizer que a polícia iria entrar na casa dele. Falar que esse cara contemporizou? Eu acompanhei o episódio do Vavá. Doeu na alma do Lula [chora]. Ele sabia que era uma bobagem, que o irmão dele era um ingênuo sendo utilizado por um bando de picaretas. Mas não ligou para o Vavá.

Acha que essa tolerância…
Eu quero insistir: não houve tolerância, eu não aceito a palavra tolerância. Quando o Lula fala que ele se insurgiu contra o mensalão, não é que ele concordou com as atitudes do Delúbio, não é isso.
Ele disse que não houve mensalão no sentido de que o governo não precisava pagar para que bandidos votassem com o governo.

A insurgência não é contra os erros que aconteceram. É também contra essa história de que o governo dele foi o inventor da corrupção, quando a gente sabe que governo começou a combater a corrupção, porque antes tudo era discretamente e tucanamente muito bem guardado.

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