Um passinho para o centro, por favor – por Rogério Galindo
Anos atrás, um deputado do PFL brincava que governo do PT era como catapora. Dava uma vez, depois nunca mais. Hoje, se um petista quisesse devolver a brincadeira na mesma moeda diria que os governos do DEM, sucessor do PFL, se parecem cada vez mais com a varíola, ou qualquer outra doença perto da extinção. Quatro anos atrás, o partido elegeu um único governador. Era Arruda, que caiu desastrosamente, arrastando no nome do mensalão que criou o partido que o havia eleito. Restou o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, que agora deserta para o PMDB. O saldo de 2010 devolveu dois palácios ao antigo PFL: mas os cargos de Santa Catarina e Rio Grande do Norte são poucos e de pouca visibilidade. Indicada pela senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), li, gostei e posto a coluna "Um passinho para o centro, por favor", de Rogério Galindo neste sábado, 29, na Gazeta do Povo.
Um passinho para o centro, por favor
Rogério Waldrigues Galindo
Anos atrás, um deputado do PFL brincava que governo do PT era como catapora. Dava uma vez, depois nunca mais. Hoje, se um petista quisesse devolver a brincadeira na mesma moeda diria que os governos do DEM, sucessor do PFL, se parecem cada vez mais com a varíola, ou qualquer outra doença perto da extinção.
Quatro anos atrás, o partido elegeu um único governador. Era Arruda, que caiu desastrosamente, arrastando no nome do mensalão que criou o partido que o havia eleito. Restou o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, que agora deserta para o PMDB. O saldo de 2010 devolveu dois palácios ao antigo PFL: mas os cargos de Santa Catarina e Rio Grande do Norte são poucos e de pouca visibilidade.
A tal refundação parece cada vez mais urgente. E o deputado Alceni Guerra, nos últimos dias de seu mandato, decidiu apontar qual é o possível caminho para a legenda. “Precisamos dar uma guinadinha para o centro”, disse ele. O risco, diz Alceni, é de o partido ficar sem discurso. Ou pelo menos sem discurso para o homem urbano.
Alceni tem um bom argumento para convencer seus correligionários. “Não podemos mais ficar com esse discurso de defesa da propriedade. O Lula nos fez esse favor de mostrar que o direito à propriedade no Brasil não está ameaçado.” Ou seja: se nem o petismo criou problemas, os donos de terras no país podem ficar sossegados.
Mesmo assim, o Democratas continua sendo marcado pela mesma litania anticomunista dos tempos da UDN. Seu símbolo maior, por esses dias, se tornou a senadora Kátia Abreu, do Tocantins. E não é acaso que a senadora-símbolo seja justamente a presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA).
Para o “homem urbano” da frase de Alceni, as brigas de Kátia Abreu não fazem sentido na maior parte das vezes. Ou, pior, fazem o partido parecer meramente preocupado com os direitos de uma elite. A senadora, afinal, critica a fiscalização de trabalho escravo, quer eliminar proteções ambientais e entrou numa querela perigosa com o Ministério Público: foi à Justiça contra uma campanha que alertava o consumidor para a origem da carne que consumia.
Se a defesa da propriedade e dos proprietários não está sendo suficiente para o DEM, Alceni diz que seria preciso alguma coisa a mais. Exemplifica: em 2010, com o discurso anti-PT, a legenda elegeu 76; na eleição anterior, em 2006, havia conseguido 40 cadeiras a mais. “No nosso ano de maior sucesso, nosso lema foi emprego e educação. Agora, deveria ser emprego, saúde e educação.”
Alceni, em suma, quer que o DEM aprenda a lição do próprio PT. Na época em que sofria da síndrome de catapora, o partido tinha um discurso significativamente mais radical de esquerda. Não colava. O antídoto veio com a Carta ao Povo Brasileiro, em 2002, e os petistas prometeram jogar mais moderadamente.
Agora, seria a vez de o DEM fazer o mesmo. Até porque o petismo parece ter empurrado milhões de eleitores para a social-democracia: muitos impostos e mais benefícios sociais. Jogar contra isso, aposta Alceni, seria tornar o partido inviável. Mas será que os ruralistas vão topar a guinada rumo ao centro?
Rogério Waldrigues Galindo é repórter da Gazeta do Povo.
