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Queremos médicos!, pedem prefeitos do interior do Paraná

Ótima matéria da última edição da revista da AMP sobre a falta de médicos nas cidades do interior do Paraná. "Na maioria dos municípios paranaense, o grito de prefeitos, lideranças e da população é uma só: queremos médicos! A procura é grande e não adianta oferecer bons salários, casa, comida e outras condições que os médicos não aparecem e são raros no interior". "Também pudera. Levantamento do Conselho Federal de Medicina converge com o mais recente estudo da organização Pan-Americana da Saúde, e mostram um cenário preocupante para os municípios pequenos, com menos de 50 mil habitantes – a maioria no Paraná". Leia a seguir a matéria na íntegra.

Queremos médicos!

Municípios do interior do Paraná sofrem por falta de médicos mesmo com oferta de ótimos salários

Na maioria dos municípios paranaense, o grito de prefeitos, lideranças e da população é uma só: queremos médicos! A procura é grande e não adianta oferecer bons salários, casa, comida e outras condições que os médicos não aparecem e são raros no interior.

Também pudera. Levantamento do Conselho Federal de Medicina converge com o mais recente estudo da organização Pan-Americana da Saúde, e mostram um cenário preocupante para os municípios pequenos, com menos de 50 mil habitantes – a maioria no Paraná.

Concentração – Por exemplo, a cidade Curitiba concentra 54% do número total de médicos hoje em atividade no Paraná. Dos 16.894 médicos, a capital paranaense abriga 8.661 profissionais. A outra parte (46%) trabalha, principalmente, nas grandes cidades como Londrina, onde 1,7 mil médicos desempenham a função. Maringá, conta com 1.093; e Cascavel, 598. 

Dos 399 municípios do estado, 68 contam com apenas um médico residente. Para contextualizar, a cada ano 800 novos médicos se formam nas nove faculdades de Medicina do Paraná. Segundo a pesquisa, há um processo de agrupamento dos médicos em grandes centros urbanos.

A grande maioria desses profissionais de saúde prefere trabalhar em cidades de médio ou grande porte. Os motivos são vários e no Paraná não é nada diferente.

Especialização – O presidente da presidente da Associação Médica do Paraná, José Fernando Macedo, aponta a falta de especialização como um dos fatores responsáveis pelo desinteresse dos médicos em atuar em pequenos municípios do interior. “Apenas 38% dos médicos que se formam fazem residência em cidades do interior ou mesmo nos grandes centros”, informa.

Para o presidente do Conselho Regional de Medicina do Paraná, Miguel Hanna Sobrinho, o grande problema é a falta de recursos nas cidades do interior. “Um médico não quer ser responsabilizado se alguma coisa acontece, se falta remédio ou estrutura para um exame. A culpa não é dele, mas ele acaba sendo cobrado por isso”, afirma.

Salários – O desinteresse dos médicos para trabalhar no interior obrigou os municípios adotar medidas emergenciais ou mesmo drásticas. Prefeituras promoveram concursos públicos relâmpagos, elevaram os salários a patamares, em muitos casos, superior ao padrão socioeconômico das cidades ou até mudaram leis municipais.

Tudo para despertar o desejo dos médicos em permanecer nas cidades. O município de Telêmaco Borba, na região central do Paraná, abriu 13 vagas para médicos do Programa Saúde da Família (PSF), com salário de R$ 8.599.

O salário oferecido, para efeito comparativo, é maior à remuneração oferecida aos agentes da Polícia Federal. No concurso, o município oferece ainda outras 12 vagas para médicos de várias especialidades, cujo menor salário passa os R$ 5 mil.

“O alto salário é justificável pela carência de profissionais na área de saúde”, salientou o secretário de Saúde, Ricardo Arcanjo. O salário oferecido em Telêmaco Borba é superior aos grandes centros urbanos. Em São Paulo, por exemplo, com quase 11 milhões de habitantes, o salário para médico do PSF é de R$ 7,5 mil.

Três concursos – Mas o município é uma exceção. A maioria das cidades pequenas não consegue adequar os salários para atrair os profissionais médicos. Isso acontece em Munhoz de Melo (a 45 km de Maringá), com 3.688 habitantes. O maior vencimento é o do prefeito, cerca de R$ 4 mil mensais.

Como saída, a prefeitura, em gestões anteriores, promoveu três concursos públicos para contratar médicos, mas não houve candidatos. Outra tentativa, sem sucesso, foi a redução da carga horário de trabalho. Por fim, a prefeitura contratou uma empresa prestadora de serviços médicos, cancelando, depois,o contrato.

Após tantos problemas, Munhoz de Melo finalmente regularizou o atendimento à população. "Hoje temos sete médicos, entre clínico-gerais, pediatra e ginecologista, três deles concursados", afirma o secretário da saúde, Mauro Sérgio Araújo.

Carreira – A fuga e o distanciamento de médicos dos municípios do interior escondem vários problemas estruturais, políticos e sociológicos. O cardiologista Antônio José (nome fictício), aposta na adoção de políticas de planejamento governamental e do serviço público brasileiro, para a atração e permanência desses profissionais nos municípios pequenos.

Atualmente, em Foz do Iguaçu, o médico considera fundamental a implantação de uma política de carreira do estado. Segundo ele, a medida permitiria, aos servidores públicos, não apenas os médicos (juízes, militares, professores, etc.) entre outros pontos, a elaboração de um projeto de vida profissional.

“Desse modo, os médicos recém-formados, por exemplo, têm condições de projetar à carreira, além de garantirem um retorno e assistência social, porque sabem que passarão apenas um período nessas cidades pequenas, se assim optarem, para depois seguirem para municípios maiores”, disse.

Escolha – Segundo Antonio José, mais de 90% dos médicos brasileiros são formados em cidades médias e grandes, acostumados com o acesso fácil à cultura, lazer e à educação.  Essa formação, diz ele, influencia diretamente a escolha da cidade e o ambiente de trabalho deles.

“Por experiência própria, pois já trabalhei em municípios com menos de 50 mil habitantes, como é o caso de Eunápolis, na Bahia, os médicos encontram muitas dificuldades, inclusive de transporte e de desagregação familiar, pela distância dos centros urbanos. Por isso, optam pelas cidades maiores”, analisou.

Falta generalizada – O problema da falta de médicos nos municípios do interior do Paraná segue a mesma ordem em nível nacional. Não há no Brasil falta de médicos. Pelo contrário. Os números de médicos no país crescem, proporcionalmente, acima dos índices da população.

Esse contingente de profissionais, segundo especialistas, seria suficiente para assegurar bom atendimento. Seria. Se não fosse um detalhe: existe concentração de médicos nos centros urbanos e nas áreas mais ricas do país, do mesmo modo no Paraná.

Segundo estimativas do IBGE, em 2000, havia no país, 260.216 médicos. Já em 2009 esse número aumentou para 330.825, um crescimento de 27%.
Nesse mesmo intervalo de tempo, a população cresceu aproximadamente 12% – de 171.279.882 para 191.480.630. Com isso, a proporção de médicos no país melhorou.

Região nobre – Enquanto em 2000 havia um médico para cada grupo de 658 habitantes, em 2009 a situação passou de um médico para 578 pessoas, segundo números divulgados pelo Conselho Federal de Medicina.

A maior parte dos médicos está na região Sudeste do país, que concentra 42% da população e 55% dos médicos. São 439 habitantes por profissional.

Somente em São Paulo estão 30% dos médicos brasileiros – o estado abriga 21% da população. Já na região Nordeste há um médico para cada 968 habitantes; e no Norte essa proporção chega a um profissional para cada grupo de 1.130 pessoas.

Capital/interior – A distribuição entre capital e interior também é desigual nos estados. Sergipe tem 92% dos médicos na capital. Em Roraima, são 10.306 habitantes por médico em cidades do interior. Há apenas 15 profissionais domiciliados fora da capital.
O resultado de tudo isso é que, enquanto algumas cidades apresentam índices similares aos dos melhores países europeus, outras localidades podem ser comparadas a países pobres africanos.

Curitiba, por exemplo, tem um médico para 227 habitantes, média similar à de países como Alemanha, Bélgica e Suíça. No entanto, no interior do Amazonas há apenas um médico para cada grupo de 8.944 habitantes. Número comparável ao de países como Guiné-Bissau (8.333) ou Angola (12.600).
 

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