No bico da picareta, a pista definitiva sobre os “pterossauros do Paraná”
O jornal Ilustrado Umuarama traz, neste domingo, uma reportagem completa sobre o fóssil de pterossauro encontrado em Cruzeiro do Oeste. Conheça a posição de cientistas e a importância desta descoberta para o estado.
O jornal Ilustrado Umuarama traz, neste domingo, uma reportagem completa sobre o fóssil de pterossauro encontrado em Cruzeiro do Oeste. Conheça a posição de cientistas e a importância desta descoberta para o estado.
A valeta aberta a picareta na beira da estrada tinha a função de melhorar o escoamento da água pela estrada, em dias de chuva forte. Mas o que Alexandre Gustavo Dobruski, falecido em 1986, e seu filho João Gustavo Dobruski, encontraram no bico das picaretas definitivamente foi mais importante do que a solução para o escoamento de água da chuva. Ali, numa estrada vicinal do pequeno município de Cruzeiro do Oeste, surgia para o mundo da ciência o primeiro fóssil de pterossauro encontrado longe das áreas litorâneas.
Corria o distante ano de 1971, mas ainda levaria quatro décadas até que aquele pequeno fragmento de osso pneumático fosse identificado como pertencente a um pterossauro da família Tapejaridae. Sem ter ideia certa do que fazer com a pedra incrustada de ossos, mas certo de que a peça poderia ter algum valor científico, “seo” Alexandre a guardou na estante de casa por quatro anos.
Em 1975, aproveitando que alguns primos estavam de passagem e iriam voltar para Ponta Grossa, onde moravam e estudavam, João Gustavo recolheu mais algumas amostras e pediu que os fósseis fossem levados até a universidade local, para análise. Meses depois, os parentes informaram que os fósseis haviam sido datados com aproximadamente 75 milhões de anos, mas não tinham grande importância científica.
Descoberta
A espera pela resposta exata dos exames levou exatos 36 anos, e chegou por mais uma daquelas vias tortas da vida, as coincidências que marcam as grandes descobertas científicas. Na tarde do dia 16 de julho de 2011, ao abrir uma das gavetas do arquivo do Departamento de Geociências (DEGEO) da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), dois pesquisadores deram de cara com os dois blocos de arenito repletos de ossos pneumáticos. A única identificação era uma etiqueta com as palavras “Cruzeiro do Oeste”.
Imediatamente eles perceberam que estavam diante de uma descoberta importante, pois identificaram um crânio com a morfologia (forma) típica de um pterossauro da família Tapejaridae. Mas a incredulidade tomou conta deles ao identificar que o bloco que servia de base para os ossos era formado por um arenito típico do Paraná, o famoso arenito Caiuá. E pterossauros – pelo menos era o que se acreditava até então – não tinham vivido no Paraná há 100 milhões de anos.
Os pesquisadores que faziam a busca por fragmentos fósseis eram Paulo César Manzig e Luiz Carlos Weinschutz, ligados ao Centro Paleontológico (Cenpáleo) da Universidade do Contestado, em Mafra (SC). Especialistas no assunto, eles recolhiam material científico para o livro “Museus & Fósseis da Região Sul do Brasil”.
Intrigados com aquela descoberta incomum, resolveram estender a viagem por dois dias, indo até Cruzeiro do Oeste para tentar descobrir a origem daquelas pedras.
E ali, na pequena Cruzeiro do Oeste, mais uma vez a coincidência “deu as caras” para ajudar os pesquisadores. À procura de um guia que os levasse até as pedreiras da cidade, onde esperavam encontrar mais explicações para o mistério, os pesquisadores pediam informações no balcão da Prefeitura quando foram surpreendidos pela informação de que um trabalhador de uma concessionária de caminhões poderia ser a chave para a elucidação do caso.
Este trabalhador (ah, a coincidência!) era ninguém menos que o próprio João Gustavo Dobruski. Ao ver as fotos das peças que havia enviado para Ponta Grossa 36 anos antes, ele não se conteve. “Meu Deus! Eu não acredito!” foram as palavras pronunciadas diante dos olhos brilhantes dos pesquisadores, segundo descrição dos mesmos à página 226 do livro “Museus & Fósseis da Região Sul do Brasil”, publicado recentemente com um capítulo inteiramente dedicado ao “pterossauro de Cruzeiro do Oeste”.
Terminava ali a longa espera de João Gustavo Dobruski por respostas consistentes para o mistério dos ossos fossilizados. Seu pai, Alexandre, infelizmente não teve a mesma sorte. Falecido em 1986, não pode usufruir da felicidade de saber que, mesmo involuntariamente, deu uma grande contribuição para a ciência e o progresso dos estudos sobre os animais que habitaram a nossa região há mais de 100 milhões de anos.
Feita a descoberta, agora começam as escavações para entender o mistério
Há 100 milhões de anos, a região que hoje abriga o Noroeste do Paraná era uma imensidão desértica. Em meio aos amontoados de dunas, surgiam pequenas aglomerações onde a vegetação vicejava e formava arbustos e ajuntamentos de gramíneas. Era um ambiente adverso, e totalmente inapropriado para a vida de pterossauros frugívoros, ou seja, que se alimentam basicamente de frutos. Como, então, os fósseis de pterossauro foram parar no subsolo de Cruzeiro do Oeste?
A hipótese mais palpável que os pesquisadores Paulo César Manzig e Luiz Carlos Weinschutz – ligados ao Centro Paleontológico (Cenpáleo) da Universidade do Contestado e autores do livro “Museus & Fósseis da Região Sul do Brasil” – encontraram para esta presença incomum é a possibilidade de que a região de Cruzeiro do Oeste fosse um tipo de “oásis” em meio ao imenso Deserto Caiuá, concentrando uma umidade que permitisse a proliferação de espécies como o pterossauro.
E agora, com a descoberta feita, começa o desafio da preservação e correta exploração do sítio arqueológico onde estão localizadas as ossadas. Isso porque, se não houver um controle estrito, as provas científicas podem começar a se perder diante da sanha invasora de “espertalhões” que coletarão amostras para guardar na estante de casa ou, pior, tentarão negociar os fósseis por qualquer dinheiro que for oferecido.
“Estes fósseis só interessam a museus e centros de pesquisa. Ficar com fragmentos deles na estante de casa, além de ser crime, prejudica a pesquisa que está só começando. Por isso, pedimos a quem encontrar estes fósseis que encaminhe para a Unipar, que passa a ser parceira deste projeto junto com a Universidade do Contestado (UnC), a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e a Universidade Federal do Paraná (UFPR)”, diz o pesquisador Luiz Carlos Weinschutz.
Segundo ele, as visitas científicas ao “jazigo fossilífero” de Cruzeiro do Oeste devem começar dentro de três meses. Antes será feito um planejamento das ações, bem como a interação entre as universidades envolvidas no projeto. A Prefeitura de Cruzeiro do Oeste já anunciou a criação oficial de um sítio arqueológico no local, para ajudar na preservação do terreno que abriga os ossos de pterossauro.
“É preciso assegurar que este patrimônio permaneça na região e que a descoberta desse sítio paleontológico reflita em contribuições efetivas para Cruzeiro do Oeste, sobretudo nas áreas de educação e geoconservação, e que proporcione a médio prazo capacitação de pessoal novo na paleontologia e áreas afins”, dizem os pesquisadores no último parágrafo do capítulo dedicado ao “pterossauro de Cruzeiro do Oeste” no livro “Museus & Fósseis da Região Sul do Brasil”.
Como eram os pterossauros
Os pterossauros (do latim científico Pteurosauria) constituem uma ordem extinta da classe Reptilia (ou Sauropsida), que corresponde aos répteis voadores do período Mesozóico. Embora sejam seus contemporâneos, estes animais não eram dinossauros. O grupo surgiu no Triássico Superior e desapareceu há 65 milhões de anos.
Os primeiros pterossauros tinham mandíbulas cheias de dentes e uma cauda longa, enquanto que as espécies do Cretáceo quase não possuíam dentes numa mandíbula que parecia um bico e a cauda estava bastante reduzida. Alguns dos melhores fósseis de pterossauros vêm do planalto de Araripe, no Brasil.
Os primeiros fósseis de pterossauros foram descobertos em 1784 pelo naturalista italiano Cosimo Collini, que os interpretou como sendo de um animal aquático. Foi só no século XIX que Georges Cuvier sugeriu se tratarem de animais voadores.
As asas dos pterossauros eram constituídas por membranas dérmicas, fortalecidas por fibras, ligadas a partir do quarto dedo, que era desproporcionalmente longo. O pulso contém um osso extra, o pteróide, que ajuda a suportar esta membrana. As asas dos pterossauros terminavam nos membros posteriores, ao contrário dos morcegos atuais, onde as asas são braços modificados.
Outras adaptações para o voo incluíam ossos ocos (como as aves modernas) e um esterno em forma de quilha, próprio para a fixação dos músculos usados no voo. Os pterossauros não tinham penas, mas há evidências de que algumas espécies pudessem ter o corpo coberto de pelos (no entanto, diferente do dos mamíferos). O estilo de vida destes animais sugere que fossem de sangue quente (endotérmicos). (Fonte: Wikipédia)
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