País terá 20 anos de crescimento contínuo
Entrevista: Eike Batista, presidente do grupo EBX Empresário afirma que o pré-sal e a classe média puxam crescimento, mas defende investimentos em infraestrutura O empresário Eike Batista, presidente do grupo EBX, prevê pelo menos 20 anos de crescimento continuo no Brasil, mas ressalta a necessidade de investir na infraestrutura. Para ele, o pré-sal, aliado à crescente classe média, vai empurrar a economia. Ele fala também do superporto do Açu, definido como futura Roterdã da América do Sul.
Entrevista: Eike Batista, presidente do grupo EBX
Empresário afirma que o pré-sal e a classe média puxam crescimento, mas defende investimentos em infraestrutura
O empresário Eike Batista, presidente do grupo EBX, prevê pelo menos 20 anos de crescimento continuo no Brasil, mas ressalta a necessidade de investir na infraestrutura. Para ele, o pré-sal, aliado à crescente classe média, vai empurrar a economia. Ele fala também do superporto do Açu, definido como futura Roterdã da América do Sul.
Por que construir um superporto?
Temos uma mineradora gigante e precisamos dessa infraestrutura. Se você depende de alguém, isso pode diminuir suas margens (de ganho). A conseqüência é (construir) todo um sistema de logística. Nesse caso as minas, os dutos ou ferrovia até o porto, e o porto em si. O sudeste do Brasil concentra 75% do nosso PIB, e nós não temos portos eficientes. A China é a fábrica do mundo porque construiu serviços portuários gigantescos, que ofereceram (oportunidades) de negócio, conectando importantes sistemas de logística. Açu será a Roterdã da América do Sul.
Sobre o seu porto, alguns críticos diriam: parece ótimo, mas é a velha ideia de o Brasil vender commodities, não produtos com valor agregado. É isso?
Não é verdade. Somos o país que produz o melhor minério de ferro do mundo. Os chineses precisam do nosso minério para misturar (com os de outra procedência). A essência é que nós temos produção de baixo custo. O ferro está a US$ 175 hoje e nós conseguimos colocar no navio a US$ 20. Mas o ferro é só um dos pilares do porto do Açu. Nós encontramos na Bacia de Campos cinco bilhões de barris (de petróleo). Nós vamos explorá-lo a US$ 18 o barril. Eu não tenho nenhuma preocupação se o preço do petróleo (hoje em US$ 112) cair para US$ 35. A produção em massa de petróleo já justifica a construção. Grandes estaleiros serão construídos lá. E começa com investimento de US$ 30 bilhões para construir um estaleiro moderno.
Você acha que o fato de o Brasil exportar commodities e não produtos de valor agregado é um problema?
No passado foi. Vivemos hoje um ciclo em que a China não vai parar de crescer, talvez não a 10% ou a 11%, mas não menos que 8%. Ferro e aço são fundamentais para uma nação. Se você olhar para os trens de alta velocidade, as cidades, o sistema de metrô…
Mas eles estão desenvolvendo tecnologia. E as exportações chinesas no Brasil estão crescendo.
O Brasil era o segundo maior produtor de navios do mundo nos anos 1980. Acabou que tivemos 20 anos de política liberal e pensamos: vamos comprar nossos navios fora. Aí o presidente Lula criou essa obrigação de produto nacional, quando a agência nacional de petróleo trabalhou (licitou a exploração) com os blocos de petróleo. Se você ganhar um bloco, terá de empregar pelo menos 70% de produtos brasileiros. É uma política industrial muito bem arquitetada, baseada no petróleo. Sem o meu estaleiro, eu não conseguiria empregar 70% de produto nacional (nas plataformas de exploração). Eu até poderia, mas teria de usar estaleiros ineficientes, que me sairia uns 40% mais caro. Por isso estou fazendo o porto do Açu.
A falta de infraestrutura é um problema no Brasil?
Sim, é. As pessoas se dão por satisfeitas por produzirem soja de maneira eficiente no interior, mas não se importam com o fato de haver 200 km de fila de caminhões esperando para carregá-la no porto de Paranaguá. Eles então perdem 40% da eficiência. Açu vai ajudar a dissolver este problema. Nós seremos capazes de lidar com 350 milhões de toneladas de produtos, petróleo, minério de ferro, contêineres. Todas as indústrias querem produzir lá, porque nosso estaleiro vai atrair muitos parques de produção. E, em vez de 18% de imposto, teremos apenas 2%, porque é considerada área de desenvolvimento. A garantia de produção é baseada em custos muito baixos de produção. Nós não dependemos do mercado. O mercado depende do que iremos produzir.
Com o Real tão forte, muitos podem dizer que, quando o senhor inaugurar sua Roterdã, já não haverá o que vender.
Você deve se dar contar do seguinte: o mercado brasileiro é 90% do PIB. Nós só exportamos 11% do nosso PIB. É o mercado interno que está empurrando a economia. Apenas 4% de nosso PIB são hipotecas. Nos EUA são 60%, 70%. Esse país é totalmente desalavancado. Nós estamos vivendo o ciclo que os EUA tiveram nos anos 1960. Em 2020, apenas a nossa produção e da Petrobras saltará de dois milhões de barris hoje para seis milhões. E não estou incluindo soja e minério de ferro. Com mais dois bilhões de pessoas chegando ao mercado de consumo…
Mas eles vão comprar produtos chineses, não brasileiros.
Mas há uma demanda interna. Desses dois milhões para seis milhões de barris, 70% vão para a produção de manufaturados brasileiros.
Mas isso não significa que as pessoas vão comprar 70% de produtos brasileiros nas lojas.
No caso da indústria do petróleo, sim. O grande motor da economia do Brasil será o petróleo. No caso da indústria naval, quem pensar em vir ao Brasil terá benefícios fiscais. O governo está interessado em promover a indústria naval.
Se eu conversasse com um empresário dos EUA ou no Reino Unido, eles diriam que querem o apoio do governo. Mas não diriam que querem proteção, 70% dos produtos nacionais. Este é o modelo brasileiro?
Cingapura é um dos países mais bem administrados do mundo. Eles não tinham empreendedores. Foi o governo quem induziu as indústrias. No Brasil, pouco empreendedores se arriscam. Porque a China é uma força na indústria? Eles (governo) estão empregando uma grande quantidade de capital em suas empresas. Até nos EUA. Veja a Nasa… Se há bons cérebros no governo e eles entendem o mercado, então deixe o governo induzir o crescimento. Para mim, é mais barato comprar, nos próximos cinco anos, na Coreia do Sul, em Cingapura… Mas eu acabo forçado a comprar aqui. Se me deixarem livre, vou comprar onde for mais barato e não vou criar emprego no Brasil.
É engraçado o fato de o senhor dizer: Não quero ser livre, eu quero o governo me forçando a fazer a coisa certa.
Se não tivéssemos um mercado interno, eu nunca conseguiria montar meu estaleiro. A Petrobras é tão grande que só o que eles compram já induziria a instalação de mais dois estaleiros. Será muito difícil competir nos próximos sete anos com os sul-coreanos, porque eles têm trabalhadores muito eficientes. Mas o petróleo é nosso.
O seu porto me lembra a política de substituição de importações dos anos 1960. É uma volta ao modelo?
Se você tem um mercado interno, tem controle da matéria-prima, pode agregar valor ao forçar a produção local. Se eu comprar um carro da Alemanha, será metade do preço. Mas há 14 montadoras no país, e os chineses estão chegando. Por quê? Porque é a única forma de ter acesso ao mercado brasileiro. É o modelo da China. Você quer o meu mercado? Construa aqui. Nós estamos criando 2,5 milhões de postos de trabalho por ano.
Mas eles estão consumindo produtos chineses…
Por enquanto, por enquanto. O IPad está vindo para o Brasil. Se compro um IPad aqui, me custa 2,5 vezes o que pagaria em Nova York.
A crise deixou desacreditada a ideia de que se deve abrir os mercados para tudo?
Acho que sim, porque nós nunca poderíamos competir (em certos setores). Meu projeto começa com 35% da eficiência dos sul-coreanos.
O senhor está dizendo que não pode competir, então…
Não, não… Eu preciso de investimentos, da metodologia de construção. Vou conseguir 80% da eficiência sul-coreana nos próximos cinco anos. Tudo bem. O país estará criando e preservando empregos, porque há 100 bilhões de barris (no fundo do mar), e esta (naval) será uma indústria pelos próximos cem ou 150 anos.
No Brasil a burocracia é pesada, o custo de contratar alguém é grande… Isso tende a mudar?
Nós nunca vamos chegar à eficiência da Coreia do Sul, mas é o petróleo brasileiro quem esta pagando a conta. Nos últimos anos, tivemos de tirar 120 licenças ambientais…Eu tenho empreendimento no Chile e a burocracia não é menor, na Colômbia não é menor.
O Brasil já viveu tempos de bonança na economia, com retração depois. O senhor acha que desta vez será diferente?
Vejo dez ou 20 anos de crescimento contínuo. A China coloca 20 milhões de pessoas no mercado de consumo todo ano. O Brasil coloca dois milhões. A Índia coloca três milhões. Nós vivemos um ciclo em que o mundo é global. Os recursos do mundo estão mapeados, e nós temos muito no Brasil. A natureza nos ajuda.
Fonte: O Estado de São Paulo
